08/11/2025

OS PÁSSAROS ( Mário Quintana ) do livro “Esconderijos do Tempo”, 1980.

 Os poemas são pássaros que chegam

não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.

Quando fechas o livro, eles alçam voo
como de um alçapão.

Eles não têm pouso
nem porto
alimentam-se um instante
em cada par de mãos
e partem.

E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti

TUDO QUE VOCÊ PODIA SER ( Lô Borges / Márcio Borges )

 Com Sol e chuva você sonhava

Que ia ser melhor depois
Você queria ser o grande herói das estradas
Tudo o que você queria ser

Sei um segredo: Você tem medo
Só pensa agora em voltar
Não fala mais na bota e no anel de Zapata
Tudo que você devia ser
Sem medo

E não se lembra mais de mim
Você não quis deixar que eu falasse de tudo
Tudo que você podia ser
Na estrada

Há Sol e chuva na sua estrada
Mas não importa, não faz mal
Você ainda pensa, e é melhor do que nada
Tudo que você podia ser
Ou nada

DOIS RIOS ( Lô Borges / Nando Reis / Samuel Rosa )

 O céu está no chão

O céu não cai do alto
É o claro, é a escuridão

O céu que toca o chão
E o céu que vai no alto
Dois lados deram as mãos

Como eu fiz também
Só pra poder conhecer
O que a voz da vida vem dizer

Que os braços sentem
E os olhos veem
Que os lábios sejam
Dois rios inteiros
Sem direção

O Sol é o pé e a mão
O Sol é a mãe e o pai
Dissolve a escuridão

O Sol se põe, se vai
E após se pôr
O Sol renasce no Japão

Eu vi também
Só pra poder entender
Na voz a vida ouvi dizer

E o meu lugar é esse
Ao lado seu, no corpo inteiro
Dou o meu lugar, pois o seu lugar
É o meu amor primeiro
O dia e a noite, as quatro estações

O céu está no chão
O céu não cai do alto
É o claro, é a escuridão

O céu que toca o chão
E o céu que vai no alto
Dois lados deram as mãos

Como eu fiz também
Só pra poder conhecer
Tudo que a voz da vida vem dizer

06/11/2025

VOCÊ PODE SER ATRIZ ( Djavan )

 As dores se queixam

Do quanto os amores
São febris
Tudo está por um triz
Do fim

Se o amor
Só lhe fez sofrer
Não se queixe
De mim

Eu, por mais que tente
Não consigo ver uma razão
Pra tanta indecisão
No amor

O que é pra ver
O Sol ressurgir
Pode aumentar
A dor

Lamentar o que perdeu
Não vá
Não era seu

E, no que pese a dor
Já morreu

Vá ser feliz
Empinar o nariz

E se o mundo
Não corresponder
Você pode ser atriz

VESÚVIO ( Djavan )

 Você quis namorar e eu achei divertido

Mas o mar tem onda
Começou a rolar, foi ganhando sentido
Todo mar tem onda

Quando vi, já não havia nada no prumo
O Sol é de ouro
O que dá pra fazer quando se perde o rumo?
O Sol cai no mar
No mar, cai no mar
E a onda é de ouro
De ouro, de ouro

Eu nunca achei que fosse nada
Pra ficar e fazer o que fez
E ver você sempre ligada
No que faz, pra ter mais, toda vez

Você é do amargo e eu sou do azedo
Mas o mar tem onda
Quando for demorar, nunca se vá tão cedo
Todo mar tem onda

Nunca tive pra mim que você fosse tanto
O Sol é de ouro
Mas se vai-se de mim, deixa um jardim em pranto
E o Sol cai no mar
No mar, cai no mar
E a onda é de ouro
De ouro, de ouro

Eu nunca achei que fosse nada
Pra ficar e fazer o que fez
E ver você sempre ligada
No que faz, pra ter mais, toda vez

Quem me dera saber o que nunca foi dito
Mas o mar tem onda
Pra tentar descrever outras formas que habito
Todo mar tem onda

Você tem um poder que me lembra o Vesúvio
O Sol é de ouro
Que na foz do prazer me transforma em dilúvio
E o Sol cai no mar
No mar, cai no mar
E a onda é de ouro
De ouro, de ouro

A SERRA DO ROLA - MOÇA ( Mário de Andrade )

 A Serra do Rola-Moça

Não tinha esse nome não.

