28/12/2025

SEM PRESSA ( Bárbara Reis )

 Os corpos gordos se colocam

Um contra o outro

Em uma prova de afeição.

 

Sufoco. 

Devagar. 

Respira! 

 

Elas respiram, ofegantes, 

Com os lábios vermelhos, 

Se colocam deitadas. 

 

GRITA! 

 

Respirando, ofegantes, 

Elas criam uma conexão 

Se tocam, me tocam, nos tocam. 

 

Devagar.. 

Cuidado.. 

Ai, isso mesmo, aí! 

Suspira.. 

Criam fantasias, 

Entre esses corpos gordos. 

Elas se sentem, 

Se têm, 

Como se fosse a primeira vez. 

 

Dedilhado.. Dedilhado! 

Escorre.. 

Encontram-se.. 

 

De quatro, por cima, 

De lado, suadas, encontram-se de frente 

para a janela do quarto.

 

Enforcam-se! 

Não para, não para! 

 

Balbucios, 

Elogios com tapa em suas faces, 

Com o olhar lacrimejando, 

Com os lábios avermelhados, 

Com suas bundas marcadas, 

Continuam.

 

GRITA! 

Não para, até a última 

gozar!

A-BER-TU-RA: FENDA, BURACO, INAUGURAÇÃO ( Ingrid Limaverde )

 Diante de uma mulher aberta

o mundo encontra

novas pronúncias, jeitos de equilibrar um prato

maneiras para chorar, além de sangue

além de sonho e futuro

para chorar sobre um corpo

perfurado de outras palavras

que goza nos joelhos e na quina do sofá

Diante de uma mulher aberta

o mundo inteiro para

atônito,

envergonhado

Eu e aquela mulher

abertas

fazemos da língua

uma nova língua.

A MAGNÓLIA ( Luiza Neto Jorge )

A exaltação do mínimo,

e o magnifico relâmpago

do acontecimento mestre

restituem-me a forma

o meu resplendor.

 

Um diminuto berço me recolhe

onde a palavra se elide

na matéria – na metáfora –

necessária, e leve, a cada um

onde se ecoa e resvala.

 

A magnólia,

o som que se desenvolve nela

quando pronunciada,

é um exaltado aroma

perdido na tempestade,

 

um mínimo ente magnífico

desfolhando relâmpagos

sobre mim. 


MOVIMENTO ( Octavio Paz, in "Salamandra" ) Tradução: Luis Pignatelli

 Se tu és a égua de âmbar

                  eu sou o caminho de sangue
Se tu és o primeiro nevão
                  eu sou quem acende a fogueira da madrugada
Se tu és a torre da noite
                  eu sou o cravo ardendo em tua fronte
Se tu és a maré matutina
                  eu sou o grito do primeiro pássaro
Se tu és a cesta de laranjas
                  eu sou o punhal de sol
Se tu és o altar de pedra
                  eu sou a mão sacrílega
Se tu és a terra deitada
                  eu sou a cana verde
Se tu és o salto do vento
                  eu sou o fogo oculto
Se tu és a boca da água
                  eu sou a boca do musgo
Se tu és o bosque das nuvens
                  eu sou o machado que as corta
Se tu és a cidade profunda
                  eu sou a chuva da consagração
Se tu és a montanha amarela
                  eu sou os braços vermelhos do líquen
Se tu és o sol que se levanta
                  eu sou o caminho de sangue

27/12/2025

ANÉIS DE CINZA (Alejandra Pizarnik ) Tradução: Carlos Machado; in Los Trabajos y Las Noches (1965)

                     A Cristina Campo

 São minhas vozes cantando

para que não cantem eles,
os amordaçados cinzentos na aurora,
e os vestidos de pássaro desolado na chuva.

Há, na espera,
um rumor de lilás se rompendo.
E há, quando chega o dia,
uma partição do sol em pequenos sóis negros.
E quando é noite, sempre,
uma tribo de palavras mutiladas
busca asilo em minha garganta,
para que não cantem eles,
os funestos, os donos do silêncio.

