15/02/2025

HINO ( Bruna Lombardi )

 Tenho lutado todos os dias pra ser uma mulher

no entanto onde nasci os homens têm sempre razão
e eu que não me interesso pela razão mas por outros sentimentos
teço silenciosamente à porta da minha casa
junto às outras mulheres da minha rua
a trama dos nossos instintos
e minha rua passa por outras cidades
atravessa países
não há fronteiras
tecemos todas nós o mesmo fio
matéria viva da nossa bandeira.

RONDA ( Bruna Lombardi )

A alma dele é revestida de um feminino invisível. 

Transparente. Tem quebras, rasgos, impulsos, 
momentos de 
uma grande carência, de uma loucura clandestina. 
Eu o construo diariamente no meu quarto, lhe dou 
coloridos, 
lhe deixo a barba malfeita, o mando pra rua sozinho, 
inseguro, 
com medo dos outros. 
Ele atravessa a avenida São João, se escora nas sombras 
dos 
desconhecidos, nas memórias, toma um café amargo 
e se sente espião dos seus próprios actos, acende um 
cigarro, 
tenta espantar uma ideia de solidão. 
Esbarro nele, mas às vezes chego tão perto, tão dentro,
quase no avesso. Depois ele se mistura, se perde no 
trânsito, 
me despista e eu de repente o localizo enfrentando 
anónimo 
a noite, o centro da cidade, o descubro escrevendo 
palavrões 
na porta de um banheiro. 
Meio desertor da vida, inutilmente refugiado na 
multidão, 
no escuro das esquinas, nas olheiras. 
Delator silencioso de não ter lugar, nem importância, 
percorrendo os túneis da própria marginalidade, 
Insónia. 
Ele anda, pára em balcões de bar, em bancas de jornais, 
olha 
nos olhos dos outros, os outros, todos os possíveis 
outros 
que passam. Tem a alma multipartida, multifacetada. 
Eu o deixo de madrugada na Avenida Ipiranga com um 
pouco 
de frio nas mãos e na cabeça a banda sonora dos 
super-heróis. 

O PERIGO DO DRAGÃO ( Bruna Lombardi )

 Me falaram do perigo do dragão

o homem não
consegue se livrar da castidade
da religião
da lei imposta da moralidade.

Dentro de mim mora o dragão
da natureza
espontâneo e suficiente
e por mais que me obriguem a Fugir
não há nada que me tente
tanto.

Tem o caráter do fogo
o nervo, o temperamento
do proibido
e rompe a linha do extremo
além do sentido.

Dança o movimerito sublime
ultrapassa o cerco
o limite, o crime, o desatino
além da nossa dualidade
na dimensão perigosa
de onde se extrai o destino.

Tudo está contido em tudo, cada coisa
se transforma em outra
contínuo o fio da ação
cada um carrega em si o seu oposto
a vida é o germe da destruição.

MELODRAMA ( Bruna Lombardi )

 eu sou uma mulher espantada

o amor me molha toda
me deixa com dor nas costas
ele diz no fundo gostas
no fundo ele tem razão
o amor tinha de ser
mais uma contradição
tinha de ser verdadeiro
confuso e biscateiro
como em toda situação
tinha de ter remorso
e um querer e não posso
e toda essa aflição
tinha de me dar pancada
e eu cantar não dói nem nada
com um radinho na mão
tinha de fazer ameaça
que é pra poder ter mais graça
como toda relação
tinha de ser dolorido
rasgar um pouco meu vestido
depois me pedir perdão
e como em todo melodrama
terminar na minha cama
até por falta de opção.

CASA SUSPEITA ( Bruna Lombardi )

 talvez eu quisesse ser teu lado mais bonito

a parte da tua história mais repleta, plena
a coisa certa
de uma forma tão serena, tão doce
mas que ao mesmo tempo fosse
selvagem e obscena, violenta até.

que o ódio está sempre contido na paixão
e se eu tenho uma paz toda que me enfeita
trago uma casa suspeita dentro do coração

trago um crime que cometi ou que vou cometer
e jogo contra mim, jogo contra você
vivo do perigo de te fazer enlouquecer
no eterno dilema de ser e não ser
ando na beira do que pode acontecer
e morro de medo de te perder.

