10/11/2025

DESFLORAS - ME ( Adília Lopes )

 Desfloras

desfloro-te
porque temos flores
um para o outro
o teu ritmo
em mim
sobre mim
tão novo
para mim
é muito antigo
é como o dos animais
ganho a minha virgindade
que te dou
e que não perco
sou sempre virgem
a minha dor
o meu sangue
são a tua dor
o teu sangue
 in “Dobra - Poesia Reunida”; Portugal, 1960.

OBJETO DE AMOR ( Adélia Prado )

 De tal ordem é e tão precioso

o que devo dizer-lhes
que não posso guardá-lo
sem que me oprima a sensação de um roubo:
cu é lindo!
Fazei o que puderdes com esta dádiva.
Quanto a mim dou graças
pelo que agora sei
e, mais que perdoo, eu amo.

NOS DIAS EM QUE CHEGAS A CASA TRISTE ( Ana Salomé )

 nos dias em que chegas a casa triste

o meu corpo é triste para que nada te fira
nos dias em que chegas a casa triste
sou só corpo com meias tontas até aos joelhos
um corpo nu  no medo claro da noite
os seios no redondo azul da tua esfera
e a sombra deles na parede do quarto.
nos dias em que chegas a casa triste
sou uma salomé no desassossego do licor,
o teu lado esquerdo com um sexo de flores,
a ternura somente insuportável
de te saber triste sem te poder tocar.
in Dias de Amor; Ministério de Livros. Lisboa, 1982

KAMASUTRAS ( Ana Luísa Amaral )

 Atira a roupa toda

para o chão.
Depressa. Sem momento sedutor
nenhum

As peças aos bocados,
desmaiadas,
caídas pelo chão.
Do mais pesado ao mais quase
infinito de leveza

E deixa a luz
acesa. Sem sedução
nenhuma. Uma luz pelo menos

in Poesia Reunida, Edições Quasi. Lisboa, 1956

09/11/2025

FLORES DA BATALHA ( Sérgio Vaz )

 Por dentro

você trava a luta
que ninguém vê.

O vento leva
o que leva a vida:
amor e dor.

O tempo passa
e refaz o tempo,
cicatriza a ferida.

Cada dia
a noite
rasga o peito
como uma navalha.

Chorar
mancha de sangue a carne
e sorrir
o rosto estraçalha.

Insista,
viver é luta constante,
e a alma não pode estar presa ao corpo
cumprindo pena,
sob o olhar da muralha.

E enquanto a felicidade não vem,
aprecie as fores da batalha.

NOTÍCIA DA CASA ( Ruy Espinheira Filho )

 A casa não se descreve:

sente-se. Aqui permanecem
todos: dos que não vieram
àqueles que já partiram.

Na casa jamais se apaga
a luz com que me fitaste
(porém em ti, não: em ti
era só vidro, quebrou-se).

A casa se arquiteta
a si mesma, cada vez
mais habitada, enquanto
sangro paredes e espaços.

E cresce. Até não deixar
sinal no meu peito imóvel.
Coleção Melhores Poemas. São Paulo. Global Editora. 2011. pág. 59.

INSTRUMENTO (Cecília Meireles, in Mar Absoluto)

 A cana agreste ou a harpa de ouro

permitem que alguém acorde
com brando pulso ou leve sopro.

Têm memória de água e vento
e - além dos mundos desvairados -
do silêncio, o etéreo silêncio!

Seus poderes de eternidade
tornam imenso e inesquecível
o som mais transitório e suave.

Chega-te concentrado e cauto,
que o universo inteiro te escuta!
Frase inútil, suspiro falso

vibram tão poderosamente
que a mão para, o lábio emudece,
com medo do seu próprio engano.

E o eco sem perdões o repete
para um ouvinte sobre humano.

LUA ADVERSA ( Cecília Meireles )

 Tenho fases, como a lua

Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua…
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!

Não me encontro com ninguém
(tenho fases como a lua…)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua…
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu…

DANÇA ( Ricardo Silvestrin )

 Sim, existe a dança:

o corpo solto avança
e recua leve nos passos
matemáticos, um, dois, um,
como se fosse mais fácil
viver num tempo menor,
brincadeira de criança
que sabe de cor o roteiro
e ri na hora marcada.

Fora da dança, o infinito
nos convida, nos seduz
com passos improváveis,
mas temos dois olhos,
apenas duas pernas,
e, sobretudo, duas mãos
onde só cabe um punhado
de estrelas.

