02/01/2026

FUR COM CARA DE WHITMAN ( Matilde Campilho ) in Jóquei, 2014

 foi assim que você pensou que eu viria ao mundo

foi assim que que você me viu na floresta
foi assim que você me viu pendurado no poste elétrico
sempre pendurado num ramo qualquer, sempre usando
o verão.
você se lembra daquele verão no Brooklin
em que ficámos perseguindo os bombeiros
durante todo o dia apenas para ver
uma vez e depois outra vez
o leque aquático que se abria sobre o fogo?
você citava poetas húngaros mas nesse tempo
eu só queria saber de inventar uma língua
que não existisse.
você se lembra do concierge que nos recebia
na pensão do Brooklin como se nunca
nos houvesse visto antes?
e não havia semana que passasse
em que nós não dormíssemos
pelo menos uma madrugada
na pensão do Brooklin.
me lembro dos dólares amassados
que eu semanalmente tirava do bolso
para pagar a Doug
eu sabia o nome de Doug
o Doug nos tratava disfarçadamente
por menina e menino.
você falava que os dólares vinham
sempre com uma forma diferente
eu adoro como você consegue tirar um coelho do bolso
eu adoro como você consegue tirar uma lâmpada do bolso
eu adoro como você consegue tirar a Beretta 92fs do bolso

foi assim que você pensou que eu ficaria
no mundo
com corpo de besta vestida
usando um lápis pousado na orelha

foi assim que você me viu
pedindo três ovos para Miss Elsie
a senhora da mercearia na Court Street
ela me deu oito ovos
porque ela sempre dava alguma coisa
ela me achava uma graça e ela não acreditava
em números ímpares. eu também não.
me lembro de você na mercearia
do Brooklyn
você costumava ficar lá atrás
brincando na secção das ferramentas.
se eu tivesse mais do que um coelho,
uma lâmpada ou uma pistola
eu teria te comprado um Black n’ Decker
eu acho que você seria a pessoa mais feliz da ilha
com um Black n’ Decker enfiado no cinto.

foi assim que você pensou que eu ficaria no mundo,
usando flores em meu cabelo negro,
sempre escondidas no emaranhado dos cachos
sempre escondidas no emaranhado do caos
de minha cabeça negra.

só você sabia quantas flores eu usava
porque agora eu já sei
que você dedicava as noites
à contagem. Deus não dorme
e você também não.

 

01/01/2026

ILHA DE PEDRA ( Eliana Zandonade ) in “Peixes Poetas”, Zinia Editora, 2025

 Sou a pedra

À beira do caminho,
Imóvel e dura
Ofereço descanso,
Escuto seu pranto
Sou puro silêncio
Dentro de mim
Há doçura cristalizada,
Sou pedra,
Pareço pedra
No fundo, sou o próprio
Caminho.

DEPOIS ( Eliana Zandonade ) in “Peixes Poetas”, Zinia Editora, 2025

 Depois que conheci o mar,

molhei os pés,
fitei o infinito,
fiz castelos de areia,
cavei buracos ao sol,
conversei com o vento,
brinquei com as nuvens,
puxei a rede cheia de peixes,
salguei os cabelos,
mergulhei fundo,
Nunca fui a mesma
Virei peixe, virei mar,
vento, sol, sal, poeta,
aprendi a pescar
e cavar a palavra certa!

24 ( Ana Estaregui ) in “Fazer Círculos Com Mãos de Ave”, Editora 34, 2025

 escrevo suas palavras sobre as minhas

como se pudesse de algum modo
possuir o seu corpo
como se estando aqui e agora
palavra sobre palavra
pudesse produzir uma fusão – uma telepatia
como se ao pronunciar as mesmas palavras
espadana d’água
olmos
glicínia
pudesse fazer o poema germinar sobre a paisagem
terra sobre terra jardim sobre letra
como plantas que se fazem a partir de mudas
livros a partir de livros
e quem sabe possa ser como naquele dia
em que ouvimos pela primeira vez
o canto de um uirapuru
e na sua voz uma árvore dizia
o meu nome é labirinto

96 ( Ana Estaregui ) in “Fazer Círculos Com Mãos de Ave”, Editora 34, 2025

 alimento o fogo com pequenos galhos

ele responde brilhando
cada vez mais
conversamos a partir da troca
um ramo por uma faísca
uma lasca uma fagulha
na sua língua ele diz
formas são poderes
enquanto sublinha o escuro
com traços luminosos

Por Roberta Iannamico Trad.:Estela Rosa & Luciana di Leone; in Quitanda, Coleção América Invertida, 2024.

