20/01/2026

Por Bruna Lombardi

 a face oculta das palavras

às vezes se mostra
na mais estranha luz
e a parte escura
nunca antes revelada
aflora
ousada
com uma intimidade inesperada
como a primeira claridade
de uma aurora.
Todas essas malditas palavras sem pudor
que eu queria afugentar
mandar embora.

as palavras elas, as palavras
suas luzes, seus ritmos, significados.

Por Bruna Lombardi

 entre o teu signo e o meu

existe uma possibilidade
de veneno
umas tintas de vermelho
meu moreno

e se a paixão há de ser provisória
que seja louca e linda
a nossa história.

Por Bruna Lombardi

 Você sabe como eu sou despreocupada

que me encerro neste quarto e me permito
todas as divagações, as fantasias
obsessões, perseguições, todos os dias
você sabe que eu me viro de inventos
que eu me reparto e dou crias
que eu mal me resolvo e me aguento
carrego pedras no bolso
e enfrento ventanias.

Você sabe como eu sou desorientada
raciocínio pelo instinto e cometo
fugas de túnel de ladra de galeria
uso malhas e madras manhas e lenhas
e percorro superfícies
em que você escorregaria

Mas você sabe como eu sou de subsolos
de subterfúgios, de subversos subliminares
como eu sou de submundos
subterrãneos, de sub-reptícias folias
meio de circo, meio de farsa
ervas, panfletos, fluídos, presságios
quebrantos, jeitos, gírias, reviras
de sensações e cismas, filosofias

de como eu sou de estradas, andanças, pressentimentos
atmosférica e vadia
gato da noite, de crises, guitarras
ouros e danças e circunstâncias
de vinho azedo e companhia.

Que eu sou de todas as misturas
todas as formas e sintonias
e enfrento esse aperto, essas normas
forças, pressões, imposições, o poderio
os intervalos, o silêncio da maioria.

Você sabe de toda minha luta
mesmo quando a intenção silencia
que eu não cedo, não desisto
a todo custo,, a toda faca, a todo risco
eu sobrevivo de paixão e de anarquia.

Você sabe bem de minha fraude
Você conhece as minhas alquimias.

Por Bruna Lombardi

 Qual é a atitude

que você está tomando, moço?
Que grito você está dando
que eu não ouço?
Que é que está adiantando
falar grosso?
Que laço, que fita, que farsa
que nó é esse amarrado
no pescoço?
Moço, que palhaçada, que festa
é essa? Que luz
se nos taparam o sol?
Que é que resta, que é que presta
como é que se pode nadar
no meio de tanto anzol?

E quando a corrida começa
todo mundo disparado
pisando em quem tropeça

Moço, que incongruência
um sorriso numa hora dessa...

Por Bruna Lombardi

 alguém pode me dizer

se estava prevista na palma da minha mão
esta paixão inesperada
se estava já escrita e demarcada
na linha da minha vida
se fazia já parte da estrada
e tinha que ser vivida

ou foi um desgoverno repentino
que surpreendeu os deuses, todos
os que desenham o nosso destino
ou foi um desatino, uma loucura
uma imprevisível subversão
que só a patir de agora eu trago marcada
na palma da minha mão

Por Bruna Lombardi

 Eu não sabia o que fazer, e abri a blusa.

Mais tarde eu ia dizer: foi sem pensar.
Ele me achou desnorteada, confusa,
Como acharia qualquer mulher que abre a blusa
E faz tudo que eu fiz só pra agradar.

Minha cabeça não era mesmo muito certa.
Mulher esperta eu nunca fui, mas deveria
Saber me colocar no meu lugar.
Não adiantava nada, eu era assim desatinada,
O tipo de mulher que faz as coisas sem pensar...

Você agora, me ouvindo contar essas histórias,
Talvez me ache também um pouco confusa.
E eu, que faço tudo pra agradar,
Já sem saber o que fazer, abro minha blusa,
Como faria qualquer mulher confusa em meu lugar!

Por Bruna Lombardi

 Cobrí aquele homem de uma tesão incontrolável

depois me mandei, mudei de hotel
leviana como sempre
rasguei sem ler as cartas, eu não me importo
com o sofrimento de ninguém

Dias atrás passou por mim, fiz que não vi
uma preguiça de explicar a vida
difícil resumir.

Fui impulsiva e me afastei pra sempre
de sua cama.
- Temos nossas diferenças - eu lhe disse uma manhã.

