02/01/2026

RIO DE JANEIRO — LISBOA ( Matilde Campilho ) in Jóquei, 2014

 

um dia você

adora meus óculos
adoro os teus óculos
no dia seguinte
não quero que venhas na fazenda
três dias antes
você ia adorar este lugar
você quer vir até à fazenda?
um dia eu rasgo
o tecido celular do rosto
realizo um sorriso constante
que atravessa o morro
o ponto mágico do morro
rasgão alegre que fulmina
o veio mínimo da folha
de amendoeira
e pelo feixe de luz tropiquente
vai parar na cara de João
vendedor de suco no leblon
em ricochete João grita açaí!
qualquer dia eu vou e chego

no outro dia
a cidade se aborrece
desdignificada pela
gigante roleta
que se chama medo
o urubu fica empoleirado
na trave enferrujada
daquilo que já foi suporte
ao cartaz que anunciava
o novo mundo das piscinas

fosforescentes
o pássaro suspenso
olhando a via rápida
e catando caca
debaixo da unha
temendo o gira girar
da pequena roda
que circula sorte e azar

um dia você
escreve para seus pais
falando sobre o amor
quarenta dias depois
teus pais te escrevem
falando sobre redes de pesca
e o perigo das redes de pesca
um dia você me envia uma carta
depois a outra
o rasgão explode
recordando ainda outra carta
de alguns meses antes
o postal eterno que dizia
still crazy (after all
these years)
faço voto de silêncio
mas na sacralização
horária das avenidas
eu penso que você
sua mãe e seu pai
conversam muito
sobre peixes
e que isso mantém quieta
a roleta negra
e que isso mantém aparada
a unha do urubu
e que isso faz homenagem
a João e à fruta espessa
que brilha vermelha
em cada copo de minha cidade

um dia você diz que me a****
eu a****-te
no dia seguinte
a amendoeira se expande
e floresce cinco folhas mais
nesse dia reparo
que estamos contribuindo
você e eu
para o florestamento da cidade
de duas cidades
faço voto de silêncio
mas na sacralização horária
da respiração eu penso
que apesar da sala de casino
abrigo da gigante roleta do medo
apesar dos golpes de gmt -3
apesar da fita de seda que fica
ondulando sua medida de 7 800 km
estamos dando utilidade ao amor
alargando os braços das amendoeiras
alargando os braços dos jacarandás
partindo as inúteis linhas de fronteira
e fazendo do mundo
a gigante floresta

EU JÁ ESCUTO OS TEUS SINAIS ( Matilde Campilho ) in Jóquei, 2014

 Olhe lá

Eu nunca quis voltar
atrás no tempo
nem por uma vez
A vida já foi muito boa
e muito ruim comigo
com minhas costas
com meus rins com meus estúpidos
glóbulos vermelhos
com minha melancolia
com minha nacionalidade
A vida já foi mais estúpida
que meus glóbulos vermelhos
Mais doce que a visão do sol
de junho batendo nos joelhos
de um garoto ou de uma mulher
A vida já se serviu de mim
como uma pega
como um garçom
como um respigador
como um profissional
da marcação de fronteiras
Serviu-se de mim
para todos os trabalhos
Quis cuspir-lhe na cara
vezinquando
Mas nunca
por razão nenhuma
quis voltar atrás
no tempo da vida
Pelo contrário
sempre me servi
do tempo dela
para aprender a contar
as partes todas
da futebolada mística
Desta vez é diferente
Escute agora é diferente
Daqui da bancada
dá para ver meio passado
e meio futuro
Me sento sobre o balde
do duro inverno boreal
E enquanto vou esculpindo
o lustroso nada a canivete
Eu vejo os 32 °C no pontão
do Leme (mais cinco graus
se contarmos a temperatura
externa da pedra física)
Sobre o cais estão dançando
alguns astros imperfeitos
Suspeito que são homens
Eles levantam suas plumas
até a garganta do deserto
Sim eu me lembro
Mais de 40 homens
e a banda tocando
uma canção de amor
De repente lá vem vindo
oba de repente lá vem
Estou falando da entrada
da menina na arena
Da entrada dos seus cabelos
na frente de nossas retinas
Estou falando da velocidade
de um bambolê elétrico
rodopiando em torno
de tantos triplos suores
enquanto a banda toca
Olhe lá não procure histórias
estou falando de algum passado
Estou falando do ritmo
de uma estação violenta
E nem por isso impiedosa
É verão no Rio de Janeiro
Daqui deste balde revirado
dá para ver a felicidade
desabando sobre as cabeças
Dá para ver a força santa
do desejo físico imortal
Dá para ver disparos
que arrasam com toda
espécie de nacionalidade
Olhe eu nunca quis trocar
os tempos nem as partes
da partida fundamental
Mas daqui deste balde
dá para ver o assalto
que deu cabo da puta
e do garçom e até mesmo
do barbudo fronteiriço
O crime alegórico
que restaurou a alegria
E portanto veja bem
hoje se eu pudesse
eu voltava à cidade
Só para me sentar
sobre a pedra austral
e ficar assistindo às explosões
dos bambolês polifônicos
entre os dedos de uma mulher
Hoje se eu pudesse
eu voltava à cidade
Só para beijar
a cidade na boca.