 Todos começamos a parecer com nossas mães

quando o tempo passa
ficamos grandonas
mimosas
o olhar
mais famoso
como o de alguém que pode
se defender de tudo
como o de alguém que está
apaixonada por si mesma
nos momentos
de solidão.

ESTRADA(Roberta Iannamico)Trad.:Estela Rosa & Luciana di Leone; in Quitanda, América Invertida, 2024.

 Parávamos na estrada

minha mãe e eu
corríamos para fazer xixi
descíamos
pro túnel
embaixo da estrada
nos abaixávamos
dava vontade de rir escutar os carros
em cima da gente
com a bunda de fora
e aí bateu
um vento
e me molhei
a gente ria
a gente ria.

ESTADO DE SÍTIO ( Cristina Peri Rossi ) in “Nossa Vingança é o Amor”, Editora 34, 2024.

Aquela vez

– estado de sítio na cidade
sirenes ambulâncias tanques verdes
como pesados lagartos
e o medo crescendo como erva daninha –

acreditamos que seria a última vez.

Fizemos amor com a intensidade da agonia

amar antes de morrer
amar até morrer

fizemos amor com o desespero
da partida

e teus gemidos eram a dor do orgasmo
teu pranto o pranto da perda na união.

Os soldados não chegaram,
passaram ao largo ou
foram para outra casa.

Nunca mais houve uma noite como aquela

compartilhar o medo
o terror do pânico
une mais do que compartilhar a felicidade
a bem-aventurança.

Desde então,
busco a intensidade em outra parte
e não a encontro nas drogas
nem no álcool
nem nas orgias

a intensidade está no meu interior
colada à minha fantasia.

VELHICE II ( Cristina Peri Rossi ) in “Nossa Vingança é o Amor”, Editora 34, 2024.

 Antes de morrer

uma última tortura
desdobra-se
para contemplar nosso passado
com inédita lucidez
sem sentimentos
talvez só um pouco de ternura
pela criança que fui
solitária ingênua e sonhadora
pela adolescente que fui
solitária ingênua e sonhadora
e observar com equanimidade
os erros próprios e alheios
para descobrir que tampouco eles
importam agora.
Nada nunca
neste mundo
pode desfazer o grande mal-entendido
apesar do qual não nos suicidamos
porque já estamos velhos demais pra isso
ou por temor de falhar no intento
e que esse seja ao fim e ao cabo
o último erro de nossa vida.

DESPEDIDA DA MUSA ( Cristina Peri Rossi ) in “Nossa Vingança é o Amor”, Editora 34, 2024.

 Ontem expulsei a musa

por mau comportamento:
despojou-se dos véus
dos vestidos das palavras
dos versos das rendas
e quis ser ela mesma
recuperar sua identidade
falou de seus direitos femininos
e reclamou sua liberdade.

Pobre musa sem poeta
pobre corpo sem investidura
pobre mulher sem quem a sonhe.

A MUSA REBELDE ( Cristina Peri Rossi ) in “Nossa Vingança é o Amor”, Editora 34, 2024.

 Hoje a musa amanheceu reivindicativa

me falou não sei o quê sobre sua verdadeira personalidade
sobre ser ela mesma
sobre não querer ser outra.
A musa está cansada
quatro anos de palco
abalaram sua resistência.
Basta de fantasias
quer ser autêntica.
Abro a janela dos sonhos
para que ela vá embora
pressinto que chegou o momento
de dizer adeus.
Ela sairá pela janela
e no chão
como um vestido puído
já sem uso
a musa será apenas vazio
apenas cinzas.
O quarto ficará muito solitário
e eu não terei um corpo
quer vestir
nem um poema que escrever.

A PAIXÃO ( Cristina Peri Rossi ) in “Nossa Vingança é o Amor”, Editora 34, 2024.

 Saímos do amor

como de um acidente aéreo
Tínhamos perdido a roupa
os documentos
a mim me faltava um dente
a você a noção do tempo
Era um ano longo como um século
ou um século curto como um dia?
Pelos móveis
pela casa
restos partidos:
copos fotos livros desfolhados
Éramos os sobreviventes
de um desmoronamento
de um vulcão
das águas arrebatadas
E nos despedimos com a vaga sensação
de ter sobrevivido
embora não soubéssemos para quê.

O PARTO ( Cristina Peri Rossi ) in “Nossa Vingança é o Amor”, Editora 34, 2024.

 Do fundo do ventre,

como uma montanha,
a obscura força do desejo.
O desejo, obscuro como uma semente.
A semente fechada e muda
como uma ostra.
Os lábios da ostra
lentamente se abrindo,
como a vulva.
A vulva, úmida e violeta,
às vezes, fosforescente.
Babel, voltada para dentro,
como uma semente. Guardada
como uma ostra. Ensimesmando-se,
como o caracol encolhido.
Babel torre, Babel casa escondida.
               “É longo esconder-se por nove meses”, diz Babel,
                 inchada.
A palavra, apontando para fora.
A palavra, sobressaindo do vestido.
A palavra, empurrando seu broto,
sua alegria, sua maldição.

