14/08/2017

AVASSALADORA
Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior)
Avassaladora 
senta no seu colo
lambe o pescoço
morde a orelha
enfia a língua
por entre seus dentes
tomando toda a sua boca
ela é louca 
muito louca e,
ele adora sua mão
apertando o que deseja
com calor e com carinho
ensinando o caminho 
da loucura
e acabando com 
seu medo de não poder
e o macho se solta
se larga, se acaba na 
mão da rainha 
com todo prazer.
e o macho desmonta
no grito de gozo
na mão da rainha
e desmaia
de tanto prazer.

CONFISSÃO (Maria Teresa Horta)


Abro-te as portas querendo
a tua luz
numa sede de ti que não se acalma.
Não me negues água
que mata a minha sede.
Desejo o teu incêndio
queimando a minha alma.
TU (Cesare Pavese)
Tens sangue, respiras.
És feita de carne 
de cabelos de olhares 
também tu. Terra e árvores, 
céu de março, luzes, 
vibram e imitam-te -
o teu riso e o teu andar 
são águas que estremecem - 
a ruga entre os olhos 
nuvens amassadas -
o teu corpo macio 
um torrão ao sol. 

Tens sangue, respiras. 
Vives sobre esta terra. 
Conheces-lhe os sabores 
as estações os despertares 
brincaste ao sol, 
falaste conosco. 
Água clara, botão
primaveril, terra, 
silêncio que germina,
tu brincaste menina
debaixo dum céu diferente, 
tens nos olhos o seu silêncio,
uma nuvem que brota
como mina profunda.
Agora ris e estremeces
sobre este silêncio.
Doce fruto que vives 
sob o céu claro,
que respiras e vives
esta nossa estação,
no teu silêncio secreto
está a tua força. Como
erva viva no ar
arrepias-te e ris-te
mas tu, tu és terra.
Raiz feroz.
A terra que espera.

11/08/2017

PASSEIO ( C. Almeida Stella )


Blusa em organza branca 
em transparência delicada
insinuando
mostrando tudo, mostrando nada.

Botõezinhos perolados semi-abertos 
delicados. 
guardam uma fronteira 
entre a imaginação e a realidade 
de caminhos inexplorados.

Tua mão se perde na transparência 
dessa diáfana blusinha.
Atravessa timidamente os limites 
que os botõezinhos entreabertos deixam ver 
e que o teu desejo adivinha.

Tua mão é macia
ela vai brincando, 
acarinhando
invadindo a minha geografia
explorando vales, montes, planicies,
detendo-se um pouco aqui
um pouco ali, 
desvendando caminhos nunca trilhados
criando atalhos.

Minha pele sente o teu toque, 
a tua sedução
e no calor da tua mão 
ela vibra
pede mais. 

Em seu passeio sensual 
tua mão desperta em mim 
milhares de sensações 
e aquela coisa tão louca
aquele grande desejo
de ter. 

não somente a tua mão
assim 
a me percorrer 
mas também a tua boca! 
A CONCHA (Ivan  Miziara)
Da concha
rubra
retiro
fluida
alva
tuas líquidas
sementes
que trago
entredentes.

Na concha
rubra
mergulho
com a ponta
do arpão
que perturba
e escuta
teu íntimo
rumor.

Na concha
rubra
busco
a pérola
úmida
ardente
que me faz
ser
quem sou.

MÃOS, TOQUES, DESEJOS
(Líria Bordinhão Dahlke)
Aquelas mãos em toques eternos
em alguns minutos apenas horas se tornaram
Eternos movimentos das pontas dos dedos
Procuravam retorno desejado presente na pele.

Cúmplices, entrelaçados
Numa imagem sem nome, sem entendimento
Sem cobranças
Somente sentimento e desejo.

Adoradora química
Dos lábios fortes em toques essenciais
Que nem o melhor de todos que já tive
Poderia imaginar.

ALCOÓLICAS - III ( Hilda Hilst )


Alturas, tiras, subo-as, recorto-as
E pairamos as duas, eu e a vida
No carmim da borrasca. Embriagadas
Mergulhamos nítidas num borraçal que coaxa.
Que estilosa galhofa. Que desempenados
Serafins. Nós duas nos vapores
Lobotômicas líricas, e a gaivagem
se transforma em galarim, e é translúcida
A lama e é extremoso o nada.
Descasco o dementado cotidiano
E seu rito pastoso de parábolas.
Pacientes, canonisas, muito bem-educadas
Aguardamos o tépido poente, o copo, a casa.
Ah, o todo se dignifica quando a vida é líquida.


