"O único jeito de suportar a existência é mergulhar na literatura como numa orgia perpétua". ( Gustave Flaubert )
25/12/2016
SILÊNCIO ( Octavio Paz) in "Liberdade Sob Palavra" - Tradução de Luis Pignatelli
Assim como do fundo da música
brota uma nota
que enquanto vibra cresce e se adelgaça
até que noutra música emudece,
brota do fundo do silêncio
outro silêncio, aguda torre, espada,
e sobe e cresce e nos suspende
e enquanto sobe caem
recordações, esperanças,
as pequenas mentiras e as grandes,
e queremos gritar e na garganta
o grito se desvanece:
desembocamos no silêncio
onde os silêncios emudecem.
brota uma nota
que enquanto vibra cresce e se adelgaça
até que noutra música emudece,
brota do fundo do silêncio
outro silêncio, aguda torre, espada,
e sobe e cresce e nos suspende
e enquanto sobe caem
recordações, esperanças,
as pequenas mentiras e as grandes,
e queremos gritar e na garganta
o grito se desvanece:
desembocamos no silêncio
onde os silêncios emudecem.
TEUS OLHOS (Octavio Paz) in "Liberdade Sob Palavra" - Tradução: Luis Pignatelli
Teus olhos são a pátria do relâmpago e da lágrima,
silêncio que fala,
tempestades sem vento, mar sem ondas,
pássaros presos, douradas feras adormecidas,
topázios ímpios como a verdade,
outono numa clareira de bosque onde a luz canta no ombro
duma árvore e são pássaros todas as folhas,
praia que a manhã encontra constelada de olhos,
cesta de frutos de fogo,
mentira que alimenta,
espelhos deste mundo, portas do além,
pulsação tranquila do mar ao meio-dia,
universo que estremece,
paisagem solitária.
silêncio que fala,
tempestades sem vento, mar sem ondas,
pássaros presos, douradas feras adormecidas,
topázios ímpios como a verdade,
outono numa clareira de bosque onde a luz canta no ombro
duma árvore e são pássaros todas as folhas,
praia que a manhã encontra constelada de olhos,
cesta de frutos de fogo,
mentira que alimenta,
espelhos deste mundo, portas do além,
pulsação tranquila do mar ao meio-dia,
universo que estremece,
paisagem solitária.
23/12/2016
NÃO QUERO SER O ÚLTIMO... ( Carlos Drummond de Andrade )
Não quero ser o último a comer-te.
Se em tempo não ousei, agora é tarde.
Nem sopra a flama antiga nem beber-te
aplacaria sede que não arde
em minha boca seca de querer-te,
de desejar-te tanto e sem alarde,
fome que não sofria padecer-te
assim pasto de tantos, e eu covarde
a esperar que limpasses toda a gala
que por teu corpo e alma ainda resvala,
e chegasses, intata, renascida,
para travar comigo a luta extrema
que fizesse de toda a nossa vida
A MULHER DE CADA PORTO ( Edu Lobo & Chico Buarque de Holanda )
Quem me dera ficar meu amor, de uma vez
Mas escuta o que dizem as ondas do mar
Se eu me deixo amarrar por um mês
Na amada de um porto
Noutro porto outra amada é capaz
De outro amor amarrar, ah
Minha vida, querida, não é nenhum mar de rosas
Chora não, vou voltar
Quem me dera amarrar meu amor quase um mês
Mas escuta o que dizem as pedras do cais
Se eu deixasse juntar de uma vez meus amores num porto
Transbordava a baía com todas as forças navais
Minha vida, querido, não é nenhum mar de rosas
Volta não, segue em paz
Minha vida querido (querida) não é nenhum mar de rosas
Chora não
Segue em paz
Mas escuta o que dizem as ondas do mar
Se eu me deixo amarrar por um mês
Na amada de um porto
Noutro porto outra amada é capaz
De outro amor amarrar, ah
Minha vida, querida, não é nenhum mar de rosas
Chora não, vou voltar
Quem me dera amarrar meu amor quase um mês
Mas escuta o que dizem as pedras do cais
Se eu deixasse juntar de uma vez meus amores num porto
Transbordava a baía com todas as forças navais
Minha vida, querido, não é nenhum mar de rosas
Volta não, segue em paz
Minha vida querido (querida) não é nenhum mar de rosas
Chora não
Segue em paz
AQUELA MULHER ( Chico Buarque de Holanda )
Se você quer mesmo saber
Por que que ela ficou comigo
Eu digo que não sei
Se ela ainda tem seu endereço
Ou se lembra de você
Confesso que não perguntei
As nossas noites são
Feito oração na catedral
Não cuidamos do mundo
Um segundo sequer
Que noites de alucinação
Passo dentro daquela mulher
Com outros homens, ela só me diz
Que sempre se exibiu
E até fingiu sentir prazer
Mas nunca soube, antes de mim
Que o amor vai longe assim
Não foi você quem quis saber?
