23/01/2026

OBSESSÃO DO MAR OCEANO ( Mário Quintana ) do livro “O Aprendiz de Feiticeiro”, 1950.

 Vou andando feliz pelas ruas sem nome

Que vento bom sopra do Mar Oceano!
Meu amor eu nem sei como se chama,
Nem sei se é muito longe o Mar Oceano
Mas há vasos cobertos de conchinhas
Sobre as mesas e moças na janelas
Com brincos e pulseiras de coral
Búzios calçando portas caravelas
Sonhando imóveis sobre velhos pianos
Nisto,
Na vitrina do bric o teu sorriso, Antínous,
E eu me lembrei do pobre imperador Adriano,
De su’alma perdida e vaga na neblina
Mas como sopra o vento sobre o Mar Oceano!
Se eu morresse amanhã, só deixaria, só,
Uma caixa de música
Uma bússola
Um mapa figurado
Uns poemas cheios de beleza única
De estarem inconclusos
Mas como sopra o vento nestas ruas de outono!
E eu nem sei, eu nem sei como te chamas
Mas nos encontramos sobre o Mar Oceano,
Quando eu também já não tiver mais nome.

INFINITO DESEJO ( Gonzaguinha )

 Ah, infinito delírio chamado desejo

Essa fome de abraços e beijos
Essa sede incessante de amor
Ah, essa luta de corpos suados
Ardentes e apaixonados
Gemendo na ânsia de tanto se dar

Ah, de repente o tempo estanca
Na dor do prazer que explode
É a vida, é a vida e é bem mais
Esse teu rosto sorrindo
Espelho do meu no vulcão da alegria
Te amo, te quero, meu bem não me deixe jamais
Eu vejo a menina brotando da coisa mais linda
Que é ser tão mulher

Oh santa madura inocência
O quanto foi bom e pra sempre será
E a mim só importa manter essa chama
Até quando eu não mais puder
E a mim não importa nem mesmo
Se Deus não quiser!

IANSÃ ( Caetano Veloso & Gilberto Gil )

 Senhora das nuvens de chumbo

Senhora do mundo dentro de mim
Rainha dos raios, rainha dos raios
Rainha dos raios, tempo bom, tempo ruim

Senhora das chuvas de junho
Senhora de tudo dentro de mim
Rainha dos raios, rainha dos raios
Rainha dos raios, tempo bom, tempo ruim
Eu sou o céu para as tuas tempestades

Um céu partido ao meio no meio da tarde
Eu sou um céu para as tuas tempestades
Deusa pagã dos relâmpagos
Das chuvas de todo ano
Dentro de mim, dentro de mim

FULANO, BELTRANO E SICRANO ( Fátima Guedes )

 Taí, uma mulher com pecados

Habilmente dividida
Três homens no meu caminho
Três caminhos sem saída:

O Fulano é meu amigo
O Beltrano é meu marido
O Sicrano é meu amor
E a briga cá é comigo
Eu é que sei...

Teve de ser com Fulano
De quem eu sou a pela fraca
A amante mais devassa
Seu estopim de desgraça
De encontros em pleno dia
E o medo que ele me passa
E a pressa que ele me passa
Eu sei que se ele me aperta
Sente em meio seio a fogaça
Eu sou mil vezes melhor
Embora ele adore a outra
Fulano me deixa louca

Beltrano me quis primeiro
Arrebatou-me princesa
Viril, forte e cavalheiro
Elogiou minha beleza
E Beltrano me escolheu
Pra ser o que há de mais seu
A mãe de seus garotinhos
Todos de olhos tranquilos
Seus filhinhos, meus filhinhos
Beltrano é o que há de mais puro

Mas Sicrano ainda me olha
Com tanto apego
Gosta e não gosta de estar comigo
Sente no meu respirar
Uma nota de perigo
Me tira e me põe nos seus planos
Sicrano vai nisso há anos
Ele sabe que minha vontade é ele
E me deixa esperar por de repente
Sicrano me põe doente

O Fulano é meu amigo
O Beltrano é meu marido
O Sicrano é meu amor
E a briga cá é comigo
Eu é que sei...