Eles eram do outro lado,
Vieram na vila casar.
E atravessaram a serra,
O noivo com a noiva dele
Cada qual no seu cavalo.

Antes que chegasse a noite
Se lembraram de voltar.
Disseram adeus pra todos
E puseram-se de novo
Pelos atalhos da serra
Cada qual no seu cavalo.

Os dois estavam felizes,
Na altura tudo era paz.
Pelos caminhos estreitos
Ele na frente, ela atrás.
E riam. Como eles riam!
Riam até sem razão.

A Serra do Rola-Moça
Não tinha esse nome não.

As tribos rubras da tarde
Rapidamente fugiam
E apressadas se escondiam
Lá embaixo nos socavões,
Temendo a noite que vinha.

Porém os dois continuavam
Cada qual no seu cavalo,
E riam. Como eles riam!
E os risos também casavam
Com as risadas dos cascalhos
Que pulando levianinhos
Da vereda se soltavam,
Buscando o despenhadeiro.

Ah, Fortuna inviolável!
O casco pisara em falso.
Dão noiva e cavalo um salto
Precipitados no abismo.
Nem o baque se escutou.
Faz um silêncio de morte.
Na altura tudo era paz...
Chicoteado o seu cavalo,
No vão do despenhadeiro
O noivo se despenhou.

E a Serra do Rola-Moça
Rola-Moça se chamou.

UNIVERSO NO TEU CORPO ( Taiguara Chalar )

 Eu desisto

Não existe essa manhã que eu perseguia
Um lugar que me dê trégua ou me sorria
Uma gente que não viva só pra si

Só encontro
Gente amarga mergulhada no passado
Procurando repartir seu mundo errado
Nessa vida sem amor que eu aprendi

Por uns velhos vãos motivos
Somos cegos e cativos
No deserto do universo sem amor

E é por isso que eu preciso
De você, como eu preciso
Não me deixe um só minuto sem amor

Vem comigo
Meu pedaço de universo é no teu corpo
Eu te abraço, corpo imerso no teu corpo
E em teus braços se unem versos à canção

Em que eu digo
Que estou morto pra esse triste mundo antigo
Que meu porto, meu destino, meu abrigo
São teu corpo amante, amigo em minhas mãos

05/11/2025

Por Natália Correia ( 1923 - 1993 )

 o corpo é praia a boca e a nascente

e é na vulva que a areia é mais sedenta

poro a poro vou sendo o curso de água

da tua língua demasiada e lenta

dentes e unhas rebentam como pinhas

de carnívoras plantas te é meu ventre

abro-te as coxas e deixo-te crescer

duro e cheiroso como o aloendro.

Por Fagundes Varela (1841 - 1875 )

 Por que teu vulto se levanta airoso,

tremente em ânsias de volúpia infinda?

E as formas nuas, e ofegante o seio,

no meu retiro vens tentar-me ainda?

03/11/2025

QUEM SABE ISSO QUER DIZER AMOR(Lô Borges/Márcio Borges)

Cheguei a tempo de te ver acordar
Eu vim correndo à frente do Sol
Abri a porta e, antes de entrar
Revi a vida inteira

Pensei em tudo que é possível falar
Que sirva apenas para nós dois
Sinais de bem, desejos de cais
Pequenos fragmentos de luz
Falar da cor dos temporais
Do céu azul, das flores de abril
Pensar além do bem e do mal
Lembrar de coisas que ninguém viu

O mundo lá, sempre a rodar
Em cima dele, tudo vale
Quem sabe isso quer dizer amor?
Estrada de fazer
O sonho acontecer