A CARÊNCIA (Alejandra Pizarnik ) Tradução: Carlos Machado; in Las Aventuras Perdidas (1958)

 Não sei sobre pássaros,

não conheço a história do fogo.
Mas creio que minha solidão deveria ter asas.

VESTÍGIOS (Ana Cecília de Sousa Bastos) in Uma Vaga Lembrança do Tempo.

 Estranha pulsão, esta:

derramar no caderno porções de alma.
A mão, captando sinais invisíveis.
Lenta, no formigueiro em marcha.
Absolutamente só,
enquanto todos perseguem a sagrada hora do
                                               trabalho
e dos compromissos bancários.

E depois, palavras escondidas em oculto caderno,
papel rasgado, para que delas não sobrem
vestígios.

AGENDA (Ana Cecília de Sousa Bastos) in Uma Vaga Lembrança do Tempo.

 Decididamente não me interessam as vãs soluções,

nem as posições corretas
 essas respostas que a gente busca na opinião
                                                    informada,
antes de conferir o próprio desejo;
nem os dados que o banco ou a polícia já guardam por ofício,
nem como envelhecemos igual
 por força não da idade, mas do hábito.

De todas as perguntas,
só quero reter a centelha.

Desejo saber a que horas do dia encontro no céu
                                    este azul de agora.
Desejo saber a que horas da vida há este sorriso
                                    nos olhos dos filhos.
Desejo saber quanto dura a paixão pela vida.

NA INTIMIDADE DA NOITE ( Alexandre Bonafim )

 Na intimidade da noite

teu corpo estertora
pleno de energia.
A vida
singelo milagre
correnteza de assombros
moinho de espantos
espoca em tuas veias
em tuas pupilas
nos teus músculos em alerta.
Um imenso rio de vertigens
navega nos teus pulsos
te incendeia
te impele aos ventos
e desatinos.
Só a loucura acompanha
o fluxo dos teus pensamentos.
Só a insensatez mede
teus passos
costura tuas palavras
e olhares.
Súbito podes estourar
de tanta vida
podes ter uma overdose
desse vício que te alimenta
e mata.
E nessa queda sonâmbula
vôo de asas e estrelas partidas
só a poesia te acompanha
roteiro de solidão e amargura.

NUA E TUA ( Nádia Santos )


Gosto de me sentir livre
Da roupa que me reveste
O meu corpo se senti leve
E um frêmito gostoso me aquece

Me contempla estou nua!
Das vestes e no pensamento
Desejando amor, que me possua
Sem pudor, sem preconceito

Quando me ponho nua
Diante dos olhos teus
Percebo que se completa
A outra parte do meu eu

Nua e toda tua vou me doando
Meu corpo vai no teu corpo encostando
E ao prazer vamos nos entregando

Dois em um é comunhão!
Prazer intenso é excitação!

É algo forte é tesão!

22. POEMA (André Caramuru Aubert)

   para Clélia

Eu deveria ter dito

que os seus olhos castanhos
resumem, neles, tudo o que há no Universo,
tudo mesmo, toda a magia, o espaço e o tempo, a
                               energia, a música, tudo,
mas eu não disse
(talvez por ser tímido, ou por acreditar que a frase sairia
                              forçada e artificial),
e o momento passou.