CÉU DE AMIANTO ( Bruna Lombardi )

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QUE ME VENHA ESSE HOMEM ( Bruna Lombardi )

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A VIAGEM DA PAIXÃO ( Bruna Lombardi )

 Tenho os caprichos inerentes à natureza da mulher

abro a caixa de pandora que eu quiser
e lanço mão de todo mal e todo bem
avanço a passos largos
alcanço o ponto extremo e vou além
onde se estende a palpitação das células
e se prolongam feixes de neurônios
onde se nasce, morre ou se enlouquece
íntima de deuses e demônios.
Onde habitam as feras, os espíritos das florestas
onde se determina a primavera
e se marcam as nossas testas.
Onde se aprende a sabedoria do fogo
e todas as forças de atração
e se descobre o ponto que orienta
esse mapa de navegação.
Estrela solitária, asteróide desgarrado
luz que aponta o caminho
da viagem da paixão.

A CHAMA ( Bruna Lombardi )

 tenho alma de anarquista

fogos de artifício, pólvora, paixões
você não me conhece
Trago em mim a chama
o perigo, o dragão
trago o que mina, o que explode
a grande subversão

Dentro de mim o que não se doma
que ninguém detém, que nada assusta
o dom
a grande arte da fúria
a fera da sedução

Nisto consiste meu crime
e é o melhor de mim
violenta ternura
força que se irradia e expande feito um gás
que respiramos
e que torna o que fazemos
maior do que o que somos.

CETIM ( Bruna Lombardi )

 ele não sabe que eu o amo dentro dos armários, nos

dias
mais esquisitos, que eu me enfeito, me serpenteio de
fantasias,
que eu uso pintas, plumas e anáguas, rendas escuras e
visto
cintas e certas meias ele não sabe que eu me deslizo
dentro
das tramas, baixo da cama, eu me escorrego, nem
desconfia
como eu me apego a essas manias.
ele não sabe como eu me entrego.
como que preparo, com que firulas, uma avidez de
festas
impossíveis, uns gostos, cânhamo, sândalo, essências,
suor
e uma gota de absinto, na pele um cheiro forte de tudo.
E de
marisco.
ele não sabe que eu pinto a boca de vermelho, percorro
todos
os espelhos da casa na maior cumplicidade clandestina,
e
largo o corpo, lasseio as cordas, me estico,
espreguiço, muito frouxa, mansa, transpirada, um vapor
que embaça os vidros, um calor de porta fechada.
que eu vou me encostando nas paredes, tirando
pulseira,
sandálias, me deixando acontecer, improvisando formas,
cedendo às tentações, devagar, os pés, tapete, coxas, a
umidade, pêlos, copos de vinho, olheiras.
ele não sabe que eu o envolvo nessas imagens, o
escondo
nessas figuras, que eu o possuo o quanto quero, o
invento
e deito e rodo, malho, mordo, uivo, rio.
ele não sabe que eu habito com essas danças na cabeça,
com essas ervas na gaveta, essas folias.
ele nem sabe do que estou falando
entende nada dessas alegorias.

ODE À PAZ ( Natália Correia )

 Pela verdade, pelo riso, pela luz, pela beleza, 

Pelas aves que voam no olhar de uma criança, 
Pela limpeza do vento, pelos actos de pureza,
Pela alegria, pelo vinho, pela música, pela dança, 
Pela branda melodia do rumor dos regatos, 
Pelo fulgor do estio, pelo azul do claro dia, 
Pelas flores que esmaltam os campos, pelo sossego dos pastos, 
Pela exactidão das rosas, pela Sabedoria, 
Pelas pérolas que gotejam dos olhos dos amantes, 
Pelos prodígios que são verdadeiros nos sonhos, 
Pelo amor, pela liberdade, pelas coisas radiantes, 
Pelos aromas maduros de suaves outonos, 
Pela futura manhã dos grandes transparentes, 
Pelas entranhas maternas e fecundas da terra, 
Pelas lágrimas das mães a quem nuvens sangrentas 
Arrebatam os filhos para a torpeza da guerra, 
Eu te conjuro ó paz, eu te invoco ó benigna, 
Ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz. 
Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira, 
Com o teu esconjuro da bomba e do algoz, 
Abre as portas da História, 
deixa passar a Vida!


