03/11/2025

QUEM SABE ISSO QUER DIZER AMOR(Lô Borges/Márcio Borges)

Cheguei a tempo de te ver acordar
Eu vim correndo à frente do Sol
Abri a porta e, antes de entrar
Revi a vida inteira

Pensei em tudo que é possível falar
Que sirva apenas para nós dois
Sinais de bem, desejos de cais
Pequenos fragmentos de luz
Falar da cor dos temporais
Do céu azul, das flores de abril
Pensar além do bem e do mal
Lembrar de coisas que ninguém viu

O mundo lá, sempre a rodar
Em cima dele, tudo vale
Quem sabe isso quer dizer amor?
Estrada de fazer
O sonho acontecer

Pensei no tempo e era tempo demais
Você olhou, sorrindo pra mim
Me acenou um beijo de paz
Virou minha cabeça

Eu simplesmente não consigo parar

Lá fora, o dia já clareou
Mas se você quiser transformar
O ribeirão em braço de mar

Você vai ter que encontrar
Aonde nasce a fonte do ser
E perceber meu coração
Bater mais forte só por você

CRAVO E CANELA (Milton Nascimento / Ronaldo Bastos)

A Lua morena
A dança do vento
O ventre da noite
O Sol da manhã
A chuva cigana
A dança dos rios
O mel do cacau
E o Sol da manhã

Ê morena, quem temperou
Cigana quem temperou
O cheiro do cravo?
Ê menina, quem temperou
Cigana quem temperou
A cor de canela?
Foto: Dina Sfat, para quem a música foi dedicada.

02/11/2025

NÃO ENTRES COMO TURISTA NO CORAÇÃO DE UMA MULHER (José María Zonta) trad.: Filipe Ribeiro

 Não entres como turista no coração de uma mulher

a tirar fotos
deixando latas de cerveja
procurando só catedrais imensas
e estátuas transparentes

com a mochila cheia de mapas
e a fazer refeições rápidas

há um país
sete cidades
uma cordilheira e um inverno
no coração de uma mulher

não bebas só um copo de mar ali

não entres no avião
apanha o comboio da meia lua
não reveles ali as tuas fotografias numa hora

se não fizer demasiado frio
entra nu

não leves guarda-chuva
e sobretudo não cortes árvores
no coração de uma mulher

não costumam voltar a crescer.

in "Os Elefantes São Contagiosos", Língua Morta, p.27; 1927

IMUNIDADE ( Maria F. Roldão ) in A Cadeira De Mogno, 2025

 Salto aquela parte em que é

preciso lavar as mãos antes
 
do acto. Entro directamente
na parte das bactérias em
 
que o sujo é belo e a vida
não admite lavagens.

ESPELHOS (Maria F. Roldão) in A Cadeira De Mogno, 2025

 Os espelhos são a came do quarto.

Erectos na moldura reproduzem os corpos.
As melhores fatias de luz contornam a prata,
mastigam os ângulos, deixam correr as partes.

Despimo - nos em frente dos espelhos,
cresce para eles o odor das virilhas,
os rins entreabertos, as mãos de pouca
ossatura e o recheio das ancas.

Macios, brancos — a prata de zinco
acumula poses, vai da obesidade ao osso,
os veios, os vincos, a alteridade enche-o.

(Quando a cadeira se apruma, o reflexo bebe -a)

Talhante agarrado ao ego, o espelho corta,
desmancha. Enche se de carnes e rouba,
vai enchendo,
os orgulhos feridos de mais realidade.

Por Rupi Kaur

 pela escada

na sala sagrada

ela encontrou

deus

a varinha mágica

a língua da serpente

sorrindo dentro de si mesma 


- quando a primeira mulher fez mágica com os dedos

É UM TEMPO DE GUERRA ( Edu Lobo / Gianfrancesco Guarnieri / Augusto Boal )

 Eu vivo num tempo de guerra

Eu vivo num tempo sem Sol
Sem Sol, sem Sol, tem dó
Sem Sol, sem Sol, tem dó

Só quem não sabe das coisas
É um homem capaz de rir
Ah, triste tempo presente
Em que falar de amor e flor
É esquecer que tanta gente
Tá sofrendo tanta dor

É um tempo de guerra
É um tempo sem Sol

E você que me procede
Vai ver feliz a terra
Lembre bem do nosso tempo
Desse tempo que é de guerra
Se você chegar a ver
Essa terra da amizade
Onde o homem ajuda o homem
Pense em nós só com bondade

Eu sei que é preciso vencer
Eu sei que é preciso brigar
Eu sei que é preciso morrer
E eu sei que é preciso matar