Leonora Rosado, in Lâmina de Pólen; Labirinto, 2022

 Há perguntas que te tocam o rosto

perfeitos anzóis presos aos lábios
Há perguntas que me deixam inquieta
São finas lâminas de precisão
A minha perplexidade visível
salta das pálpebras para o calor de um gesto
um gesto que se cansa
que rompe o teu riso
e o engole
Há perguntas que me deitam por terra
que se agarram aos dentes
que respiram a escuridão
mas há também versos
que fendem perguntas
que trazem o lume às mãos
e faz-se luz pelo excesso de culpa
e pela erosão da penumbra
onde ninguém
faz perguntas

LARANJEIRA (Ana Paula Jardim),in Roupão Azul; Editora Guerra & Paz, 2021

 O amor também nasce nas copas das laranjeiras

Rebenta numa flor branca a perfumar o ar e o chão
A nossa, pai, produz frutos da cor das tuas mãos
E nasceu do pólen do teu coração
Não dá laranjas nas estações certas
Que sempre insististe em plantar árvores
Em lugares impossíveis
Em vales cavados, com pouca luz e pouco sol
E nas traseiras das casas
Ela resistiu e floriu
Enxertada pelas palavras da tua convicção
A aprender a ser pomar no meio das tuas videiras e cachos de uvas
Sempre a detestei. Achava eu
Hoje, sento‑me aos seus pés
No abrigo da tua sombra.

26/12/2025

VERTICAL ( Alexandre Bonafim )

1

Vertical e nítido
como um cavalo
ao meio-dia
golpeias os quatro
pontos cardeais
de tudo o que sou

6

Vertical como um deus
caminhas transparente
pela lisura da manhã

O sol escorre de teu dorso
transborda o dia
em tudo o que és

Quase intangível
teu corpo
torna-se mais denso
que a pedra
pássaro atado
não ao ar
mas à terra
pássaro mais terra
que a pedra

Nítido e preciso
caminhas
desnudo
vertical como um deus

ABRAÇO ( Alexandre Bonafim )

 1

Se eu pudesse abraçar
de uma só vez
um campo de girassóis
teu olhar cairia
límpido
como uma gota
um grão de areia
sobre os escombros
do que nunca fui

3

Saber de cor a luz de tua saliva
o cheiro áspero dos teus pelos
o sabor amargo do que em ti
é ausência
e sofreguidão

Amar-te
como quem
é o alvo
de mil flechas
de mil facas

MEMÓRIA ( Alexandre Bonafim )

 O quarto resguarda

a tímida luz de outrora

Entre lençóis
vicejam os gestos
esquecidos
onde ainda hoje
moramos desde sempre

As mãos possuíam
essa clarividência
de tecer os sopros
os ardis da pele
de construir
um barco perdido
onde a respiração
queima a si mesma
ardendo o íntimo
mais secreto
do que éramos

Rosto contra rosto
flanco contra flanco
em única trama

nascíamos do que
jamais fôramos
do que nunca seríamos
inventávamos
um animal selvagem
capaz de nos ferir
de nos lanhar

Ardíamos o esquecimento
como quem acalanta
uma criança de argila

CASA ( Alexandre Bonafim )

 Habitar-te

em tudo o que és
até onde jamais foste
e nascer de teu ventre
como a sílaba primeira
de teu riso

Morar em ti
como quem escalpela
a face contra espinhos

A FESTA ( Milton Nascimento )


Já falei tantas vezes
Do verde nos teus olhos
Todos os sentimentos me tocam a alma
Alegria ou tristeza
Espalhando no campo, no canto, no gesto
No sonho, na vida
Mas agora é o balanço
Essa dança nos toma
Esse som nos abraça, meu amor

O teu corpo moreno
Vai abrindo caminhos
Acelera meu peito e nem acredito
No sonho que vejo
E seguimos dançando, um balanço malandro
E tudo rodando
Parece que o mundo foi feito pra nós
Nesse som que nos toca, meu amor

Me abraça, me aperta
Me prende em tuas pernas
Me prende, me força, me roda, me encanta
Me enfeita num beijo

Pôr do Sol e aurora
Norte, sul, leste, oeste
Lua, nuvens, estrelas, a banda toca
Parece magia, e é pura beleza
Essa música sente e parece que a gente
Se enrola corrente e tão de repente
Você tem a mim