MEU NAMORADO ( Edu Lobo & Chico Buarque de Holanda )
Ele vai me possuindo
Não me possuindo
Num canto qualquer
É como as águas fluindo
Fluindo até o fim
É bem assim que ele me quer
Meu namorado
Meu namorado
Minha morada
É onde for morar você.
Ele vai me iluminando
Não me iluminando
Um atalho sequer
Sei que ele vai me guiando
Guiando de mansinho
Pro caminho que eu quiser
Meu namorado
Meu namorado
Minha morada é onde for morar você.
Vejo meu bem com seus olhos
E é com meus olhos
Que o meu bem me vê.
LARANJA
(Maria Gadú )
Ô menina, parece índia Yanomami seu cabelo preto breu
Simula um toque, que desabroche
Esse teu casto mastigado pelo meu
Se quer tamanho vou despir a alma
E afogar a calma salivando um beijo teu
Siga a seta e diga que sou seu
Venha sem chão me ensina a solidão de ser só dois
Depois te levo pra casa
RAPTE-ME, CAMALEOA
( Caetano Veloso )
Rapte-me camaleoa
Adapte-me a uma cama boa
Capte-me uma mensagem à toa
De um quasar pulsando lôa
Interestelar canoa.
Leitos perfeitos
Seus peitos direitos
Me olham assim
Fino menino me inclino
Pro lado do sim.
Rapte-me
Adapte-me
Capte-me
It's up to me
Coração
Ser querer ser
Merecer ser
Um camaleão.
Rapte-me camaleoa
Adapte-me ao seu
Ne me quitte pas.
21/12/2016
FLORES DESPEDAÇADAS
( Denise Bomfim )
Pétalas de seda,
um toque de suavidade,
seja qual for a idade,
a mulher traz harmonia,
seja para a noite ou para o dia.
Algumas são imprevisíveis,
outras são tão legíveis
através de um só olhar,
mas outras guardam mistérios,
meros, secretos ou mais sérios.
Pois a cada piscar do olhar,
nessa terra ou além-mar,
eis que uma flor é despedaçada,
nesse exato instante,
sem defesa alguma
pelo seu amante.
Flores despedaçadas no chão,
lágrimas em vão
porque em quem confiam tanto
trazem somente o pranto.
Gritos, lágrimas, mágoas ecoam.
É preciso que alguém as socorram!
Denuncie! Não seja conivente,
À MUSA ESTUPRADA ( Dora Incontri )
(Versos Sáficos)
Na favela, ou presidenta,
No congresso, ou no lar.
Há uma ferida nojenta
Há uma mulher a sangrar!
A mulher torturada,
Depois impedida.
A mulher estuprada,
Depois esquecida.
A mulher excluída,
Se não for recatada.
A mulher ofendida,
Se não for calada.
A mulher minha mãe,
A mulher minha irmã,
A mulher é culpada
Porque ela se expõe.
A mulher sufocada
De vestido na igreja,
De saia comprida,
Na burca escondida.
A mulher violentada,
Estendida na rua,
Porque é despudorada
Porque é puta e está nua!
É sempre a culpada,
É sempre a acusada,
É sempre a julgada,
É sempre a safada!
É sempre a piranha,
Que não se acanha
Nunca é culpa do senhor,
Do macho predador!
Do poder, exilada,
Se honesta, impedida.
Se esbofeteada,
Porque merecida.
É sempre a vadia,
É sempre a que traía!
Mas onde o traidor?
Onde o estuprador?
A mulher que trabalha,
Que sempre batalha,
Que raro se ausenta,
Dos seus que amamenta.
É a mulher que sustenta
Que tudo já aguenta
Por ela que a vida
Se faz e se alenta.
Ó terna guerreira,
Eterna na lida,
Não mais quero à beira,
Calada, escondida!
Não mais de olhos roxos
Não mais ensanguentada
Não mais enlameada
Não mais acuada.
Homens, sois filhos
Sois pais, sois irmãos
Por que não limpais
Enfim vossas mãos?