MONTARIAS SENSUAIS ( Jorge Mautner & Zé Ramalho )

 Monto num cavalo baio

Com a força de um raio
Monto na mula sem cabeça
Antes que eu me esqueça
Monto na égua-irmã do cavalo alado
E beijo o desejo que eu farejo
No queijo do teu lábio dourado

Monto em cima da laranja-lima e das mariposas
E elas são verdes amarelas negras azuis
E se dizem todas minhas esposas
Monto em cima de aviões
E esquadrilhas de guerra
E tento sabotar as bombas e os foguetes
Mortais à mãe-terra
Mas monto o adiante do adiante
Que me leva mais adiante
E assim eu quero pra mim
Um fim sem fim enfim

Como uma suave pluma
Ou espuma flutuante constante
Vinda de um rio
Meu rio de janeiro
E eu sou teu
Antes de beijar tuas fontes
Monto e quero que tu montes
Nos horizontes e montes

DEPOIS ME DIZ ( Antônio Cícero / Marina Lima )

 Teu visual

Não sai de mim
Te amo, que mal
Ah! eu sou assim
Não tem nenhum jogo
Desejo
Te vejo e acende o fogo

Um tremor me abala
Ah! suor me umedece
Eu fico sem fala
A língua entorpece
Assim meio estranha
Me perco
Querendo, você me ganha
A gente às vezes foge
Mas depois volta atrás
Primeiro ruge, não dá cartaz
E aí, sem entender
Capota, você vai ver
Como eu vi
Depois me diz
Que nota
Depois me diz

Então a noite cai
É brilho infinito
O amor é mais, tudo foi dito
Mas eu te repito
Te quero
Te espero e só acredito

A PARTE QUE ME CABE ( Marina Lima )

 Em que altura

Deve se abrir mão
Das aventuras, dos riscos e de paixão
Se estamos vivos
Temos o direito de sentir
Será bonito ficar longe e denegrir

A juventude
E os com fogo no coração
Quando as doenças e os medos são em vão
Em que medida
Envelheceremos bem
Olhando os outros sem doçura e com desdém

Cada um é único no mundo
E nisso todo mundo é igual
Uns resolvem tudo num mergulho
Outros seguem em busca de um ideal
Me deixe quieta
Com a minha solidão
A vida é minha
E também meu coração
E se você já encontrou a sua parte
Me deixe em paz
Atrás da parte que me cabe.

O SOLO DA PAIXÃO ( Marina Lima )

 O solo da paixão não dura mais que um dia

Antes de tudo se afundar
Não mais que essa noite
Ou essa noite e um dia
E o clarão da noite na hora antes de amargar
Mas um dia solar eu vou lhe entregar tudo:
Minha paz na terra, o meu céu e o meu mar
Vá! Sequestre tudo num dia
Será que um dia vicia?
Mas depois devolva tudo onde eu ainda possa achar
Pois o solo da paixão dura exatamente esse dia
Um dia só sem par
O suco, a polpa
O frêmito, a gota
Colherei esse dia na hora antes de acordar

08/11/2025

OS PÁSSAROS ( Mário Quintana ) do livro “Esconderijos do Tempo”, 1980.

 Os poemas são pássaros que chegam

não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.

Quando fechas o livro, eles alçam voo
como de um alçapão.

Eles não têm pouso
nem porto
alimentam-se um instante
em cada par de mãos
e partem.

E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti

TUDO QUE VOCÊ PODIA SER ( Lô Borges / Márcio Borges )

 Com Sol e chuva você sonhava

Que ia ser melhor depois
Você queria ser o grande herói das estradas
Tudo o que você queria ser

Sei um segredo: Você tem medo
Só pensa agora em voltar
Não fala mais na bota e no anel de Zapata
Tudo que você devia ser
Sem medo

E não se lembra mais de mim
Você não quis deixar que eu falasse de tudo
Tudo que você podia ser
Na estrada

Há Sol e chuva na sua estrada
Mas não importa, não faz mal
Você ainda pensa, e é melhor do que nada
Tudo que você podia ser
Ou nada

DOIS RIOS ( Lô Borges / Nando Reis / Samuel Rosa )

 O céu está no chão

O céu não cai do alto
É o claro, é a escuridão

O céu que toca o chão
E o céu que vai no alto
Dois lados deram as mãos

Como eu fiz também
Só pra poder conhecer
O que a voz da vida vem dizer

Que os braços sentem
E os olhos veem
Que os lábios sejam
Dois rios inteiros
Sem direção

O Sol é o pé e a mão
O Sol é a mãe e o pai
Dissolve a escuridão

O Sol se põe, se vai
E após se pôr
O Sol renasce no Japão

Eu vi também
Só pra poder entender
Na voz a vida ouvi dizer

E o meu lugar é esse
Ao lado seu, no corpo inteiro
Dou o meu lugar, pois o seu lugar
É o meu amor primeiro
O dia e a noite, as quatro estações

O céu está no chão
O céu não cai do alto
É o claro, é a escuridão

O céu que toca o chão
E o céu que vai no alto
Dois lados deram as mãos

Como eu fiz também
Só pra poder conhecer
Tudo que a voz da vida vem dizer

06/11/2025

VOCÊ PODE SER ATRIZ ( Djavan )