Pensei no tempo e era tempo demais
Você olhou, sorrindo pra mim
Me acenou um beijo de paz
Virou minha cabeça

Eu simplesmente não consigo parar

Lá fora, o dia já clareou
Mas se você quiser transformar
O ribeirão em braço de mar

Você vai ter que encontrar
Aonde nasce a fonte do ser
E perceber meu coração
Bater mais forte só por você

CRAVO E CANELA (Milton Nascimento / Ronaldo Bastos)

A Lua morena
A dança do vento
O ventre da noite
O Sol da manhã
A chuva cigana
A dança dos rios
O mel do cacau
E o Sol da manhã

Ê morena, quem temperou
Cigana quem temperou
O cheiro do cravo?
Ê menina, quem temperou
Cigana quem temperou
A cor de canela?
Foto: Dina Sfat, para quem a música foi dedicada.

02/11/2025

NÃO ENTRES COMO TURISTA NO CORAÇÃO DE UMA MULHER (José María Zonta) trad.: Filipe Ribeiro

 Não entres como turista no coração de uma mulher

a tirar fotos
deixando latas de cerveja
procurando só catedrais imensas
e estátuas transparentes

com a mochila cheia de mapas
e a fazer refeições rápidas

há um país
sete cidades
uma cordilheira e um inverno
no coração de uma mulher

não bebas só um copo de mar ali

não entres no avião
apanha o comboio da meia lua
não reveles ali as tuas fotografias numa hora

se não fizer demasiado frio
entra nu

não leves guarda-chuva
e sobretudo não cortes árvores
no coração de uma mulher

não costumam voltar a crescer.

in "Os Elefantes São Contagiosos", Língua Morta, p.27; 1927

IMUNIDADE ( Maria F. Roldão ) in A Cadeira De Mogno, 2025

 Salto aquela parte em que é

preciso lavar as mãos antes
 
do acto. Entro directamente
na parte das bactérias em
 
que o sujo é belo e a vida
não admite lavagens.

ESPELHOS (Maria F. Roldão) in A Cadeira De Mogno, 2025

 Os espelhos são a came do quarto.

Erectos na moldura reproduzem os corpos.
As melhores fatias de luz contornam a prata,
mastigam os ângulos, deixam correr as partes.

Despimo - nos em frente dos espelhos,
cresce para eles o odor das virilhas,
os rins entreabertos, as mãos de pouca
ossatura e o recheio das ancas.

Macios, brancos — a prata de zinco
acumula poses, vai da obesidade ao osso,
os veios, os vincos, a alteridade enche-o.

(Quando a cadeira se apruma, o reflexo bebe -a)

Talhante agarrado ao ego, o espelho corta,
desmancha. Enche se de carnes e rouba,
vai enchendo,
os orgulhos feridos de mais realidade.

Por Rupi Kaur

 pela escada

na sala sagrada

ela encontrou

deus

a varinha mágica

a língua da serpente

sorrindo dentro de si mesma 


- quando a primeira mulher fez mágica com os dedos

É UM TEMPO DE GUERRA ( Edu Lobo / Gianfrancesco Guarnieri / Augusto Boal )

 Eu vivo num tempo de guerra

Eu vivo num tempo sem Sol
Sem Sol, sem Sol, tem dó
Sem Sol, sem Sol, tem dó

Só quem não sabe das coisas
É um homem capaz de rir
Ah, triste tempo presente
Em que falar de amor e flor
É esquecer que tanta gente
Tá sofrendo tanta dor

É um tempo de guerra
É um tempo sem Sol

E você que me procede
Vai ver feliz a terra
Lembre bem do nosso tempo
Desse tempo que é de guerra
Se você chegar a ver
Essa terra da amizade
Onde o homem ajuda o homem
Pense em nós só com bondade

Eu sei que é preciso vencer
Eu sei que é preciso brigar
Eu sei que é preciso morrer
E eu sei que é preciso matar

CORAÇÃO NOTURNO ( Cacaso / Edu Lobo )

