02/11/2025

CORAÇÃO NOTURNO ( Cacaso / Edu Lobo )

 Meu coração bate lento

Como se fosse um pandeiro
Marcando meu sentimento
Retendo meu desespero
Como notícia do vento
Passando no meu cabelo
Meu coração bate lento
Meu coração bate claro
Como se fosse um martelo
Num rumo sem paralelo
Selando meu desamparo
Numa corrente sem elo
Numa aflição sem reparo
Meu coração bate claro
Meu coração bate quieto
Como se fosse um regato
Vagando pelo deserto
Sangrando no meu retrato
Abrindo meu desacato
Num ferimento coberto
Meu coração bate tão quieto

Meu coração bate negro
Como cantiga sem mote
Como a serpente num bote
Rompendo no meu sossego
Lambendo feito chicote
Noturno feito morcego
Meu coração bate negro
Lambendo feito chicote
Noturno feito morcego
Meu coração bate negro
Lambendo feito chicote
Noturno feito morcego
Meu coração bate negro

SOL E CHUVA ( Edu Lobo & Chico Buarque de Holanda )

 Se esta noite o tempo vai virar

Não me deixes sair sozinha
Pode amanhecer
Tudo fora de lugar
Posso não estar aqui

Nossa vida, o vento esfarrapar
Tua manta não ser a minha
Pode acontecer
Quando o tempo serenar
De eu não me lembrar de ti

Sim
Pode vir uma enxurrada
E carregar tudo o que eu tinha
Sim
Posso até gostar
Deixa eu sair sozinha

É sol e chuva, é penumbra e luz
Meu corpo está gelado e queima
Pode acontecer
Podes vir me procurar
Posso não estar aqui

TANGO DE NANCY ( Chico Buarque de Holanda & Edu Lobo )

 Quem sou eu para falar de amor

Se o amor me consumiu até a espinha
Dos meus beijos que falar
Dos desejos de queimar
E dos beijos que apagaram os desejos que eu tinha

Quem sou eu para falar de amor
Se de tanto me entregar nunca fui minha
O amor jamais foi meu
O amor me conheceu
Se esfregou na minha vida
E me deixou assim

Homens, eu nem fiz a soma
De quantos rolaram no meu camarim
Bocas chegavam a Roma passando por mim
Ela de braços abertos
Fazendo promessas
Meus deuses, enfim!
Eles gozando depressa
E cheirando a gim
Eles querendo na hora
Por dentro, por fora
Por cima e por trás
Juro por Deus, de pés juntos
Que nunca mais

NOITE DE VERÃO ( Edu Lobo & Chico Buarque de Holanda )

 Este não sou eu

Meus lábios nos teus lábios não são meus
O meu olho no seu olho no meu olho no seu
Duvida do que vê

Deve ser um rei
Deve ser um deus
O homem que possui você

Não pode ser eu
Você fala meu nome, quem sou eu
Você fala meu homem, meu homem, sim, mas qual
Eu nunca fui ninguém

Deve ser demais
Deve ser o tal
O homem que lhe faz tão bem
Sonho de mulher
Em noite de verão
Por que é que você veio me perder
Quer se divertir
Fingindo me adorar
Ou finge me enganar
Me amando pra valer

Beije-me um outro beijo uma outra vez
Que importa se esses beijos não são meus
Que eu só tenha essa noite de favor
Nos braços de uma atriz

Este não seu eu
Este é um impostor
Que pobre de amor se diz

Deve ser um rei
Deve ser um deus
Como deve ser feliz

A UMA MULHER AMADA ( Safo ) tradução: Joaquim Brasil Fontes Jr

 Ditosa que ao teu lado só por ti suspiro!

Quem goza o prazer de te escutar,
quem vê, às vezes, teu doce sorriso.
Nem os deuses felizes o podem igualar.
Sinto um fogo sutil correr de veia em veia
por minha carne, ó suave bem querida,
e no transporte doce que a minha alma enleia
eu sinto asperamente a voz emudecida.
Uma nuvem confusa me enevoa o olhar.
Não ouço mais. Eu caio num langor supremo;
E pálida e perdida e febril e sem ar,
um frêmito me abala eu quase morro eu tremo!

31/10/2025

FREVO DIABO ( Edu Lobo & Chico Buarque de Holanda )

 É bom, é brabo

É o frevo diabo no corpo
Torto corpo
Pára mais não
Fogo no rabo de qualquer cristão
Solta o frevo diabo
E adeus procissão
Pelo sinal da Santa Cruz pandemônio
No dia da padroeira
Não tem romeira, tem são morenas
Não tem novenas diabo, a gente é feliz
Não tem sermão, tem não, tem orquestra
E cana e briga e fogo e festa
Na matriz
É o barro, é o berro na garganta
Olha a ginga da santa, devagar com o andor
Meu corpo já não sabe o que faz
Santanás diz para parar
Que eu não posso mais
Diz para parar
Faz um pouco mais
Faz o diabo
Hoje é que eu me acabo meu irmão

VENTO BRAVO ( Edu Lobo & Paulo César Pinheiro )

 Era um cerco bravo, era um palmeiral,

Limite do escravo entre o bem e o mal
Era a lei da coroa imperial
Calmaria negra de pantanal
Mas o vento vira e do vendaval
Surge o vento bravo, o vento bravo