Babel pelas ruas como uma virgem,
como se nada escondesse. Babel bailando em bable.
Babel vestida.

 E de pronto, subitamente, o grito.

Descendo pelas pernas abertas, o grito.
Desfundando-se nos lençóis, o grito.
Liquefazendo-se nos quadris duros como âncoras,
Forçando-se a sair, o grito.
Brutal, tresnoitado, fundo, gutural,
                                                            onomatopaico,
                                                                            Babel bárbara
negro, desentranhado,
                                     o grito: partido em dois,
feito de sangue,
                         voz da víscera,

palavra sem lugar no dicionário. 

Do fundo do ventre,

como uma montanha,
a obscura força do desejo.
O desejo, obscuro como uma semente.
A semente fechada e muda
como uma ostra.
Os lábios da ostra
lentamente se abrindo,
como a vulva.
A vulva, úmida e violeta,
às vezes, fosforescente.
Babel, voltada para dentro,
como uma semente. Guardada
como uma ostra. Ensimesmando-se,
como o caracol encolhido.
Babel torre, Babel casa escondida.
               “É longo esconder-se por nove meses”, diz Babel,
                 inchada.
A palavra, apontando para fora.
A palavra, sobressaindo do vestido.
A palavra, empurrando seu broto,
sua alegria, sua maldição.

Babel pelas ruas como uma virgem,
como se nada escondesse. Babel bailando em bable.
Babel vestida.

 E de pronto, subitamente, o grito.

Descendo pelas pernas abertas, o grito.
Desfundando-se nos lençóis, o grito.
Liquefazendo-se nos quadris duros como âncoras,
Forçando-se a sair, o grito.
Brutal, tresnoitado, fundo, gutural,
                                                            onomatopaico,
                                                                            Babel bárbara
negro, desentranhado,
                                     o grito: partido em dois,
feito de sangue,
                         voz da víscera,
palavra sem lugar no dicionário.

VII ( Hilda Hilst ) in Cantares São Paulo: Editora Globo, 2002.

 Rios de rumor: meu peito te dizendo adeus.

Aldeia é o que sou. Aldeã de conceitos
Porque me fiz tanto de ressentimentos
Que o melhor é partir. E te mandar escritos.
Rios de rumor no meu peito: que te viram subir
A colina de alfafas, sem éguas e sem cabras
Mas com a mulher, aquela,
Que sempre diante dela me soube tão pequena.
Sabenças? Esqueci-as. Livros? Perdi-os.
Perdi-me tanto em ti
Que quando estou contigo não sou vista

E quando estás comigo vêem aquela.

31/12/2025

LXVII ( Hilda Hilst ) in Cantares São Paulo: Editora Globo, 2002.

 Vida da minha alma:

Um dia nossas sombras
Serão lagos, águas
Beirando antiqüíssimos telhados.
De argila e luz
Fosforescentes, magos,
Um tempo no depois
Seremos um só corpo adolescente.
Eu estarei em ti
Transfixiada. Em mim
Teu corpo. Duas almas
Nômades, perenes
Texturadas de mútua sedução.

LXIII ( Hilda Hilst ) in Cantares São Paulo: Editora Globo, 2002.

 Tens a medida do imenso?

Contas o infinito?
E quantas gotas de sangue
Pretendes
Desta amorosa ferida
De tão dilatada fome.
Tens a medida do sonho?
Tens o número do Tempo?
Como hei de saber do extenso
De um ódio-amor que percorre
Furioso
Passadas dentro do vento?
Sabes ainda meu nome?
Fome. De mim na tua vida.

LII ( Hilda Hilst ) in Cantares São Paulo: Editora Globo, 2002.

 Eu era parte da noite e caminhava

Adusta e austera
Sem luz nem aventurança.
Tu eras praia e dia
Um fogo branco
O rosto da montanha sobre a terra.
E juntamos a treva
Ao mar do meio-dia
Cristas aguadas, pontas
Trilhas fosflorescentes
Na vastidão das sombras
Mas um instante apenas.
Por isso é que caminho como antes
Adulta e austera.
Acrescida de véus me mostro aos viajantes:
Vês a mulher, aquela?
Dizem que a cara é de caliça e pedra.
Que a luz das ilusões passou por ela.

LXX ( Hilda Hilst ) in Cantares São Paulo: Editora Globo, 2002.

 Poeira, cinzas

Ainda assim
Amorosa de ti
Hei de ser eu inteira.