Difícil se acostumar a conviver
com alguém que usa pijama
e fica olhando pra gente
com cara de galã.

VULNUS ( Raimundo Correia )

 Com bons olhos, quem ama, em torno tudo vê!

Folga, estremece, ri, sonha, respira e crê;
A crença doira e azula o círculo que o cinge;
Da volúpia do bem o grau supremo atinge!

Eu também atingi esse supremo grau:
Também fui bom e amei, e hoje odeio e sou mau!
E as culpadas sois vós, visões encantadoras,
Virgínias desleais, desleais Eleonoras!

Minha alma juvenil, ígnea, meridional,
Num longo sorvo hauriu o pérfido e letal
Filtro do vosso escuro e perigoso encanto!

A vossos pés rasguei tantos castelos! Tanto
Sonho se esperdiçou! Tanta luz se perdeu!
Amei: nem uma só de vós me compreendeu!

SEM REMÉDIO ( Florbela Espanca ) in Livro de Mágoas, 1919

 Aqueles que me têm muito amor

Não sabem o que sinto e o que sou.
Não sabem que passou, um dia, a Dor,
À minha porta e, nesse dia, entrou.

E é desde então que eu sinto este pavor;
Este frio que anda em mim, e que gelou
O que de bom me deu Nosso Senhor!
Se eu nem sei por onde ando e onde vou!

Sinto os passos da Dor, essa cadência
Que é já tortura infinda, que é demência!
Que é já vontade doida de gritar!

E é sempre a mesma mágoa, o mesmo tédio,
A mesma angústia funda, sem remédio,
Andando atrás de mim, sem me largar!

VULCÕES ( Florbela Espanca ) in Trocando Olhares, 1985

 Tudo é frio e gelado. O gume dum punhal

Não tem a lividez sinistra da montanha
Quando a noite a inunda dum manto sem igual
De neve branca e fria onde o luar se banha

No entanto que fogo, que lavas, a montanha
Oculta no seu seio de lividez fatal
Tudo é quente lá dentro e que paixão tamanha
A fria neve envolve em seu vestido ideal!

No gelo da indiferença ocultam-se as paixões
Como no gelo frio do cume da montanha
Se oculta a lava quente do seio dos vulcões.

Assim quando eu te falo alegre, friamente,
Sem um tremor de voz, mal sabes tu que estranha
Paixão, palpita e ruge em mim doida e fremente!

JANELAS ABERTAS ( Antonio Carlos Jobim & Vinícius de Moraes )

 Sim

Eu poderia fugir, meu amor
Eu poderia partir
Sem dizer pra onde vou
Nem se devo voltar

Sim
Eu poderia morrer de dor
Eu poderia morrer
E me serenizar

Ah
Eu poderia ficar sempre assim
Como uma casa sombria
Uma casa vazia
Sem luz nem calor

Mas
Quero as janelas abrir
Para que o sol possa vir iluminar nosso amor

BALADA DO LADO SEM LUZ ( Gilberto Gil )

 O mundo da sombra, caverna escondida

Onde a luz da vida foi quase apagada
O mundo da sombra, região do escuro
Do coração duro, da alma abalada, abalada

Hoje eu canto a balada do lado sem luz
Subterrâneos gelados do eterno esperar
Pelo amor, pelo pão, pela libertação
Pela paz, pelo ar, pelo mar
Navegar, descobrir outro dia, outro sol

Hoje eu canto a balada do lado sem luz
A quem não foi permitido viver feliz e cantar como eu
Ouça aquele que vive do lado sem luz
O meu canto é a confirmação da promessa que diz
Que haverá esperança enquanto houver um canto mais feliz

Como eu gosto de cantar
Como eu prefiro cantar
Como eu costumo cantar
Como eu gosto de cantar

Quando não tão a balada, a balada, a balada
Do lado sem luz

19/01/2026

EU TE BEIJO ( Ivana Aponte ) tradução: Gladys Mendía

 Eu te beijo

O sabor do café
anuncia um novo dia

 

Eu te beijo
O curry te comove
enquanto meus lábios ardem de leve

 

Eu te beijo
Saberás mais de mim
na noite seguinte

18/01/2026

A BELA E A FERA ( Edu Lobo & Chico Buarque de Holanda )

 Ouve a declaração oh bela, de um sonhador titã

Um que dá nó em paralela e almoça rolimã
O homem mais forte do planeta, tórax de Superman
Tórax de Superman e coração de poeta

Não brilharia a estrela oh bela, sem noite por detrás
Tua beleza de gazela sob o meu corpo
É mais uma centelha num graveto

Queima canaviais
Queima canaviais
Quase que eu fiz um soneto!
Mais que na lua ou no cometa ou na constelação
O sangue impresso na gazeta tem mais inspiração

No bucho do analfabeto, letras de macarrão
Letras de macarrão fazem poema concreto

Oh bela, gera a primavera, aciona o teu condão
Oh bela, faz da besta-fera um príncipe cristão

Recebe o teu poeta oh bela, abre teu coração!
Abre teu coração ou eu arrombo a janela!