 Meu coração bate lento

Como se fosse um pandeiro
Marcando meu sentimento
Retendo meu desespero
Como notícia do vento
Passando no meu cabelo
Meu coração bate lento
Meu coração bate claro
Como se fosse um martelo
Num rumo sem paralelo
Selando meu desamparo
Numa corrente sem elo
Numa aflição sem reparo
Meu coração bate claro
Meu coração bate quieto
Como se fosse um regato
Vagando pelo deserto
Sangrando no meu retrato
Abrindo meu desacato
Num ferimento coberto
Meu coração bate tão quieto

Meu coração bate negro
Como cantiga sem mote
Como a serpente num bote
Rompendo no meu sossego
Lambendo feito chicote
Noturno feito morcego
Meu coração bate negro
Lambendo feito chicote
Noturno feito morcego
Meu coração bate negro
Lambendo feito chicote
Noturno feito morcego
Meu coração bate negro

SOL E CHUVA ( Edu Lobo & Chico Buarque de Holanda )

 Se esta noite o tempo vai virar

Não me deixes sair sozinha
Pode amanhecer
Tudo fora de lugar
Posso não estar aqui

Nossa vida, o vento esfarrapar
Tua manta não ser a minha
Pode acontecer
Quando o tempo serenar
De eu não me lembrar de ti

Sim
Pode vir uma enxurrada
E carregar tudo o que eu tinha
Sim
Posso até gostar
Deixa eu sair sozinha

É sol e chuva, é penumbra e luz
Meu corpo está gelado e queima
Pode acontecer
Podes vir me procurar
Posso não estar aqui

TANGO DE NANCY ( Chico Buarque de Holanda & Edu Lobo )

 Quem sou eu para falar de amor

Se o amor me consumiu até a espinha
Dos meus beijos que falar
Dos desejos de queimar
E dos beijos que apagaram os desejos que eu tinha

Quem sou eu para falar de amor
Se de tanto me entregar nunca fui minha
O amor jamais foi meu
O amor me conheceu
Se esfregou na minha vida
E me deixou assim

Homens, eu nem fiz a soma
De quantos rolaram no meu camarim
Bocas chegavam a Roma passando por mim
Ela de braços abertos
Fazendo promessas
Meus deuses, enfim!
Eles gozando depressa
E cheirando a gim
Eles querendo na hora
Por dentro, por fora
Por cima e por trás
Juro por Deus, de pés juntos
Que nunca mais

NOITE DE VERÃO ( Edu Lobo & Chico Buarque de Holanda )

 Este não sou eu

Meus lábios nos teus lábios não são meus
O meu olho no seu olho no meu olho no seu
Duvida do que vê

Deve ser um rei
Deve ser um deus
O homem que possui você

Não pode ser eu
Você fala meu nome, quem sou eu
Você fala meu homem, meu homem, sim, mas qual
Eu nunca fui ninguém

Deve ser demais
Deve ser o tal
O homem que lhe faz tão bem
Sonho de mulher
Em noite de verão
Por que é que você veio me perder
Quer se divertir
Fingindo me adorar
Ou finge me enganar
Me amando pra valer

Beije-me um outro beijo uma outra vez
Que importa se esses beijos não são meus
Que eu só tenha essa noite de favor
Nos braços de uma atriz

Este não seu eu
Este é um impostor
Que pobre de amor se diz

Deve ser um rei
Deve ser um deus
Como deve ser feliz

A UMA MULHER AMADA ( Safo ) tradução: Joaquim Brasil Fontes Jr

 Ditosa que ao teu lado só por ti suspiro!

Quem goza o prazer de te escutar,
quem vê, às vezes, teu doce sorriso.
Nem os deuses felizes o podem igualar.
Sinto um fogo sutil correr de veia em veia
por minha carne, ó suave bem querida,
e no transporte doce que a minha alma enleia
eu sinto asperamente a voz emudecida.
Uma nuvem confusa me enevoa o olhar.
Não ouço mais. Eu caio num langor supremo;
E pálida e perdida e febril e sem ar,
um frêmito me abala eu quase morro eu tremo!