ÁRIAS PEQUENAS PARA BANDOLIM ( Hilda Hilst )

Antes que o mundo acabe, Túlio,
Deita-te e prova
Esse milagre do gosto
Que se fez na minha boca
Enquanto o mundo grita
Belicoso. E ao meu lado
Te fazes árabe, me faço israelita
E nos cobrimos de beijos
E de flores
Antes que o mundo se acabe
Antes que acabe em nós
Nosso desejo. 

ALCOÓLICAS - V ( Hilda Hilst )

Te amo, vida, líquida esteira onde me deito
Romã baba alcaçuz, teu trançado rosado
Salpicado de negro, de doçuras e iras.
Te amo, líquida, descendo escorrida
Pela víscera, e assim esquecendo
Fomes
País
O riso solto
A dentadura etérea
Bola
Miséria.
Bebendo, vida, invento casa, comida
E um mais que se agiganta, um mais
Conquistando um fulcro potente na garganta
Um látego, uma chama, um canto. Amo-me.
Embriagada. Interdita. Ama-me. Sou menos
Quando não sou líquida.
ALCOÓLICAS-IV (Hilda Hilst)
E bebendo, vida, recusamos o sólido
O nodoso, a friez-armadilha
De algum rosto sóbrio, certa voz
Que se amplia, certo olhar que condena
O nosso olhar gasoso: então, bebendo?
E respondemos lassas lérias letícias
O lusco das lagartixas, o lustrino
Das quilhas, barcas, gaivotas, drenos
E afasta-se de nós o sólido de fechado cenho.
Rejubilam-se nossas coronárias. Rejubilo-me
Na noite navegada, e rio, rio, e remendo
Meu casaco rosso tecido de açucena.
Se dedutiva e líquida, a Vida é plena.
ALCOÓLICAS-II  (Hilda  Hilst)
Também são cruas e duras as palavras e as caras
Antes de nos sentarmos à mesa, tu e eu, vida
Diante do coruscante ouro da bebida. Aos poucos
Vão se fazendo remansos, lentilhas d'água, diamantes
Sobre os insultos do passado e do agora. Aos poucos
Somos duas senhoras, encharcadas de riso, rosadas
De um amora, um que entrevi no teu hálito, amigo
Quando me permitiste o paraíso. O sinistro das horas
Vai se fazendo tempo de conquista. Langor e sofrimento
Vão se fazendo olvido. Depois deitadas, a morte
É um rei que nos visita e nos cobre de mirra.
Sussurras: ah, a vida é líquida.

A VIDA É LÍQUIDA ( Hilda Hilst ) in Alcoólicas, 1990.

É crua a vida. Alça de tripa e metal.
Nela despenco: pedra mórula ferida.
É crua e dura a vida. Como um naco de víbora.
Como-a no livro da língua
Tinta, lavo-te os antebraços, Vida, lavo-me
No estreito-pouco
Do meu corpo, lavo as vigas dos ossos, minha vida
Tua unha púmblea, me casaco rosso
E perambulamos de coturno pela rua
Rubras, góticas, altas de corpo e copos.
A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos.
E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima
Olho d'água, bebida. A vida é líquida.

Também são cruas e duras as palavras e as caras
Antes de nos sentarmos à mesa, tu e eu, Vida
Diante do coruscante ouro da bebida. Aos poucos
Vão se fazendo remansos, lentilhas d'água, diamantes
Sobre os insultos do passado e do agora. Aos poucos
Somos duas senhoras, encharcadas de riso, rosadas
De um amora, um que entrevi no teu hálito, amigo
Quando me permitiste o paraíso. O sinistro das horas
Vai se fazendo olvido. Depois deitadas, a morte
É um rei que nos visita e nos cobre de mirra.
Sussuras: ah, a vida é líquida.

AO AMIGO (Hilda Hilst)

I
Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse
Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.
Te olhei. E há tanto tempo
Entendo que sou terra. Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta
Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento.