TERRA DE NINGUÉM ( Marcos Valle & Paulo Sérgio Valle )

 Segue nessa marcha triste

Seu caminho aflito
Leva só saudade
E a injustiça que só lhe foi feita
Desde que nasceu
Pelo mundo inteiro
Que nada lhe deu

Anda, teu caminho é longo
Cheio de incerteza
Tudo é só pobreza
Tudo é só tristeza
Tudo é terra morta
Onde a terra é boa
O senhor é dono
Não deixa passar.
Para no final da tarde
Tomba já cansado
Cai um nordestino
Reza uma oração
Prá voltar um dia
E criar coragem
Prá poder lutar
Pelo que é seu.

Mas...
O dia vai chegar
Que o mundo vai saber
Não se vive sem se dar
Quem trabalha é que tem
Direito de viver
Pois a terra é de ninguém

ELEGIA 1938 ( Carlos Drummond de Andrade ) in Sentimento do Mundo, 1940

 Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,

onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.

Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue frio, a concepção.
À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.

Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.

Caminhas entre mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.

Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.

17/01/2026

RAINHA DO EGITO ( Nelson Jacobina )

 Sou a rainha do egito

Sou a filha do faraó
Sou uma dessas meninas que namoram a lua
E o sol
Sou cartomante de esquina
Sou bailarina de um cabaré
Sou uma dessas meninas que anda descalça
E a pé
Me mandando pela louca madrugada
Com um cigarro aceso em cada mão
Por que o ser humano
Seja homem ou mulher
É uma eterna criação
É uma eterna criação

Posso te beijar agora
Pro zig zag poder ir embora
Posso te beijar agora
Pro zig zag poder ir embora

É a barra pesada que está chegando
É a barra pesada que está chegando

Tudo menina, menino jóia dançando
Tudo menina, menino jóia dançando

TARADO ( Caetano Veloso & Jorge Mautner )

 Gosto de ficar na praia deitado

Com a cabeça no travesseiro de areia
Olhando coxas gostosas por todo lado
Das mais lindas garotas, também das mais feias
Porque são todas gostosas e sereias
Pro meu olhar de supremo tarado
Tarado.

LÁGRIMAS NEGRAS ( Jorge Mautner & Nelson Jacobina )

 Na frente do cortejo o meu beijo

Muito forte como aço, meu abraço
São poços de petróleo, a luz negra dos seus olhos
Lágrimas negras caem, saem, doem

Por entre flores e estrelas
Você usa uma delas como brinco pendurada na orelha
É o astronauta da saudade com a boca toda vermelha
Lágrimas negras caem, saem, doem

São como pedras de moinho
Que moem, roem, moem
E você, baby, vai, vem, vai
E você, baby, vem, vai, vem

Belezas são coisas acesas por dentro
Tristezas são belezas apagadas pelo sofrimento
Belezas são coisas acesas por dentro
Tristezas são belezas apagadas pelo sofrimento
Lágrimas negras caem, saem, doem
Lágrimas negras caem, saem, doem

PREFIRO O VENTRE DA ESCURIDÃO ( Jorge Mautner )

Perfuro o ventre da escuridão

onde as coisas se escondem

porque estão cheias de sim e de não e de confusão

e quando pergunto sobre qualquer assunto nunca

         respondem

São como coisas presas ao labirinto

com algemas nos pulsos e tudo

são cinco pras cinco e eu já me sinto

dentro do seu não e de um caixão de veludo

 

Toca teu samba, toca

e tortura meu ser com prazer de ser

a tortura como aquela coisa que nos choca

onde a alegria me enganava se dizendo a alegria de não ter

 

Não ter o quê?