PROCURA DA POESIA ( Carlos Drummond de Andrade )

 Não faças versos sobre acontecimentos.

Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.

Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.

O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.

Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.

Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?

Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.

21/01/2026

PELA INTERNET ( Gilberto Gil )

 Criar meu web site

Fazer minha home-page
Com quantos gigabytes
Se faz uma jangada
Um barco que veleje

Criar meu web site
Fazer minha home-page
Com quantos gigabytes
Se faz uma jangada
Um barco que veleje

Que veleje nesse informar
Que aproveite a vazante da infomaré
Que leve um oriki do meu velho orixá
Ao porto de um disquete de um micro em Taipé

Um barco que veleje nesse infomar
Que aproveite a vazante da infomaré
Que leve meu e-mail até Calcutá
Depois de um hot-link
Num site de Helsinque
Para abastecer

Eu quero entrar na rede
Promover um debate
Juntar via Internet
Um grupo de tietes de Connecticut

Eu quero entrar na rede
Promover um debate
Juntar via Internet
Um grupo de tietes de Connecticut

De Connecticut de acessar
O chefe da Mac Milícia de Milão
Um hacker mafioso acaba de soltar
Um vírus para atacar os programas no Japão
Eu quero entrar na rede para contactar
Os lares do Nepal, os bares do Gabão
Que o chefe da polícia carioca avisa pelo celular
Que lá na Praça Onze
Tem um videopôquer para se jogar

20/01/2026

Por Bruna Lombardi

 Era preciso fazer alguma coisa

pesquisar todas as malhas dos signos
os mapas, os índicos até achar
era preciso estudar
atentamente os orixás
a possibilidade de viajar
tentar o mar
era preciso
escutar Keith Jarrett suavemente
sem se afogar
um som, um meio tom, um quadro na parede
luz de neon, e abrir um verde escandaloso na parede
paisagem que não se vê.
Por que você?
por que não qualquer um de nós que já tentamos tudo
que nos drogamos profundamente conscientes
perdidos no urbano da cidade
os olhos úmidos, a sensibilidade
de um nervo exposto, nos sentimos
metade depois.

Quem sabe os astros, as ondas de energia, as coincidências
os vôos interplanetários, uma idéia de resistência
uma coisa meio Blade Runner em volta
a gente de saco cheio de John Travolta
tentando achar a porta de saída
Nos vestimos de branco, tentamos escapar
com alternativas, chás naturais, respostas no I Ching
dança, poesia, artes marciais
andróides, liberdade, ecologia
músculos, danger, punk, micros, Nova York
toda ideologia é sempre tão contraditória
talvez a salvação viesse em naves espaciais
atari, eletrochoque ou a própria loucura
talvez saber chorar ajude muito.

Era preciso rever o lugar da emoção
o sexo, essa coisa delirante
escrever um relatório hite do avesso
que falasse de telefonemas noturnos, insônia
Metal pesado

Você devia ter se segurado em alguma coisa
uma moda, um discurso, uma idéia de si mesma
- uma paixão que fosse -
qualquer coisa
um mito, um guru, uma política
uma revolução, uma mentira
sei lá, alguma coisa pra se agarrar
talvez uma amiga como ela
um patamar
alguma coisa
antes de cair devagar
pela janela.

Por Bruna Lombardi

 Procurei me esconder do drama

mas ele atravessou
as paredes da minha casa
e me encontrou parado,
diante do espelho,
com um certo constrangimento,
como se envelhecer fosse pecado.

Por Bruna Lombardi

 oVocê vai logo perceber que ele não é uma pessoa fácil.

