06/07/2023

SE… ( Ana Pereira Do Nascimento ) in Poesia em Moçambique

 Se não podes passar sem mim um dia

Se o teu viver assim só é tristonho
Se tu sozinho não tens alegria
Se tudo para ti é enfadonho.

Se quando olhas para todos a mim vês
Se o meu olhar te aquece e ilumina
Se com o meu desprezo infeliz és,
Se um sorriso, um olhar meu te anima.

Se sonhas comigo estando acordado
Se mesmo a dormir tu tens-me a teu lado
Se mais que amor vulgar por mim já sentes

Se não te interessa a vida sem te amar
Se assim a morte te pode levar.
Então, sim; o mundo é nosso – não mentes!


É NA ALMA ( Ana Bailune ) in 15 Poemas volume I

 É só na alma,

Na branca paz da alma,
Na calma,
Ou na calda quente,
Fervente da alma,
Que desabrocham,
Ascendem,
Revelam-se.

É só no sangue,
No vermelho mais rubro,
No escuro,
Na luz viva
E ativa
Da alma,
Que eu me desaguo.

Não é o número
Dos meus passos,
Ou de minhas sílabas
Que determinam
O que me determina!
É só a alma,
Aquela parte de mim
Que está entre o ir
E o ficar,
O dizer

E o calar,
O morrer
E o viver,
O acordar
E o sonhar.

Sempre no meio,
Um pé no chão,
Outro na lua,
Um pensamento cúbico,
Outro pensamento súbito,
Uma nesga de treva
E outra nesga de luz.
E tudo vem da alma,
Esse lago que não seca,
Que não seca jamais.
É de lá que eles vem:
Os meus poemas,
E de nenhum outro lugar
Que tu ou qualquer
um queiram nomear!

HOMEM TRANSPORTANDO O CADÁVER DE UMA MULHER! ( Almada Negreiros)

 Quis-te tanto que gostei de mim!

Tu eras a que não serás sem mim!
Vivias de eu viver em ti
e mataste a vida que te dei
por não seres como eu te queria.
Eu vivia em ti o que em ti eu via.
E aquela que não será sem mim
tu viste-a como eu
e talvez para ti também
a única mulher que eu vi!

01/07/2023

CANÇÃO À AUSENTE ( Pedro Homem de Mello )

Para te amar ensaiei os meus lábios.
Deixei de pronunciar palavras duras.
Para te amar ensaiei os meus lábios!

Para tocar-te ensaiei os meus dedos.
Banhei-os na água límpida das fontes.
Para tocar-te ensaiei os meus dedos!

Para te ouvir ensaiei meus ouvidos!
Pus-me a escutar as vozes do silêncio.
Para te ouvir ensaiei meus ouvidos!

E a vida foi passando, foi passando...
E, à força de esperar a tua vinda,
De cada braço fiz mudo cipreste.

A vida foi passando, foi passando...
E nunca mais vieste!

17/06/2023

A NOITE UM BLOCO ( Alice Sant 'Anna )

 de madeira pintado de preto

fecha os olhos e tenta se aproximar
perceber seu tamanho, profundidade
se tem cheiro se é maciço
sem porta para entrar ou sair
o modo como a luz bate
suave, meia-luz, a mínima
necessária para se ver o bloco
se não fosse por ela o bloco
mal existiria, seria tudo um mesmo escuro
sem contorno entre montanha
seus pés e meio-fio, o bloco
cabe no seu quarto em cima da cama
ainda sobra algum espaço nas laterais
uma nesga de lençol, mas não
o suficiente para caber
ela também

RECORDAR É PRECISO(Conceição Evaristo), “Poemas da Recordação e Outros Movimentos”.BH: Nandyala, 2008.

 O mar vagueia onduloso sob os meus pensamentos

A memória bravia lança o leme:
Recordar é preciso.
O movimento vaivém nas águas-lembranças
dos meus marejados olhos transborda-me a vida,
salgando-me o rosto e o gosto.
Sou eternamente náufraga,
mas os fundos oceanos não me amedrontam
e nem me imobilizam.
Uma paixão profunda é a boia que me emerge.
Sei que o mistério subsiste além das águas.

HABITAT ( Carina Carvalho )

 teve uma vez que minha miopia

feriu a coragem com um golpe seco
na lombar.

desde então, para mim qualquer teia
é imensa ameaça, como esta viagem
de dois dias e oito pernas longas
que se movem uma por vez.

tomando o meu corpo.
sumindo comigo para dizer
em particular: não é aqui. teu lugar não é.

te procuro com o coração miúdo
e os olhos desistentes, fechados.
pedindo para não apontar mais
os bichos que constroem suas casas
no canto da madeira,
na casa dos outros.

pedindo, por minha vez,
– estrala minhas costas.