NO RASTRO DA LUA CHEIA (Almir Sater & Renato Teixeira)


No quintal lá de casa
Passava um pequeno rio
Que descia lá da serra
Ligeiro escorregadio
A agua era cristalina
Que dava pra ver o chão
Ia cortando a floresta
Na direção do sertão
Lembrança ainda me resta
Guardada no coração.

E tudo era azul celeste
Brasileiro cor de anil
Nem bem começava o ano
Já era final de abril
O vento pastoreando
Aquelas nuvens no céu.
Fazia o mundo girar
Veloz como um carrossel
E levantava a poeira
E me arrancava o chapéu

Ah o tempo faz, tempo desfaz
E vai além sempre.

A vida vem lá de longe
É como se fosse um rio
Pra rio pequeno canoa
Pros grandes rios navios
E bem lá no fim de tudo
Começo de outro lugar
Será como Deus quiser
Como o destino mandar
No rastro da lua cheia
Se chega em qualquer lugar!

08/08/2017

SOU-TE NINHO ( Fátima Guimarães )


No teu rosto
repousa a madrugada
de fatigados pássaros.

Poisas a cabeça
no meu peito
onde ainda há pouco
o vento cantava
e os meus seios eram eco
de teus incontidos desejos.
Sou-te ninho!

TRAGO MORANGOS NA BOCA (Alice Fergo)

Trago morangos na boca
E amoras no desejo
Penduradas à cintura
Noites – romãs, bago a beijo.
Sou cesta de fruta doce
Cheiro a terra a madrugar
Dispo debaixo das árvores
Nuvens que um pássaro me trouxe
Dos abismos de trovar.
Silvestre, mulher e frágua
Bebo das fontes a água,
Sedes minhas, a matar.

MAREAR (Fátima Guimarães & Joaquim Monteiro)


Respiro a tua pele nos meus dedos
Colho a tua saliva em meus lábios
Beijo o mar dos teus segredos.
E sou barco, timoneiro e passageiro
Aquele que voga no ondular das vagas
Que navega em tuas águas
E te sulca em espasmos de alegria.
Afogado em teu ventre dou à costa
Como náufrago boiando sobre teus seios
E ressuscito com minha boca sobre a tua
O meu peito arfando sobre o teu.
As minhas mãos em tua praia
E sou espuma do sal que te beija.
A alga macia na seda ondulante
Sabe agora o teu corpo a maresia
Os teus olhos brilham, mar azul
Espelham o voo rasante das gaivotas
Em dia de tempestade e calmaria.

FÊMEA - FÊNIX (Conceição Evaristo) in “Poemas da Recordação e Outros Movimentos”.BH: Nandyala, 2008.

(Para Léa Garcia )
Navego-me eu–mulher e não temo,
sei da falsa maciez das águas
e quando o receio
me busca, não temo o medo,
sei que posso me deslizar
nas pedras e me sair ilesa,
com o corpo marcado pelo olor
da lama.
Abraso-me eu-mulher e não temo,
sei do inebriante calor da queima
e quando o temor
me visita, não temo o receio,
sei que posso me lançar ao fogo
e da fogueira me sair inunda,
com o corpo ameigado pelo odor
da chama.
Deserto-me eu-mulher e não temo,
sei do cativante vazio da miragem,
e quando o pavor
em mim aloja, não temo o medo,
sei que posso me fundir ao só,
e em solo ressurgir inteira
com o corpo banhado pelo suor
da faina.
Vivifico-me eu-mulher e teimo,
na vital carícia de meu cio,
na cálida coragem de meu corpo,
no infindo laço da vida,
que jaz em mim
e renasce flor fecunda.
Vivifico-me eu-mulher.
Fêmea. Fênix. Eu fecundo.

A NOITE NÃO ADORMECE NOS OLHOS DAS MULHERES (Conceição Evaristo)in Cadernos Negros, vol. 19.