COQUEIRAL ( Matilde Campilho ) in Jóquei, 2014

 A saudade é um batimento que rebenta assim

vinte e oito vezes desde meu ombro tatuado
de desastre até à rosa pendurada em sua boca

E o amor, neste caso específico, é um mergulho
destemido que deriva quase sempre de uma nota
climática apenas para convergir no osso frontal
do crânio do rei da ilusão — terno é o seu rosto

Senhor, os ossinhos do mundo são de mel e ouro.

BRIGA ENTRE UM TERRENO SAGRADO E OUTRO ( Matilde Campilho ) in Jóquei, 2014

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FUR COM CARA DE WHITMAN ( Matilde Campilho ) in Jóquei, 2014

 foi assim que você pensou que eu viria ao mundo

foi assim que que você me viu na floresta
foi assim que você me viu pendurado no poste elétrico
sempre pendurado num ramo qualquer, sempre usando
o verão.
você se lembra daquele verão no Brooklin
em que ficámos perseguindo os bombeiros
durante todo o dia apenas para ver
uma vez e depois outra vez
o leque aquático que se abria sobre o fogo?
você citava poetas húngaros mas nesse tempo
eu só queria saber de inventar uma língua
que não existisse.
você se lembra do concierge que nos recebia
na pensão do Brooklin como se nunca
nos houvesse visto antes?
e não havia semana que passasse
em que nós não dormíssemos
pelo menos uma madrugada
na pensão do Brooklin.
me lembro dos dólares amassados
que eu semanalmente tirava do bolso
para pagar a Doug
eu sabia o nome de Doug
o Doug nos tratava disfarçadamente
por menina e menino.
você falava que os dólares vinham
sempre com uma forma diferente
eu adoro como você consegue tirar um coelho do bolso
eu adoro como você consegue tirar uma lâmpada do bolso
eu adoro como você consegue tirar a Beretta 92fs do bolso

foi assim que você pensou que eu ficaria
no mundo
com corpo de besta vestida
usando um lápis pousado na orelha

foi assim que você me viu
pedindo três ovos para Miss Elsie
a senhora da mercearia na Court Street
ela me deu oito ovos
porque ela sempre dava alguma coisa
ela me achava uma graça e ela não acreditava
em números ímpares. eu também não.
me lembro de você na mercearia
do Brooklyn
você costumava ficar lá atrás
brincando na secção das ferramentas.
se eu tivesse mais do que um coelho,
uma lâmpada ou uma pistola
eu teria te comprado um Black n’ Decker
eu acho que você seria a pessoa mais feliz da ilha
com um Black n’ Decker enfiado no cinto.

foi assim que você pensou que eu ficaria no mundo,
usando flores em meu cabelo negro,
sempre escondidas no emaranhado dos cachos
sempre escondidas no emaranhado do caos
de minha cabeça negra.

só você sabia quantas flores eu usava
porque agora eu já sei
que você dedicava as noites
à contagem. Deus não dorme
e você também não.

 

01/01/2026

ILHA DE PEDRA ( Eliana Zandonade ) in “Peixes Poetas”, Zinia Editora, 2025

 Sou a pedra

À beira do caminho,
Imóvel e dura
Ofereço descanso,
Escuto seu pranto
Sou puro silêncio
Dentro de mim
Há doçura cristalizada,
Sou pedra,
Pareço pedra
No fundo, sou o próprio
Caminho.

DEPOIS ( Eliana Zandonade ) in “Peixes Poetas”, Zinia Editora, 2025

 Depois que conheci o mar,

molhei os pés,
fitei o infinito,
fiz castelos de areia,
cavei buracos ao sol,
conversei com o vento,
brinquei com as nuvens,
puxei a rede cheia de peixes,
salguei os cabelos,
mergulhei fundo,
Nunca fui a mesma
Virei peixe, virei mar,
vento, sol, sal, poeta,
aprendi a pescar
e cavar a palavra certa!