ABRIL ( Gianne Lorena )

 no vinil

pelo universo, Jhon, diz:
– nobody ever loved me like she does…

lembrei
da madrugada de Abril
de quando Costinha tocava Strokes
de quando avisei
que não haveria fim

fitou,
e, como se não existisse o tempo
seguiu, me beijando
e, em quatro horas
eu me vi
amando

à face de me perder
e sem querer, querendo
me perdi no erro
e nele, persisti

gritei pelas ruas
chorei, com o peito ardendo
e esse tal erro
foi o acerto
que mais me fez

sorrir


PAPEL DE SEDA ( Ana Martins Marques )

 Houve um tempo em que se usava

nos livros
papel de seda para separar
as palavras e as imagens
receavam talvez que as palavras
pudessem ser tomadas pelos desenhos
que eram
receavam talvez que os desenhos
pudessem ser entendidos como as palavras
que eram
receavam a comunhão universal
dos traços
receavam que as palavras e as imagens
não fossem vistas como rivais
que são
mas como iguais
que são
receavam o atrito entre texto
e ilustração
receavam que lêssemos tudo
os sulcos no papel e as pregas das saias
das mocinhas retratadas
as linhas da paisagem e o contorno das casas
eu receava rasgar o papel de seda
erótico como roupa íntima

SENHA E CONTRASSENHA ( Ana Martins Marques ) in O Livro das Semelhanças

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AMOR NÃO FEITO ( Ana Martins Marques ) in O Livro das Semelhanças

 No centro do que me lembro ficou

o amor não feito:
o que não foi rói o que foi
como a maresia

casa onde não morei país invisitado
praia inacessível avistada do alto
o que fazer do desejo
que não se gastou?

alegria não sentida amor não feito
prazer adiado sine die
palavra recolhida como um cão
vadio gesto interrompido beijo a seco

como parece banal agora
o que o barrou
compromissos decência covardia
não foi nada disso que ficou

mas precioso aceso
e perfeito
restou o desejo do amor
não feito

OLHAR DE AMOR ( Regina Lyra )

 Aquele olhar matreiro e ofegante

Trazia por trás das dunas o regaço.
Com o sorriso e o sonhar dos amantes,
Acolheram-se efusivos num abraço.

Sem precisar da palavra falada
O olhar, emudecido de carinho,
Vinha, feito passarinho,
Beijar o olhar lânguido, amado.

Naquele entardecer mágico,
Nada se via de mais grandioso
Do que aquele encontro vestal.

Todavia, o olhar de desejo e assédio
Suspirou nos sentidos desnudados:
E se amaram em uma noite profana.

ADIAMENTO ( David Mourão - Ferreira )

 Olhar-te bem nos olhos: que voragem!

Ouvir-te a voz na alma: que estridência!
É tão difícil termos a coragem
de nos vermos enfim sem complacência.

É tão difícil regressar da viagem,
e descobrir no rastro tanta ausência…
Mas os meus olhos, súbito, reagem.
À tua voz chega o silêncio e vence-a.

Nos pulsos vibra ainda o mesmo rio
que no delta dos dedos se extasia
e moroso reflui ao coração.

O gesto de acusar-te? Suspendi-o.
Mas foi só aguardando melhor dia
em que tenha lugar a execução.

18/05/2023

AS ROSAS ( Sophia de Mello Breyner Andresen )

 Quando à noite desfolho e trinco as rosas

É como se prendesse entre os meus dentes
Todo o luar das noites tranparentes,
Todo o fulgor das tardes luminosas,
O vento bailador das primaveras,
A doçura amarga dos poentes,
E a exaltação de todas as esperas.

07/05/2023

VISÃO DE CLARICE LISPECTOR (Carlos Drummond De Andrade)

 Clarice,

veio de um mistério, partiu para outro.

Ficamos sem saber a essência do mistério.
Ou o mistério não era essencial,
era Clarice viajando nele.

Era Clarice bulindo no fundo mais fundo,
onde a palavra parece encontrar
sua razão de ser, e retratar o homem.

O que Clarice disse, o que Clarice
viveu por nós em forma de história
em forma de sonho de história
em forma de sonho de sonho de história
(no meio havia uma barata
ou um anjo?)
não sabemos repetir nem inventar.
São coisas, são jóias particulares de Clarice
que usamos de empréstimo, ela dona de tudo.