CORAÇÃO NOTURNO ( Cacaso / Edu Lobo )

 Meu coração bate lento

Como se fosse um pandeiro
Marcando meu sentimento
Retendo meu desespero
Como notícia do vento
Passando no meu cabelo
Meu coração bate lento
Meu coração bate claro
Como se fosse um martelo
Num rumo sem paralelo
Selando meu desamparo
Numa corrente sem elo
Numa aflição sem reparo
Meu coração bate claro
Meu coração bate quieto
Como se fosse um regato
Vagando pelo deserto
Sangrando no meu retrato
Abrindo meu desacato
Num ferimento coberto
Meu coração bate tão quieto

Meu coração bate negro
Como cantiga sem mote
Como a serpente num bote
Rompendo no meu sossego
Lambendo feito chicote
Noturno feito morcego
Meu coração bate negro
Lambendo feito chicote
Noturno feito morcego
Meu coração bate negro
Lambendo feito chicote
Noturno feito morcego
Meu coração bate negro

SOL E CHUVA ( Edu Lobo & Chico Buarque de Holanda )

 Se esta noite o tempo vai virar

Não me deixes sair sozinha
Pode amanhecer
Tudo fora de lugar
Posso não estar aqui

Nossa vida, o vento esfarrapar
Tua manta não ser a minha
Pode acontecer
Quando o tempo serenar
De eu não me lembrar de ti

Sim
Pode vir uma enxurrada
E carregar tudo o que eu tinha
Sim
Posso até gostar
Deixa eu sair sozinha

É sol e chuva, é penumbra e luz
Meu corpo está gelado e queima
Pode acontecer
Podes vir me procurar
Posso não estar aqui

TANGO DE NANCY ( Chico Buarque de Holanda & Edu Lobo )

 Quem sou eu para falar de amor

Se o amor me consumiu até a espinha
Dos meus beijos que falar
Dos desejos de queimar
E dos beijos que apagaram os desejos que eu tinha

Quem sou eu para falar de amor
Se de tanto me entregar nunca fui minha
O amor jamais foi meu
O amor me conheceu
Se esfregou na minha vida
E me deixou assim

Homens, eu nem fiz a soma
De quantos rolaram no meu camarim
Bocas chegavam a Roma passando por mim
Ela de braços abertos
Fazendo promessas
Meus deuses, enfim!
Eles gozando depressa
E cheirando a gim
Eles querendo na hora
Por dentro, por fora
Por cima e por trás
Juro por Deus, de pés juntos
Que nunca mais

NOITE DE VERÃO ( Edu Lobo & Chico Buarque de Holanda )

 Este não sou eu

Meus lábios nos teus lábios não são meus
O meu olho no seu olho no meu olho no seu
Duvida do que vê

Deve ser um rei
Deve ser um deus
O homem que possui você

Não pode ser eu
Você fala meu nome, quem sou eu
Você fala meu homem, meu homem, sim, mas qual
Eu nunca fui ninguém

Deve ser demais
Deve ser o tal
O homem que lhe faz tão bem
Sonho de mulher
Em noite de verão
Por que é que você veio me perder
Quer se divertir
Fingindo me adorar
Ou finge me enganar
Me amando pra valer

Beije-me um outro beijo uma outra vez
Que importa se esses beijos não são meus
Que eu só tenha essa noite de favor
Nos braços de uma atriz

Este não seu eu
Este é um impostor
Que pobre de amor se diz

Deve ser um rei
Deve ser um deus
Como deve ser feliz

A UMA MULHER AMADA ( Safo ) tradução: Joaquim Brasil Fontes Jr

 Ditosa que ao teu lado só por ti suspiro!

Quem goza o prazer de te escutar,
quem vê, às vezes, teu doce sorriso.
Nem os deuses felizes o podem igualar.
Sinto um fogo sutil correr de veia em veia
por minha carne, ó suave bem querida,
e no transporte doce que a minha alma enleia
eu sinto asperamente a voz emudecida.
Uma nuvem confusa me enevoa o olhar.
Não ouço mais. Eu caio num langor supremo;
E pálida e perdida e febril e sem ar,
um frêmito me abala eu quase morro eu tremo!