 As dores se queixam

Do quanto os amores
São febris
Tudo está por um triz
Do fim

Se o amor
Só lhe fez sofrer
Não se queixe
De mim

Eu, por mais que tente
Não consigo ver uma razão
Pra tanta indecisão
No amor

O que é pra ver
O Sol ressurgir
Pode aumentar
A dor

Lamentar o que perdeu
Não vá
Não era seu

E, no que pese a dor
Já morreu

Vá ser feliz
Empinar o nariz

E se o mundo
Não corresponder
Você pode ser atriz

VESÚVIO ( Djavan )

 Você quis namorar e eu achei divertido

Mas o mar tem onda
Começou a rolar, foi ganhando sentido
Todo mar tem onda

Quando vi, já não havia nada no prumo
O Sol é de ouro
O que dá pra fazer quando se perde o rumo?
O Sol cai no mar
No mar, cai no mar
E a onda é de ouro
De ouro, de ouro

Eu nunca achei que fosse nada
Pra ficar e fazer o que fez
E ver você sempre ligada
No que faz, pra ter mais, toda vez

Você é do amargo e eu sou do azedo
Mas o mar tem onda
Quando for demorar, nunca se vá tão cedo
Todo mar tem onda

Nunca tive pra mim que você fosse tanto
O Sol é de ouro
Mas se vai-se de mim, deixa um jardim em pranto
E o Sol cai no mar
No mar, cai no mar
E a onda é de ouro
De ouro, de ouro

Eu nunca achei que fosse nada
Pra ficar e fazer o que fez
E ver você sempre ligada
No que faz, pra ter mais, toda vez

Quem me dera saber o que nunca foi dito
Mas o mar tem onda
Pra tentar descrever outras formas que habito
Todo mar tem onda

Você tem um poder que me lembra o Vesúvio
O Sol é de ouro
Que na foz do prazer me transforma em dilúvio
E o Sol cai no mar
No mar, cai no mar
E a onda é de ouro
De ouro, de ouro

A SERRA DO ROLA - MOÇA ( Mário de Andrade )

 A Serra do Rola-Moça

Não tinha esse nome não.

Eles eram do outro lado,
Vieram na vila casar.
E atravessaram a serra,
O noivo com a noiva dele
Cada qual no seu cavalo.

Antes que chegasse a noite
Se lembraram de voltar.
Disseram adeus pra todos
E puseram-se de novo
Pelos atalhos da serra
Cada qual no seu cavalo.

Os dois estavam felizes,
Na altura tudo era paz.
Pelos caminhos estreitos
Ele na frente, ela atrás.
E riam. Como eles riam!
Riam até sem razão.

A Serra do Rola-Moça
Não tinha esse nome não.

As tribos rubras da tarde
Rapidamente fugiam
E apressadas se escondiam
Lá embaixo nos socavões,
Temendo a noite que vinha.

Porém os dois continuavam
Cada qual no seu cavalo,
E riam. Como eles riam!
E os risos também casavam
Com as risadas dos cascalhos
Que pulando levianinhos
Da vereda se soltavam,
Buscando o despenhadeiro.

Ah, Fortuna inviolável!
O casco pisara em falso.
Dão noiva e cavalo um salto
Precipitados no abismo.
Nem o baque se escutou.
Faz um silêncio de morte.
Na altura tudo era paz...
Chicoteado o seu cavalo,
No vão do despenhadeiro
O noivo se despenhou.

E a Serra do Rola-Moça
Rola-Moça se chamou.

UNIVERSO NO TEU CORPO ( Taiguara Chalar )

 Eu desisto

Não existe essa manhã que eu perseguia
Um lugar que me dê trégua ou me sorria
Uma gente que não viva só pra si

Só encontro
Gente amarga mergulhada no passado
Procurando repartir seu mundo errado
Nessa vida sem amor que eu aprendi

Por uns velhos vãos motivos
Somos cegos e cativos
No deserto do universo sem amor

E é por isso que eu preciso
De você, como eu preciso
Não me deixe um só minuto sem amor

Vem comigo
Meu pedaço de universo é no teu corpo
Eu te abraço, corpo imerso no teu corpo
E em teus braços se unem versos à canção

Em que eu digo
Que estou morto pra esse triste mundo antigo
Que meu porto, meu destino, meu abrigo
São teu corpo amante, amigo em minhas mãos

05/11/2025

Por Natália Correia ( 1923 - 1993 )

 o corpo é praia a boca e a nascente

e é na vulva que a areia é mais sedenta

poro a poro vou sendo o curso de água

da tua língua demasiada e lenta

dentes e unhas rebentam como pinhas

de carnívoras plantas te é meu ventre

abro-te as coxas e deixo-te crescer

duro e cheiroso como o aloendro.

Por Fagundes Varela (1841 - 1875 )

 Por que teu vulto se levanta airoso,

tremente em ânsias de volúpia infinda?

E as formas nuas, e ofegante o seio,

no meu retiro vens tentar-me ainda?