Clarice não foi um lugar-comum,
carteira de identidade, retrato.
De Chirico a pintou? Pois sim.

O mais puro retrato de Clarice
só se pode encontrá-lo atrás da nuvem
que o avião cortou, não se percebe mais.

De Clarice guardamos gestos. Gestos,
tentativas de Clarice sair de Clarice
para ser igual a nós todos
em cortesia, cuidados, providências.
Clarice não saiu, mesmo sorrindo.
Dentro dela
o que havia de salões, escadarias,
tetos fosforescentes, longas estepes,
zimbórios, pontes do Recife em bruma envoltas,
formava um país, o país onde Clarice
vivia, só e ardente, construindo fábulas.

Não podíamos reter Clarice em nosso chão
salpicado de compromissos. Os papéis,
os cumprimentos falavam em agora,
edições, possíveis coquetéis
à beira do abismo.
Levitando acima do abismo Clarice riscava
um sulco rubro e cinza no ar e fascinava.

Fascinava-nos, apenas.
Deixamos para compreendê-la mais tarde.
Mais tarde, um dia... saberemos amar Clarice.

30/04/2023

ABSOLVER (Adilia Lopes )

 "Mas Maria guardava todas essas coisas,conferindo-as em seu coração."(Lc 2,19)

Chama-se sexo
a uma parte do corpo
como se todo o corpo
as mãos os pés a cabeça
não fossem também sexo
o pênis a vagina
os testículos as maminhas
são frágeis
vulneráveis
estão expostos
à crueldade
são flores
ou musgos
posso estar nua e ser casta
não tenho nada de freira viciosa
e devassa
com toda a minha atenção
toco-te
dou-te os meus sentidos
os meus sentimentos
sinto muito
ter estado muito contigo
é uma coisa boa
que melhora o mundo
que o embeleza
agradeço ter-te encontrado
e ter feito o que fiz contigo
com a cabeça nas mãos
e os olhos cheios de lágrimas
sonho contigo comigo

IMÓVEL ( Miriam Reyes ) Tradução: Nelson Santander

 abandonado a teu peso de homem imóvel

olhas-me com antiquíssimos ressentimentos.

Ouve-me bem:
sou inocente de teu passado
não sou a tua puta mãe
nem a tua enferma mãe
nem a tua louca mãe
embora seja uma puta louca.
Não mereço receber agressões alheias,
atrasadas e caducas.
Não projetes em mim os fantasmas de tua infância,
tenho forma, cor e dimensões próprias.

Tampouco venhas para mim
chorando como um bebê
quando não o és
este colo que te acolhe também te deseja.

Não exageres,
a mim também me expulsaram do paraíso
antes do tempo
e sem notificação prévia,
a quem é que não?

Vamos, homem,
sai dessa!

NUDEZ ( Ellen Bass ) Tradução: Nelson Santander

A primeira vez que vi o pênis do meu namorado

pensei que o pau estaria coberto de pelos,

como o monte gramado do meu próprio sexo.
Minha avó arrancou as últimas penas

do frango castrado, de sua pele escorregadia, folículos,
pequenas protuberâncias em forma de crateras. Certa vez, torci

o pescoço de um passarinho que havia caído do ninho,
um fragmento de casca colado em sua penugem. A nudez

do recém-nascido, manchado de sangue e vérnix,
esparramado como um sapo na barriga afundada da mãe,

o rijo e retorcido cordão pulsando. A nudez
do corpo de minha mãe esfriando, o sangue recuando

de seus leitos ungueais, dedos tornando-se marfim. Após a morte,
a mandíbula se abre, expondo a língua nua, ressecada

e espinhosa como o caule de um cacto. Quando a Torá
é levantada da arca, é uma honra desnudar

sua coroa e couraça prateadas, capa e manto de veludo.
Após a leitura do dia, é uma honra trajar

a Palavra nua novamente. Laura raspou a cabeça
para não ter que ver seus cabelos caírem presos

aos dentes do pente, uma poça no travesseiro.
Manet pintou O Piquenique no Bosque1, cerejas

e peras amarelas caindo da cesta.
Os dois homens estão vestidos, completos com gravatas

e paletós, a mulher está nua. Nos anos setenta,
Marabel Morgan aconselhou as esposas

a receberem seus maridos na porta envoltas
em plástico filme. Conheci uma mulher que gostava

de limpar a casa nua. Se alguém tocasse a campainha,
mesmo que fossem Testemunhas de Jeová em camisas brancas

e sapatos pretos com cadarços, ela atendia assim.
Era a casa dela, ela disse. Meu marido era

o terapeuta do marido dela. Quando ele
se suicidou, meu marido desistiu do consultório.