Ora, tá na cara

não ter é não ter você                

seja com grilo ou seja odara

 

Luas de prata conseguem

fazer com que lentamente

as sensações das emoções naveguem

e invadam como as fadas minha mente

 

Doem-me todas as cicatrizes

e sinto as rugas das verrugas

Sei que és como atores e atrizes

e que sempre atacas quem te quer por em fugas

 

Tocas então mil serenatas

e antigas cantigas e rondós

depois mijas no chão como os cães vira-latas

e ficas falando de ti quando estamos a sós

 

É por isso que sinto todos estes e aquelas

dores incolores e na garganta estes nós

Nem as cores de óleos, hologramas ou aquarelas

poderiam expressar tão bem estes meus ós, ós, ós!

16/01/2026

RIQUEZA(Gabriela Mistral) in Rosa do Mundo 2001;Poemas para o Futuro,Assírio & Alvim; Trad.:José Bento

 Tenho a ventura fiel

e a ventura perdida:
uma é qual uma rosa,
e a outra como um espinho.
De tudo o que me roubaram
nunca fui despossuida:
tenho a ventura fiel
e a ventura perdida,
e estou tão rica de púrpura
como de melancolia.
Ai, como é amada a rosa
e que amante é o espinho!
Como o duplo contorno
dos frutos que gêmeos vivem,
tenho a ventura fiel
e a ventura perdida

AS ESTRELAS (Trovas) Adelmar Tavares

 No céu, - frente à sua casa,

primeira vez que a beijei,
brilhava, linda, uma estrela
ninguém nos viu, bem o sei.

Mas não sei que disse a estrela,
que há, desde essa ocasião,
bem defronte à sua casa,
toda uma constelação.

DEBAIXO D'ÁGUA ( Arnaldo Antunes )

Debaixo d'água tudo era mais bonito

Mais azul mais colorido
Só faltava respirar

Mas tinha que respirar

Debaixo d'água se formando como um feto
Sereno confortável amado completo
Sem chão sem teto sem contato com o ar

Mas tinha que respirar
Todo dia
Todo dia, todo dia
Todo dia
Todo dia, todo dia
Todo dia
Debaixo d'água por encanto
Sem sorriso e sem pranto
Sem lamento e sem saber quanto
Esse momento poderia durar

Mas tinha que respirar

Debaixo d'água ficaria para sempre
Ficaria contente
Longe de toda gente para sempre
No fundo do mar

Mas tinha que respirar
Todo dia
Todo dia, todo dia
Todo dia
Todo dia, todo dia
Todo dia

Debaixo d'água protegido salvo fora de perigo
Aliviado sem perdão e sem pecado
Sem fome sem frio sem medo sem vontade de voltar
Mas tinha que respirar

Debaixo d'água tudo era mais bonito
Mais azul mais colorido
Só faltava respirar

Mas tinha que respirar
Todo dia
Todo dia, todo dia
Todo dia
Todo dia, todo dia
Todo dia

MISS SUETER (Aldir Blanc & João Bosco)

 Fascínio tenho eu

Por falsas louras
(Aí, a negra lingerie)
Com sardas
Sobrancelha feita a lápis
E perfume da Coty

Na boca
Dois pivots são graciosos
Entre joias naturais
E olhos tais minúsculos aquários
De peixinhos tropicais
Eu conheço uma assim
Uma dessas mulheres
Que um homem não esquece
Ex-atriz de TV
Hoje é escriturária do INPS
E que, dia atrás
Venceu lá no concurso de
Miss Sueter

Na noite da vitória
Emocionada, entre lágrimas falou
Nem sempre a minha vida foi tão bela
Mas o que passou, passou
Dedico esse título a mamãe
Que tantos sacrifícios fez
Pra que eu chegasse aqui, ao apogeu
Com o auxílio de vocês
Guardarei para sempre
Seu retrato de miss com cetro e coroa
Com a dedicatória que ela
Em letra miúda, insistiu em fazer
Pra que os olhos relembrem
Quando o teu coração infiel esquecer
Um beijo, Margot

XANGÔ ( Chico Saraiva & Suzana Salles )

 É Xangô que vai chegar

Por Alá canta o corão
Coro Atlântico verão
Acalanto uma canção

Xangô baixou em Shangai
Na pele de um samurai
Em nome da mãe e do pai
Xangô entra não sai
Xangô chamou um xamã
Nas terras de Aldebarã
Em nome do irmão da irmã
Xangô é a luz da manhã

Xangô pluma da cultura
O bico da bic futura
Seu nome é a água que fura
Dureza da pedra que dura
Xangô agogô da planície
Xangô versos que Xangô disse
O chão a chã superfície
Me viu antes que eu lhe visse