Por que não partilhais
Iguais condições?
Por que não espalhais
Honestos corações!
Mulheres, não rompamos
Nossas mãos unidas
E sempre as estendamos
Às irmãs mais feridas!
Homens e mulheres,
Um mundo mais igual
O respeito natural
A FORÇA QUE NUNCA SECA
( Chico César & Vanessa da Mata)
Já se pode ver ao longe
A senhora com a lata na cabeça
Equilibrando a lata vesga
Mais do que o corpo dita
Que faz o equilíbrio cego
A lata não mostra
O corpo que entorta
Pra lata ficar reta
Pra cada braço uma força
De força não geme uma nota
A lata só cerca, não leva
A água na estrada morta
E a força nunca seca
Pra vida que é tão pouca.
BÁRBARA ( Chico Buarque de Holanda & Ruy Guerra )
Bárbara, Bárbara
Nunca é tarde, nunca é demais
Onde estou, onde estás
Meu amor, vem me buscar
O meu destino é caminhar assim
Desesperada e nua
Sabendo que no fim da noite serei tua
Deixa eu te proteger do mal, dos medos e da chuva
Acumulando de prazeres teu leito de viúva
Bárbara, Bárbara
Nunca é tarde, nunca é demais
Onde estou, onde estás
Meu amor vem me buscar
Vamos ceder enfim à tentação
Das nossas bocas cruas
E mergulhar no poço escuro de nós duas
Vamos viver agonizando uma paixão vadia
Maravilhosa e transbordante, feito uma hemorragia
Bárbara, Bárbara
Nunca é tarde, nunca é demais
Onde estou, onde estás
Meu amor vem me buscar
Bárbara.
CORSÁRIO ( Aldir Blanc & João Bosco )
Meu coração tropical está coberto de neve, mas
Ferve em seu cofre gelado
E à voz vibra e a mão escreve mar
Bendita lâmina grave que fere a parede e traz
As febres loucas e breves
Que mancham o silêncio e o cais
Roserais, Nova Granada de Espanha
Por você, eu, teu corsário preso
Vou partir a geleira azul da solidão
E buscar a mão do mar
Me arrastar até o mar, procurar o mar
Mesmo que eu mande em garrafas
Mensagens por todo o mar
Meu coração tropical partirá esse gelo e irá
Com as garrafas de náufragos
E as rosas partindo o ar
Nova Granada de Espanha
MEMÓRIA DA PELE (João Bosco & Waly Salomão)
Eu já esqueci você
Tento crer
Nesses lábios que meus lábios sugam de prazer
Sugo sempre
Busco sempre
A sonhar em vão
Cor vermelha carne da sua boca, coração
Eu já esqueci você, tento crer
Seu nome, sua cara, seu jeito, seu odor
Sua casa, sua cama
Sua carne, seu suor
Eu pertenço a raça da pedra dura
Quando enfim juro que esqueci
Quem se lembra de você em mim
Em mim
Não sou eu sofro e sei
Não sou eu finjo que não sei, não sou eu
Sonho bocas que murmuram
Tranço em pernas que procuram enfim
Não sou eu sofro e sei
Quem se lembra de você em mim
Eu sei, eu sei
Bate é na memória da minha pele
Bate é no sangue que bombeia
Na minha veia
Bate é no champanhe que borbulhava
Na sua taça e que borbulha agora na taça da minha cabeça
Eu já esqueci você, tento crer
Nesses lábios que meus lábios sugam de prazer
Sugo sempre
Busco sempre a sonhar em vão
Cor vermelha, carne da sua boca, coração.
DESENHO DE GIZ ( João Bosco & Abel Silva )
Quem quer viver um amor
Mas não quer suas marcas, qualquer cicatriz
Ah, ilusão, o amor
Não é risco na areia, desenho de giz
Eu sei que vocês vão dizer
A questão é querer, desejar, decidir
Aí diz o meu coração
Que prazer tem bater se ela não vai ouvir
Aí minha boca me diz
Que prazer tem sorrir
Se ela não me sorrir também
Quem pode querer ser feliz
Se não for por um bem de amor.
Eu sei que vocês vão dizer
A questão é querer, desejar, decidir
Aí diz o meu coração
Que prazer tem bater se ela não vai ouvir
Cantar, mas me digam pra quê
E o que vou sonhar
Só querendo escapar à dor
Quem pode querer ser feliz
Se não for por amor
Quem pode querer ser feliz
Se não for por amor
Quem pode querer ser feliz.
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