Um temperamento horrível, me diziam.
E eu, escrevia o nome dele secretamente
nas vidraças, nos elevadores, nos banheiros de cinema.

Você sabe que eu também, as vezes, fico insuportável
com essa mania de querer o impossível.

Mas, devia haver uma brecha nos nossos destinos,
que permitisse um encontro
num quarto de hotel qualquer
uma vez na vida!
furtivos e ordinários,
uma vez e pronto!
horas roubadas.

Não tive jeito de fazer essa proposta
e ele talvez nunca soube o que eu queria.
Carrego comigo o lado oculto de um desejo
passo por ele, sorrio,
digo bom dia.

Por Bruna Lombardi

 Voltei pra casa com a saia do avesso.

Pequenos sinais, evidências;
Esqueço sempre em algum lugar
Minha prudência.

Bom comportamento nunca foi meu ponto forte.
Minhas contradições se digladiam,
Sobrevivo de um instinto que me empurra
Para lugares onde moças não iriam.

Sou tantas, e a cada dia uma.
Quero da vida todas e mais algumas,
Ir fundo em todas essas personagens.

Gosto de descobrir todas as pessoas das pessoas,
E sobretudo gosto das pessoas
E é a elas que dedico essa viagem.

Por Bruna Lombardi

 Agora eu já sabia dele,

já tinha conseguido desvendar a fantasia,
já quase na quarta casa onde se compreendem os mecanismos da alma,
o id, substrato da psique e as grades,
as cancelas,
quando surgiu a oportunidade de nos olharmos longamente,
ah! os freios, e eu senti uma atração alucinada por ele.
Isso é tudo.
Atração. Atração.
Faria qualquer coisa por ele.
Viagens interplanetárias.
Encontros furtivos.
Três dias de ônibus (...) qualquer coisa.
Seria capaz de mentir.
Estranhos espaços da mente. Atmosferas.
Por ele até abstinência sexual.
Um homem comum, apenas isso.
Mas eu sabia que ele trazia latente aquela coisa absoluta. Definida. Demoníaca.
Delírios pactos, bastava ver como tragava a fumaça, de maneira perigosa.
Por ele eu me arrastava no tapete, pensei,
ah! se ele soubesse, decorei nomes de árvores, espécies, qualidades quando ele me disse que gostava e eu só de vê-lo falar de eucaliptos, ipês, espatódias, bauínias, algarobas, magnólias, tibuchinas, oleandros, muçuendas, acácias, paineiras, plátanos, olmos e resedás, pensava involuntariamente em sexo.

Por Bruna Lombardi

 O susto em nós foi avançar

muito para dentro do proibido.
Muito para perto de uma zona perigosa
A boca da noite... o desconhecido.
Vagos caminhos de uma via nebulosa.
Vários conceitos para falar da mesma coisa
O susto em nós foi descobrir porteirasde territórios nunca antes percorridos
No fundo de todos nós um visitante
No fundo, a falta de sentido.

Visitantes de nós mesmos cometíamos
a imprudência de quase enlouquecer
Para chegar à compreensão.
E uma coisa afiada nos conduzia
através da trilha da poesia
e do difícil trajeto da paixão.

Por Bruna Lombardi

 Nossa história está escrita

dentro de cada célula
só não sabemos lê-la
ainda

dentro de nós existe
a resposta que buscamos
só que não a procuramos
bem

o nosso lado mais sábio
ainda se esconde da gente
e vamos nascer novamente
até saber

Por Bruna Lombardi

 a face oculta das palavras

às vezes se mostra
na mais estranha luz
e a parte escura
nunca antes revelada
aflora
ousada
com uma intimidade inesperada
como a primeira claridade
de uma aurora.
Todas essas malditas palavras sem pudor
que eu queria afugentar
mandar embora.

as palavras elas, as palavras
suas luzes, seus ritmos, significados.