24 ( Ana Estaregui ) in “Fazer Círculos Com Mãos de Ave”, Editora 34, 2025

 escrevo suas palavras sobre as minhas

como se pudesse de algum modo
possuir o seu corpo
como se estando aqui e agora
palavra sobre palavra
pudesse produzir uma fusão – uma telepatia
como se ao pronunciar as mesmas palavras
espadana d’água
olmos
glicínia
pudesse fazer o poema germinar sobre a paisagem
terra sobre terra jardim sobre letra
como plantas que se fazem a partir de mudas
livros a partir de livros
e quem sabe possa ser como naquele dia
em que ouvimos pela primeira vez
o canto de um uirapuru
e na sua voz uma árvore dizia
o meu nome é labirinto

96 ( Ana Estaregui ) in “Fazer Círculos Com Mãos de Ave”, Editora 34, 2025

 alimento o fogo com pequenos galhos

ele responde brilhando
cada vez mais
conversamos a partir da troca
um ramo por uma faísca
uma lasca uma fagulha
na sua língua ele diz
formas são poderes
enquanto sublinha o escuro
com traços luminosos

Por Roberta Iannamico Trad.:Estela Rosa & Luciana di Leone; in Quitanda, Coleção América Invertida, 2024.

 Todos começamos a parecer com nossas mães

quando o tempo passa
ficamos grandonas
mimosas
o olhar
mais famoso
como o de alguém que pode
se defender de tudo
como o de alguém que está
apaixonada por si mesma
nos momentos
de solidão.

ESTRADA(Roberta Iannamico)Trad.:Estela Rosa & Luciana di Leone; in Quitanda, América Invertida, 2024.

 Parávamos na estrada

minha mãe e eu
corríamos para fazer xixi
descíamos
pro túnel
embaixo da estrada
nos abaixávamos
dava vontade de rir escutar os carros
em cima da gente
com a bunda de fora
e aí bateu
um vento
e me molhei
a gente ria
a gente ria.

ESTADO DE SÍTIO ( Cristina Peri Rossi ) in “Nossa Vingança é o Amor”, Editora 34, 2024.

Aquela vez

– estado de sítio na cidade
sirenes ambulâncias tanques verdes
como pesados lagartos
e o medo crescendo como erva daninha –

acreditamos que seria a última vez.

Fizemos amor com a intensidade da agonia

amar antes de morrer
amar até morrer

fizemos amor com o desespero
da partida

e teus gemidos eram a dor do orgasmo
teu pranto o pranto da perda na união.

Os soldados não chegaram,
passaram ao largo ou
foram para outra casa.

Nunca mais houve uma noite como aquela

compartilhar o medo
o terror do pânico
une mais do que compartilhar a felicidade
a bem-aventurança.

Desde então,
busco a intensidade em outra parte
e não a encontro nas drogas
nem no álcool
nem nas orgias

a intensidade está no meu interior
colada à minha fantasia.

VELHICE II ( Cristina Peri Rossi ) in “Nossa Vingança é o Amor”, Editora 34, 2024.

 Antes de morrer

uma última tortura
desdobra-se
para contemplar nosso passado
com inédita lucidez
sem sentimentos
talvez só um pouco de ternura
pela criança que fui
solitária ingênua e sonhadora
pela adolescente que fui
solitária ingênua e sonhadora
e observar com equanimidade
os erros próprios e alheios
para descobrir que tampouco eles
importam agora.
Nada nunca
neste mundo
pode desfazer o grande mal-entendido
apesar do qual não nos suicidamos
porque já estamos velhos demais pra isso
ou por temor de falhar no intento
e que esse seja ao fim e ao cabo
o último erro de nossa vida.

DESPEDIDA DA MUSA ( Cristina Peri Rossi ) in “Nossa Vingança é o Amor”, Editora 34, 2024.

 Ontem expulsei a musa

por mau comportamento:
despojou-se dos véus
dos vestidos das palavras
dos versos das rendas
e quis ser ela mesma
recuperar sua identidade
falou de seus direitos femininos
e reclamou sua liberdade.

Pobre musa sem poeta
pobre corpo sem investidura
pobre mulher sem quem a sonhe.

A MUSA REBELDE ( Cristina Peri Rossi ) in “Nossa Vingança é o Amor”, Editora 34, 2024.