Já falei tantas vezes
Do verde nos teus olhos
Todos os sentimentos me tocam a alma
Alegria ou tristeza
Espalhando no campo, no canto, no gesto
No sonho, na vida
Mas agora é o balanço
Essa dança nos toma e você tem a mim

25/12/2025

IMPROVISO ( Adam Zagajewski ) Tradução: Nelson Santander

 Você deve carregar todo o peso do mundo

e torná-lo mais suportável.
Jogue-o como uma mochila
sobre seus ombros e siga em frente.
O melhor momento é à tardinha, na primavera, quando
as árvores respiram suavemente e a noite promete
ser boa, os ramos dos olmos estalando no jardim.
Todo o peso? Sangue e feiura? Impossível.
Um traço de amargura permanecerá em seus lábios,
assim como o desespero contagiante daquela velha
que você viu no bonde.
Por que mentir? Afinal, o êxtase
existe apenas na imaginação e depressa se dissipa.
Improviso – sempre apenas improviso,
grande ou pequeno, é tudo o que sabemos,
na música, como um trompete de jazz chora alegremente,
ou quando você encara a página em branco
ou tenta ludibriar
a tristeza abrindo seu livro de poemas favorito;
é nesse momento que o o telefone geralmente toca,
alguém perguntando se você gostaria de experimentar
o modelo mais recente. Não, obrigado.
Prefiro as marcas consagradas.
Cinza e monotonia permanecem; tristeza
que a melhor elegia não pode curar.
Mas talvez haja coisas ocultas de nós,
onde tristeza e entusiasmo se amalgamam
constantemente, no dia a dia, como o amanhecer
à beira-mar, não, espere,
como o riso daqueles coroinhas
em vestes brancas, na esquina da St. John com a Mark,
lembra?

23/12/2025

MIGALHA ( Raiça Bomfim )

 Pinga, íris negra, 

migalhas de estrelas
na farofa que fiz 
com meus desejos

- farofa quente,
amarelo-ardente-,
pra comer esta noite,
na mesa da laje
e matar a fome
de fato e de luz.

MANANCIAL( Raiça Bomfim )

 na ventania

que me arranca
as penas

no clarão
que abre meus olhos
de manhã

no incêndio
que se alastra
pelo sonho

eu me deito
eu me levanto
me ofereço
corpo e pranto

se eu chorar um mar inteiro
sei que olhar as coisas nuas
vale cada gota

VERMELHA ( Raiça Bomfim )

 Tem uma de mim que é duríssima...

Sangra feito uma condenada,
mas não larga a mão da faca.
Tem uma de mim que toda noite se mata.
Essa é a pior. É a mais poderosa de todas.
Mas só sabe se mostrar pra um certo olhar que não tem mais...
Aí fica berrando, trancada, aqui dentro.
Berrando, berrando...
E sangrando...

A OUTRA ( Ivan Lins & Vitor Martins )

 Nem só o que aparento

Eu gosto,
Nem tudo que represento
eu mostro,
Existe a outra,
Existe a outra,
A que não se pinta,
A que nunca brinca,
A que obedece,
A que envelhece,
Para que eu viva e cante
Todos os momentos,
Pra que eu possa sempre
Enganar o tempo,
Pra que eu possa sempre
Enganar...
Nem só o que aparento
Eu gosto,
Nem tudo o que represento
Eu mostro,
Existe a outra,
Existe a outra,
A que gera os filhos,
A que chora os rios,
Que costura e borda,
Faz comida,engorda,
Pra que eu te afague
Com essas mãos macias,
Pra que eu te entregue
Meus melhores dias.
Existe a outra,
Existe a outra,
A que se dedica,
Que se sacrifica,
Pra que eu exista,
Pra que eu seja artista,
Pra que eu conheça
Todas as delícias.
Pra que eu mereça
Todas as carícias.
Existe a outra,
Pra que eu conheça,
Pra que eu mereça
Todas as carícias.
Existe a outra.