Por Bruna Lombardi

 entre o teu signo e o meu

existe uma possibilidade
de veneno
umas tintas de vermelho
meu moreno

e se a paixão há de ser provisória
que seja louca e linda
a nossa história.

Por Bruna Lombardi

 Você sabe como eu sou despreocupada

que me encerro neste quarto e me permito
todas as divagações, as fantasias
obsessões, perseguições, todos os dias
você sabe que eu me viro de inventos
que eu me reparto e dou crias
que eu mal me resolvo e me aguento
carrego pedras no bolso
e enfrento ventanias.

Você sabe como eu sou desorientada
raciocínio pelo instinto e cometo
fugas de túnel de ladra de galeria
uso malhas e madras manhas e lenhas
e percorro superfícies
em que você escorregaria

Mas você sabe como eu sou de subsolos
de subterfúgios, de subversos subliminares
como eu sou de submundos
subterrãneos, de sub-reptícias folias
meio de circo, meio de farsa
ervas, panfletos, fluídos, presságios
quebrantos, jeitos, gírias, reviras
de sensações e cismas, filosofias

de como eu sou de estradas, andanças, pressentimentos
atmosférica e vadia
gato da noite, de crises, guitarras
ouros e danças e circunstâncias
de vinho azedo e companhia.

Que eu sou de todas as misturas
todas as formas e sintonias
e enfrento esse aperto, essas normas
forças, pressões, imposições, o poderio
os intervalos, o silêncio da maioria.

Você sabe de toda minha luta
mesmo quando a intenção silencia
que eu não cedo, não desisto
a todo custo,, a toda faca, a todo risco
eu sobrevivo de paixão e de anarquia.

Você sabe bem de minha fraude
Você conhece as minhas alquimias.

Por Bruna Lombardi

 Qual é a atitude

que você está tomando, moço?
Que grito você está dando
que eu não ouço?
Que é que está adiantando
falar grosso?
Que laço, que fita, que farsa
que nó é esse amarrado
no pescoço?
Moço, que palhaçada, que festa
é essa? Que luz
se nos taparam o sol?
Que é que resta, que é que presta
como é que se pode nadar
no meio de tanto anzol?

E quando a corrida começa
todo mundo disparado
pisando em quem tropeça

Moço, que incongruência
um sorriso numa hora dessa...

Por Bruna Lombardi

 alguém pode me dizer

se estava prevista na palma da minha mão
esta paixão inesperada
se estava já escrita e demarcada
na linha da minha vida
se fazia já parte da estrada
e tinha que ser vivida

ou foi um desgoverno repentino
que surpreendeu os deuses, todos
os que desenham o nosso destino
ou foi um desatino, uma loucura
uma imprevisível subversão
que só a patir de agora eu trago marcada
na palma da minha mão

Por Bruna Lombardi

 Eu não sabia o que fazer, e abri a blusa.

Mais tarde eu ia dizer: foi sem pensar.
Ele me achou desnorteada, confusa,
Como acharia qualquer mulher que abre a blusa
E faz tudo que eu fiz só pra agradar.

Minha cabeça não era mesmo muito certa.
Mulher esperta eu nunca fui, mas deveria
Saber me colocar no meu lugar.
Não adiantava nada, eu era assim desatinada,
O tipo de mulher que faz as coisas sem pensar...

Você agora, me ouvindo contar essas histórias,
Talvez me ache também um pouco confusa.
E eu, que faço tudo pra agradar,
Já sem saber o que fazer, abro minha blusa,
Como faria qualquer mulher confusa em meu lugar!

Por Bruna Lombardi

 Cobrí aquele homem de uma tesão incontrolável

depois me mandei, mudei de hotel
leviana como sempre
rasguei sem ler as cartas, eu não me importo
com o sofrimento de ninguém

Dias atrás passou por mim, fiz que não vi
uma preguiça de explicar a vida
difícil resumir.

Fui impulsiva e me afastei pra sempre
de sua cama.
- Temos nossas diferenças - eu lhe disse uma manhã.