 Hoje a musa amanheceu reivindicativa

me falou não sei o quê sobre sua verdadeira personalidade
sobre ser ela mesma
sobre não querer ser outra.
A musa está cansada
quatro anos de palco
abalaram sua resistência.
Basta de fantasias
quer ser autêntica.
Abro a janela dos sonhos
para que ela vá embora
pressinto que chegou o momento
de dizer adeus.
Ela sairá pela janela
e no chão
como um vestido puído
já sem uso
a musa será apenas vazio
apenas cinzas.
O quarto ficará muito solitário
e eu não terei um corpo
quer vestir
nem um poema que escrever.

A PAIXÃO ( Cristina Peri Rossi ) in “Nossa Vingança é o Amor”, Editora 34, 2024.

 Saímos do amor

como de um acidente aéreo
Tínhamos perdido a roupa
os documentos
a mim me faltava um dente
a você a noção do tempo
Era um ano longo como um século
ou um século curto como um dia?
Pelos móveis
pela casa
restos partidos:
copos fotos livros desfolhados
Éramos os sobreviventes
de um desmoronamento
de um vulcão
das águas arrebatadas
E nos despedimos com a vaga sensação
de ter sobrevivido
embora não soubéssemos para quê.

O PARTO ( Cristina Peri Rossi ) in “Nossa Vingança é o Amor”, Editora 34, 2024.

 Do fundo do ventre,

como uma montanha,
a obscura força do desejo.
O desejo, obscuro como uma semente.
A semente fechada e muda
como uma ostra.
Os lábios da ostra
lentamente se abrindo,
como a vulva.
A vulva, úmida e violeta,
às vezes, fosforescente.
Babel, voltada para dentro,
como uma semente. Guardada
como uma ostra. Ensimesmando-se,
como o caracol encolhido.
Babel torre, Babel casa escondida.
               “É longo esconder-se por nove meses”, diz Babel,
                 inchada.
A palavra, apontando para fora.
A palavra, sobressaindo do vestido.
A palavra, empurrando seu broto,
sua alegria, sua maldição.

Babel pelas ruas como uma virgem,
como se nada escondesse. Babel bailando em bable.
Babel vestida.

 E de pronto, subitamente, o grito.

Descendo pelas pernas abertas, o grito.
Desfundando-se nos lençóis, o grito.
Liquefazendo-se nos quadris duros como âncoras,
Forçando-se a sair, o grito.
Brutal, tresnoitado, fundo, gutural,
                                                            onomatopaico,
                                                                            Babel bárbara
negro, desentranhado,
                                     o grito: partido em dois,
feito de sangue,
                         voz da víscera,

palavra sem lugar no dicionário. 

Do fundo do ventre,

como uma montanha,
a obscura força do desejo.
O desejo, obscuro como uma semente.
A semente fechada e muda
como uma ostra.
Os lábios da ostra
lentamente se abrindo,
como a vulva.
A vulva, úmida e violeta,
às vezes, fosforescente.
Babel, voltada para dentro,
como uma semente. Guardada
como uma ostra. Ensimesmando-se,
como o caracol encolhido.
Babel torre, Babel casa escondida.
               “É longo esconder-se por nove meses”, diz Babel,
                 inchada.
A palavra, apontando para fora.
A palavra, sobressaindo do vestido.
A palavra, empurrando seu broto,
sua alegria, sua maldição.

Babel pelas ruas como uma virgem,
como se nada escondesse. Babel bailando em bable.
Babel vestida.

 E de pronto, subitamente, o grito.

Descendo pelas pernas abertas, o grito.
Desfundando-se nos lençóis, o grito.
Liquefazendo-se nos quadris duros como âncoras,
Forçando-se a sair, o grito.
Brutal, tresnoitado, fundo, gutural,
                                                            onomatopaico,
                                                                            Babel bárbara
negro, desentranhado,
                                     o grito: partido em dois,
feito de sangue,
                         voz da víscera,
palavra sem lugar no dicionário.

VII ( Hilda Hilst ) in Cantares São Paulo: Editora Globo, 2002.

 Rios de rumor: meu peito te dizendo adeus.

Aldeia é o que sou. Aldeã de conceitos
Porque me fiz tanto de ressentimentos
Que o melhor é partir. E te mandar escritos.
Rios de rumor no meu peito: que te viram subir
A colina de alfafas, sem éguas e sem cabras
Mas com a mulher, aquela,
Que sempre diante dela me soube tão pequena.
Sabenças? Esqueci-as. Livros? Perdi-os.
Perdi-me tanto em ti
Que quando estou contigo não sou vista

E quando estás comigo vêem aquela.