Isso foi há muito tempo, meu ex-marido também está morto.
Quando éramos casados, ele queria que eu dormisse nua.

Expliquei-lhe que meus ombros ficavam frios. Ele então pegou
minha camisola de flanela e a recortou abaixo das axilas.

Nós rimos tanto que você poderia pensar
que ficaríamos juntos. Certa vez, cruzei com uma mulher

caminhando nas colinas de Santa Cruz, nua,
exceto pelos tênis brancos. Quando meus filhos

eram pequenos, eles adoravam ficar nus. Meu filho
se levantava em sua cadeira na mesa de jantar, seu pequeno pênis

posicionado acima do prato. Eu estava em um hotel no Missouri
zapeando os canais na TV. Metade dos programas

era de mulheres exibindo seus seios, metendo-se
à frente das câmeras ou de quatro,

sendo fodidas por trás. A outra metade era de
fundamentalistas protestando contra elas. Adoro

deitar-me ao lado do corpo nu de Janet. Seu calor
é a coisa mais próxima do sol que eu conheço.

Anos atrás, nós rolamos nuas pelas
dunas do Vale da Morte. Os cones

perfeitos de seus seios, polvilhados com grãos de areia.
Quando a filha de Eleanor não conseguiu se recuperar,

seu coração foi arrancado do peito, hospedado
nu no ar, e implantado em um empresário

chileno. Anos mais tarde, quando eles se conheceram
e se abraçaram, ela sentiu o coração da filha

batendo contra seu peito. A nudez das casas
quando os moradores se mudam, sombras quadradas

nos espaços que os quadros ocupavam, moedas empoeiradas,
clipes de papel, carcaças de insetos. Sacramento,

terra vermelho-castanha sem brotos de arroz ou nogueiras,
esperando nua pela próxima safra de shopping centers.

Fome nua. Medo nu. Quando você olha para um rosto
e percebe a necessidade, nua como um fruto despelado. A nua oração

em que você não acredita, mas ora mesmo assim
porque não pode evita-lo, nua, estúpida

em sua esperança. Sua filha está dançando nua em uma gaiola,
as coxas nuas que outrora foram empurradas para fora entre

suas coxas nuas agora envolvem um poste de prata
enquanto os homens seguram suas vontades nuas em suas palmas

nuas para fugir de suas dores nuas. Contudo, você não consegue parar
de pensar nos dedos dos pés nus dela da primeira vez que a

levou para a praia.

ODE LOUCA ( Filipa Leal )

 Todos os homens têm o seu rio.

Lamentam-no sentados no interior das casas
de interior e como o poeta que escreve a lápis
apagam a memória com a sua água.
Os rios abandonam os homens que envelhecem
longe da infância, e eles choram
o reflexo absurdo na distância.
Por vezes, enlouquecem os rios, os homens,
os poetas nas palavras repetidas
que buscam uma ode que lhes diga
a textura. Todos procuram o mesmo:
um lugar de água mais limpa
ou um espelho que não lhes negue
a hipótese do reflexo.
O rio sofre mais do que o homem,
o poeta,
porque dele se espera que nos devolva
a imagem de tudo, menos de si próprio.
Todos os rios têm o seu narciso,
mas poucos, muito poucos,
o simples reflexo das suas águas.

A SOLIDÃO ( Sophia de Mello Breyner Andresen )

 A noite abre os seus ângulos de lua

E em todas as paredes te procuro

A noite ergue as suas esquinas azuis
E em todas as esquinas te procuro

A noite abre as suas praças solitárias
E em todas as solidões eu te procuro

Ao longo do rio a noite acende as suas luzes
Roxas verdes azuis.

Eu te procuro.


CANÇÃO DE MATAR ( Sophia de Mello Breyner Andresen )

Do dia nada sei

O teu amor em mim
Está como o gume
De uma faca nua
Ele me atravessa
E atravessa os dias
Ele me divide

Tudo o que em mim vive
Traz dentro uma faca
O teu amor em mim
Que por dentro me corta

Com uma faca limpa
Me libertarei
Do teu sangue que põe
Na minha alma nódoas

O teu amor em mim
De tudo me separa
No gume de uma faca
O meu viver se corta

Do dia nada sei
E a própria noite azul
Me fecha a sua porta

Do dia nada sei
Com uma faca limpa

Me libertarei.