Difícil se acostumar a conviver
com alguém que usa pijama
e fica olhando pra gente
com cara de galã.

VULNUS ( Raimundo Correia )

 Com bons olhos, quem ama, em torno tudo vê!

Folga, estremece, ri, sonha, respira e crê;
A crença doira e azula o círculo que o cinge;
Da volúpia do bem o grau supremo atinge!

Eu também atingi esse supremo grau:
Também fui bom e amei, e hoje odeio e sou mau!
E as culpadas sois vós, visões encantadoras,
Virgínias desleais, desleais Eleonoras!

Minha alma juvenil, ígnea, meridional,
Num longo sorvo hauriu o pérfido e letal
Filtro do vosso escuro e perigoso encanto!

A vossos pés rasguei tantos castelos! Tanto
Sonho se esperdiçou! Tanta luz se perdeu!
Amei: nem uma só de vós me compreendeu!

SEM REMÉDIO ( Florbela Espanca ) in Livro de Mágoas, 1919

 Aqueles que me têm muito amor

Não sabem o que sinto e o que sou.
Não sabem que passou, um dia, a Dor,
À minha porta e, nesse dia, entrou.

E é desde então que eu sinto este pavor;
Este frio que anda em mim, e que gelou
O que de bom me deu Nosso Senhor!
Se eu nem sei por onde ando e onde vou!

Sinto os passos da Dor, essa cadência
Que é já tortura infinda, que é demência!
Que é já vontade doida de gritar!

E é sempre a mesma mágoa, o mesmo tédio,
A mesma angústia funda, sem remédio,
Andando atrás de mim, sem me largar!

VULCÕES ( Florbela Espanca ) in Trocando Olhares, 1985

 Tudo é frio e gelado. O gume dum punhal

Não tem a lividez sinistra da montanha
Quando a noite a inunda dum manto sem igual
De neve branca e fria onde o luar se banha

No entanto que fogo, que lavas, a montanha
Oculta no seu seio de lividez fatal
Tudo é quente lá dentro e que paixão tamanha
A fria neve envolve em seu vestido ideal!

No gelo da indiferença ocultam-se as paixões
Como no gelo frio do cume da montanha
Se oculta a lava quente do seio dos vulcões.

Assim quando eu te falo alegre, friamente,
Sem um tremor de voz, mal sabes tu que estranha
Paixão, palpita e ruge em mim doida e fremente!

JANELAS ABERTAS ( Antonio Carlos Jobim & Vinícius de Moraes )

 Sim

Eu poderia fugir, meu amor
Eu poderia partir
Sem dizer pra onde vou
Nem se devo voltar

Sim
Eu poderia morrer de dor
Eu poderia morrer
E me serenizar

Ah
Eu poderia ficar sempre assim
Como uma casa sombria
Uma casa vazia
Sem luz nem calor

Mas
Quero as janelas abrir
Para que o sol possa vir iluminar nosso amor

BALADA DO LADO SEM LUZ ( Gilberto Gil )

 O mundo da sombra, caverna escondida

Onde a luz da vida foi quase apagada
O mundo da sombra, região do escuro
Do coração duro, da alma abalada, abalada

Hoje eu canto a balada do lado sem luz
Subterrâneos gelados do eterno esperar
Pelo amor, pelo pão, pela libertação
Pela paz, pelo ar, pelo mar
Navegar, descobrir outro dia, outro sol

Hoje eu canto a balada do lado sem luz
A quem não foi permitido viver feliz e cantar como eu
Ouça aquele que vive do lado sem luz
O meu canto é a confirmação da promessa que diz
Que haverá esperança enquanto houver um canto mais feliz

Como eu gosto de cantar
Como eu prefiro cantar
Como eu costumo cantar
Como eu gosto de cantar

Quando não tão a balada, a balada, a balada
Do lado sem luz