Vazio o espaço
Que me contornava
Hei de Estar ali.
Como se um rio corresse
Seu corpo de corredor
E só tu o visses.
Corpo de rio? Sou esse.
Fiandeira de versos
Te legarei um tecido
De poemas, um rútilo amarelo
Te aquecendo.

Amorosa de ti
vida é o meu nome. E poeta.
Sem morte no sobrenome.

XXXIX ( Hilda Hilst ) in Cantares São Paulo: Editora Globo, 2002.

 Escreveste meu nome

Sobre a água?
A fogo, na alma
Desenhei o teu

Grafismo iluminado
Imantado e novo

Teu nome e o meu.

Novo
Porque nunca se viu
Nome tão pertencido.
Antigo porque há milênios
Se entrelaçaram justos
No infinito.

E raro
Porque tingido de um mosaico vivo
De danação e amor.

Teu nome
Irmão do meu.

CLARICE LISPECTOR ( Adília Lopes ) Clube da Poetisa Morta Caras Baratas Antologia Relógio d´Água 2004

 Clarice Lispector,

a senhora não devia
ter-se esquecido
de dar de comer aos peixes
andar entretida
a escrever um texto
não é desculpa
entre um peixe vivo
e um texto
escolhe-se sempre o peixe
vão-se os textos
fiquem os peixes
como disse Santo António
nos textos

METEOROLÓGICA (Adília Lopes) Caras Baratas Antologia Relógio d´Água 2004

 para o José Bernardino

Deus não me deu

um namorado
deu-me
o martírio branco
de não o ter

Vi namorados
possíveis
foram bois
foram porcos
e eu palácios
e pérolas

Não me queres
nunca me quiseste
(porquê, meu Deus?)

A vida
é livro
e o livro
não é livre

Choro
chove
mas isto é
Verlaine

Ou:
um dia
tão bonito
e eu
não fornico

É PRECISO PENSAR ( Adília Lopes ) Caras Baratas Antologia Relógio d´Água 2004

"But I didn’t know to cook, and babies depressed me" 

  (Sylvia Plath, The babysitters) 

É preciso pensar

em tudo
dos preservativos
às panelas
e há mesmo quem
nos preservativos
veja já as panelas
pensa-se de mais
e não se pensa
de facto.

BODY ART? ( Adília Lopes) Caras Baratas Antologia Relógio d´Água 2004

 Com os remédios

engordo 30 Kg
o carteiro pergunta-me
para quando
é o menino
nos transportes públicos
as pessoas levantam-se
para me dar o lugar
sento-me sempre
 
Emagreço 21 Kg
as colegas
da Faculdade de Letras
perguntam-me
se é menino
ou menina
 
No metro
um rapaz
e um velho
discutem
se eu estou grávida
o rapaz quer-me
dar o lugar
 
Detesto
o sofrimento

NO MORE TEARS (Adília Lopes) Poesia Reunida II. As Meninas Exemplares Assírio & Alvim 2021

 Quantas vezes me fechei para chorar

na casa de banho da casa da minha avó
lavava os olhos com shampoo
e chorava
chorava por causa do shampoo
depois acabaram os shampoos
que faziam arder os olhos
no more tears disse Johnson & Johnson
as mães são filhas das filhas
as filhas são mães das mães
uma mãe lava a cabeça da outra
e todas têm cabelos de crianças loiras
para chorar não podemos usar mais shampoo
e eu gostava de chorar a fio
e chorava
sem um desgosto sem uma dor sem um lenço
sem uma lágrima
fechada à chave na casa de banho
da casa da minha avó
onde além de mim só estava eu
também me fechava no guarda-vestidos grande
mas um guarda-vestidos não se pode fechar por dentro
nunca ninguém viu um vestido a chorar
 

OUVE VOU DIZER-TE ( Abel Neves ) documenta, 2013

 ouve vou dizer-te

abre com os dedos uma cereja
daquelas de fazer brinco quando a brisa é boa
tira-lhe o caroço
verás como isso é arrancar o coração do tempo
o carmesim do suco
é o choro e o riso
dos que se amam impacientes e belos

NÃO DEITES FORA AS CARTAS DE AMOR (Joan Margarit ) trad.: Miguel Filipe Mochila / Língua Morta 2020

 Elas não te abandonarão.

Passará o tempo, apagar-se-á o desejo
– essa flecha de sombra –
e os rostos sensuais, inteligentes, belíssimos
ocultar-se-ão em ti, no fundo de um espelho.
Cairão os anos. Cansar-te-ão os livros.
Decairás ainda mais
e perderás até a poesia.
O ruído frio da cidade nos vidros
acabará por ser a tua única música,
e as cartas de amor que tiveres guardado
serão a tua ultima literatura.