(Em memória de Beatriz Nascimento)
A noite não adormece
nos olhos das mulheres
a lua fêmea, semelhante nossa,
em vigília atenta vigia
a nossa memória.
A noite não adormece
nos olhos das mulheres
há mais olhos que sono
onde lágrimas suspensas
virgulam o lapso
de nossas molhadas lembranças.
A noite não adormece
nos olhos das mulheres
vaginas abertas
retêm e expulsam a vida
donde Ainás, Nzingas, Ngambeles
e outras meninas luas
afastam delas e de nós
os nossos cálices de lágrimas.
A noite não adormecerá
jamais nos olhos das fêmeas
pois do nosso sangue-mulher
de nosso líquido lembradiço
em cada gota que jorra
um fio invisível e tônico
pacientemente cose a rede.

Por Conceição Evaristo, “Poemas da Recordação e Outros Movimentos”. BH: Nandyala, 2008.

Do fogo que em mim arde
Sim, eu trago o fogo,
o outro,
não aquele que te apraz.
Ele queima sim,
é chama voraz
que derrete o bivo de teu pincel
incendiando até ás cinzas
O desejo-desenho que fazes de mim.
Sim, eu trago o fogo,
o outro,
aquele que me faz,
e que molda a dura pena
de minha escrita.
é este o fogo,
o meu, o que me arde
e cunha a minha face
na letra desenho
do auto-retrato meu.

N'ALGUM LUGAR ( E. E. Cummings )


N’algum lugar em que eu nunca estive,
Alegremente além de qualquer experiência, teus olhos têm o seu silêncio:
No teu gesto mais frágil há coisas que me encerram
Ou que eu não ouso tocar porque estão demasiado perto
Teu mais ligeiro olhar facilmente me descerra
Embora eu tenha me fechado como dedos, nalgum lugar
Me abres sempre pétala por pétala como a primavera abre
(tocando sutilmente, misteriosamente) a sua primeira rosa

Ou se quiseres me ver fechado, eu e
Minha vida nos fecharemos belamente, de repente,
Assim como o coração desta flor imagina
A neve cuidadosamente descendo em toda a parte;

Nada que eu possa perceber neste universo iguala
O poder de tua imensa fragilidade: cuja textura
Compele-me com a cor de seus continentes,
Restituindo a morte e o sempre cada vez que respira

(não sei dizer o que há em ti que fecha
E abre; só uma parte de mim compreende que a
Voz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas)
Ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas!
(Traduzido por Augusto de Campos)

EU GOSTO DO MEU CORPO (E. E. Cummings)
eu gosto do meu corpo quando está com o seu
corpo. É uma coisa tão nova e viva.
Melhores músculos, nervos mais.
eu gosto do seu corpo e do que ele faz,
eu gosto dos seus comos. de tatear as vértebras
 do seu corpo, a sua treme
-lisa-firmeza e que eu quero
mais e mais e mais
beijar, gosto de beijar isso e aquilo de você,
gosto de, lentamente golpeando o choque
do seu velo elétrico e o-que-quer-que freme
sobre a carne bipartida. E olhos migalhas
de amor grandes e acho que gosto de ver sob mim
você vibrar tão viva e nova assim.
(Tradução de Augusto de Campos)

LATEJA-ME NOS DEDOS(Fátima Guimarães)


Lateja-me nos dedos cada prega do teu corpo
Na pele nua a maciez da tua pele
No corpo inunda-me a quentura da tua seiva
A lua está linda, resplandecente
mas para quê a lua se nos lábios
persiste a ternura de uma gota de orvalho
Deliciada fecho os olhos.
Deixo a minha mão escorregar
pelo teu corpo macio
Adormeço.

VOZES-MULHERES (Conceição Evaristo) in “Poemas da Recordação e Outros Movimentos”.BH:Nandyala,2008.


A voz de minha bisavó
ecoou criança
nos porões do navio.
ecoou lamentos
de uma infância perdida.
A voz de minha avó
ecoou obediência
aos brancos-donos de tudo.
A voz de minha mãe
ecoou baixinho revolta
no fundo das cozinhas alheias
debaixo das trouxas
roupagens sujas dos brancos
pelo caminho empoeirado
rumo à favela.
A minha voz ainda
ecoa versos perplexos
com rimas de sangue
e
fome.
A voz de minha filha
recolhe todas as nossas vozes
recolhe em si
as vozes mudas caladas
engasgadas nas gargantas.
A voz de minha filha
recolhe em si
a fala e o ato.
O ontem – o hoje – o agora.
Na voz de minha filha
se fará ouvir a ressonância
o eco da vida-liberdade.