31/10/2025

FREVO DIABO ( Edu Lobo & Chico Buarque de Holanda )

 É bom, é brabo

É o frevo diabo no corpo
Torto corpo
Pára mais não
Fogo no rabo de qualquer cristão
Solta o frevo diabo
E adeus procissão
Pelo sinal da Santa Cruz pandemônio
No dia da padroeira
Não tem romeira, tem são morenas
Não tem novenas diabo, a gente é feliz
Não tem sermão, tem não, tem orquestra
E cana e briga e fogo e festa
Na matriz
É o barro, é o berro na garganta
Olha a ginga da santa, devagar com o andor
Meu corpo já não sabe o que faz
Santanás diz para parar
Que eu não posso mais
Diz para parar
Faz um pouco mais
Faz o diabo
Hoje é que eu me acabo meu irmão

VENTO BRAVO ( Edu Lobo & Paulo César Pinheiro )

 Era um cerco bravo, era um palmeiral,

Limite do escravo entre o bem e o mal
Era a lei da coroa imperial
Calmaria negra de pantanal
Mas o vento vira e do vendaval
Surge o vento bravo, o vento bravo

Era argola, ferro, chibata e pau
Era a morte, o medo, o rancor e o mal
Era a lei da Coroa Imperial
Calmaria negra de pantanal
Mas o tempo muda e do temporal
Surge o vento bravo, o vento bravo

Como um sangue novo
Como um grito no ar
Correnteza de rio
Que não vai se acalmar
Se acalmar

Vento virador no clarão do mar
Vem sem raça e cor, quem viver verá
Vindo a viração vai se anunciar
Na sua voragem, quem vai ficar
Quando a palma verde se avermelhar
É o vento bravo

Como um sangue novo
Como um grito no ar
Correnteza de rio
Que não vai se acalmar

ÁGUA ( Jatobá & Xangai )

 A grota inteira tá chorando de saudade

Da umidade que fecunda a terra seca
Vital retalho do céu que manda pro solo
Divino orvalho gozo que nos eterniza
Intimidade que pertence à natureza

Com essa imensa porção liquida riqueza
Certeza de brotar do solo os alimentos
Sustento eterno das matas do mar e vento
Centro da vitalidade do universo
Verso e reverso que reveste a natureza

Está presente na terra em toda parte
Na arte farta de tanta imagem poética
Que alimenta a filosófica estética
Clara cristalina límpida e forte
É responsável pela vida ou morte em marte

Se faltar aqui na terra tem tragédia
Catastrófica será se vem de sobra
e a nossa ignorância será mágoa
Mas a nossa inteligência será trégua
Quando sólidos e sós seremos água

28/10/2025

CHORO! ( José Gomes Ferreira )

Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro

as crianças violadas
nos muros da noite
úmidos de carne lívida
onde as rosas se desgrenham
para os cabelos dos charcos.

Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro
diante desta mulher que ri
com um sol de soluços na boca
- no exílio dos Rumos Decepados.

Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro
este sequestro de ir buscar cadáveres
ao peso dos poços
- onde já nem sequer há lodo
para as estrelas descerem
arrependidas de céu.

Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro
a coragem do último sorriso
para o rosto bem-amado
naquela Noite dos Muros a erguerem-se nos olhos
com as mãos ainda à procura do eterno
na carne de despir,
suada de ilusão.

Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro
todas as humilhações das mulheres de joelhos nos tapetes da súplica
todos os vagabundos caídos ao luar onde o sol para atirar camélias
todas as prostitutas esbofeteadas pelos esqueleto de repente dos espelhos
todas as horas-da-morte nos casebres em que as aranhas tecem vestidos para o sopro do
silêncio
todas as crianças com cães batidos no crispar das bocas sujas
de miséria.

Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro.

Mas não por mim, ouviram?
Eu não preciso de lágrimas!
Eu não quero lágrimas!

Levanto-me e proíbo as estrelas de fingir que choram por mim!

Deixem-me para aqui, seco,
senhor de insônias e de cardos,
neste ódio enternecido
de chorar em segredo pelos outros
à espera daquele Dia
em que o meu coração
estoire de amor a Terra
com as lágrimas públicas de pedra incendiada
a correrem-me nas faces
- num arrepio de Primavera
e de Catástrofe!

Por Célia Moura

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27/10/2025

CÓLICAS ( Veriana Ribeiro )

tem algo me comendo por dentro

entranhando-se em minhas vísceras

costurando meu corpo ao avesso

a dor que eu sinto

vem de várias gerações

mulheres

meninas

senhoras

não conheço as mulheres

da minha família

suas histórias se perderam

nos quilômetros e anos que nos separam

mas todas as nossas histórias

são sempre iguais

de bruxas queimadas

e mulheres que correm com os lobos

deixo que seus fantasmas

sussurrem no meu ouvido

as cantigas perdidas pelo tempo

e façam os chás e banhos

que vão curar as minhas feridas

e as dores de todas as outras vidas

que vivem dentro de mim

e me comem por dentro

entranhando nas minhas vísceras

costurando meu corpo ao avesso