Era argola, ferro, chibata e pau
Era a morte, o medo, o rancor e o mal
Era a lei da Coroa Imperial
Calmaria negra de pantanal
Mas o tempo muda e do temporal
Surge o vento bravo, o vento bravo

Como um sangue novo
Como um grito no ar
Correnteza de rio
Que não vai se acalmar
Se acalmar

Vento virador no clarão do mar
Vem sem raça e cor, quem viver verá
Vindo a viração vai se anunciar
Na sua voragem, quem vai ficar
Quando a palma verde se avermelhar
É o vento bravo

Como um sangue novo
Como um grito no ar
Correnteza de rio
Que não vai se acalmar

ÁGUA ( Jatobá & Xangai )

 A grota inteira tá chorando de saudade

Da umidade que fecunda a terra seca
Vital retalho do céu que manda pro solo
Divino orvalho gozo que nos eterniza
Intimidade que pertence à natureza

Com essa imensa porção liquida riqueza
Certeza de brotar do solo os alimentos
Sustento eterno das matas do mar e vento
Centro da vitalidade do universo
Verso e reverso que reveste a natureza

Está presente na terra em toda parte
Na arte farta de tanta imagem poética
Que alimenta a filosófica estética
Clara cristalina límpida e forte
É responsável pela vida ou morte em marte

Se faltar aqui na terra tem tragédia
Catastrófica será se vem de sobra
e a nossa ignorância será mágoa
Mas a nossa inteligência será trégua
Quando sólidos e sós seremos água

28/10/2025

CHORO! ( José Gomes Ferreira )

Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro

as crianças violadas
nos muros da noite
úmidos de carne lívida
onde as rosas se desgrenham
para os cabelos dos charcos.

Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro
diante desta mulher que ri
com um sol de soluços na boca
- no exílio dos Rumos Decepados.

Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro
este sequestro de ir buscar cadáveres
ao peso dos poços
- onde já nem sequer há lodo
para as estrelas descerem
arrependidas de céu.

Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro
a coragem do último sorriso
para o rosto bem-amado
naquela Noite dos Muros a erguerem-se nos olhos
com as mãos ainda à procura do eterno
na carne de despir,
suada de ilusão.

Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro
todas as humilhações das mulheres de joelhos nos tapetes da súplica
todos os vagabundos caídos ao luar onde o sol para atirar camélias
todas as prostitutas esbofeteadas pelos esqueleto de repente dos espelhos
todas as horas-da-morte nos casebres em que as aranhas tecem vestidos para o sopro do
silêncio
todas as crianças com cães batidos no crispar das bocas sujas
de miséria.

Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro.

Mas não por mim, ouviram?
Eu não preciso de lágrimas!
Eu não quero lágrimas!

Levanto-me e proíbo as estrelas de fingir que choram por mim!

Deixem-me para aqui, seco,
senhor de insônias e de cardos,
neste ódio enternecido
de chorar em segredo pelos outros
à espera daquele Dia
em que o meu coração
estoire de amor a Terra
com as lágrimas públicas de pedra incendiada
a correrem-me nas faces
- num arrepio de Primavera
e de Catástrofe!

Por Célia Moura

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27/10/2025

CÓLICAS ( Veriana Ribeiro )

tem algo me comendo por dentro

entranhando-se em minhas vísceras

costurando meu corpo ao avesso

a dor que eu sinto

vem de várias gerações

mulheres

meninas

senhoras

não conheço as mulheres

da minha família

suas histórias se perderam

nos quilômetros e anos que nos separam

mas todas as nossas histórias

são sempre iguais

de bruxas queimadas

e mulheres que correm com os lobos

deixo que seus fantasmas

sussurrem no meu ouvido

as cantigas perdidas pelo tempo

e façam os chás e banhos

que vão curar as minhas feridas

e as dores de todas as outras vidas

que vivem dentro de mim

e me comem por dentro

entranhando nas minhas vísceras

costurando meu corpo ao avesso

Por Anum Costa

ainda que eu revelasse

a ti meus segredos sórdidos

ainda que despisse meu

íntimo

ante tua face 

e a ti

mostrasse minhas fantasias

e se te segredasse meus medos todos

os erros e os enganosos

acertos

que depois se revelaram 

equívocos

e ainda que te confessasse que meu

pensamento não 

acompanha esta cultura

que desmatou meu corpo físico

meu imaginário

e ainda que em teu ouvido soprasse

meu tesão minhas aspirações 

sonhos expectativas

se eu gritasse que 

nunca esqueci

quem me amou um dia sequer

nem quem me feriu

e te contasse como quem narra um conto

que gosto de estar nua na frente de outros sem 

qualquer pretensão sexual

se eu disser que odeio a expressão

ter sido

porque soa sempre impossível

confirmando a insignificância

humana frente à natureza

se eu me definisse

explicasse

dissecasse 

traduzisse 

descrevesse

ainda que eu tentasse ser

só sou em trânsito e

por isso mesmo jamais saberemos

eu e tu

quem sou eu

INTIMIDADE ( Andressa Leonardo )

 seguro a página com força

miro a dedicatória

aprecio a epígrafe

passo pelo prefácio tímido

vou descendo o sumário desalinhado

toco as linhas confluentes

desvendo a primeira parte

íntima

sinto a saliva de cada célula viva

no meio, um

trava-língua

adentro

l e n t a m e n t e

nas miudezas

me envolvo

o coração

queima

a respiração enfraquece

[a gente se molha]

a folha desmancha

– rasga no final.