PALAVRAS DE ÁGUA ( Natália Correia )

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NO TEU CORPO ( Rozeli Mesquita )

 Sinto o fluido do teu amor na pele

Num abraço sedento, quase desfalecido
Delírios, calafrios, ardência,
Sussurrando delicias no teu ouvido

No teu corpo sou fada, meretriz
Sedutora, seduzida, provocada, provocante
Prazer que transborda e emana 
Do teu falo latejante...pulsante

Boca que te procura: ávida, louca
Entorpecida e dominante
Um gozo profundo prenuncia
Num vai e vem ofegante

Gemidos testemunhando
Toda loucura presente
Todo gozo que molha
Nosso encaixe indecente

Minhas entranhas atrevidas
De desejo e tesão escaldante
Provocam teu meio em riste
Sou fêmea no cio: provocante

Como flor se abrindo, me entrego
Insana, no teu corpo desfaleço
Em aventuras de louco encanto
A ti, me viro do avesso

NOS TEUS LENÇÓIS ( Fábio Piva )

 Noite de amor ardente

Corpos segredando meus desejos
Suados, famintos, cansados
Poetando sinfonias de prazer

Dedilhando tua geografia
Vivendo as alucinantes fantasias
Sons indescritíveis e lascivos
Alimento da minha euforia

Mãos desobedientes e tão atrevidas
Tua língua e minha boca, entrega louca
Meu homem amante, safado, tarado
Fez-me tua, a mulher que sou!

Dia de paixão latente
Corpos eloquentes se entrelaçam
Dentes, unhas, saliva
Proseando com as curvas do teu sexo

Desbravando teu interior selvagem
Padecendo em realidade inebriante
Gemidos desesperados, incontidos
Teu éter me resgata da minha sanidade

Dedos ávidos por teus segredos
Minha boca e teu seio, como anseio
Minha amazona em chamas, faceira, arteira
Fez-me poeta em teu corpo, o homem em teus lençóis!

OS OUTROS ( Célia Moura )

 Os outros?!

Quem são os outros?!
Vem,
Que meu colo se abre como uma negra tulipa
E te amarro como uma tenaz em brasa
Pelos flancos.
Quero queimar-te sim,
Deixar-te na pele o cio das fêmeas
Que em mim habitam
Saborear nas tuas mãos
O mais belo poema
Que só saberei escrever no teu êxtase
Para me saciar num longínquo odor a mar
Despido de todos os silêncios
Quando Chopin inundar nossos corpos exaustos
Paridos de Primavera.
Os outros meu amor?
Não penses!
Eles só existirão quando os libertares

POEMA PRIMEIRO ( Joaquim Pessoa )

 Gosto-te. E desta certeza

se abre a manhã como uma imensa
rosa de desejo indestrutível. O futuro
é o próximo minuto, para além
da infatigável religião dos meus versos,
em cuja luz me acendo, feliz e nu.
O meu sorriso conhece a bondade
dos animais, o poder frágil das corolas,
e repete o nome feminino dos arcanjos de
peitos redondos, perfumados
pelas giestas dos caminhos
do céu.
Gosto-te. Amarrado
pelos meus braços de beduíno do sol,
pobre senhor dos desertos,
profeta da distância que há dentro das palavras,
onde se alongam sombras
e o sofrimento se estende até à orla
da mais inquieta serenidade.
Gosto-te. E tenho sido
feliz, por nunca ter seguido os trilhos
que me quiseram destinar. Aqui
e ali me pergunto, despudoradamente. E sei
que não sei mentir. É por isso,
que recolho na face a luz imprescindível
ao orgulho dos peixes
e dos frutos.
Gosto-te. Na-na-na, na-ô
Na-na-na, na-ô… na-nô
Canta o espírito do caminho,
canta para mim e canta para ti, eleva
o coração das grandes árvores, coração
de seiva e de coragem,
sangue fresco e verde, apaixonado
e doce,
de tanto contemplar o perfil das tardes.
Gosto-te. Mas, “longe”
é uma palavra húmida, grávida,
onde os sinos da erva tocam
para convocar a última sílaba. E,
ao procurar-te, tremo apenas
de ternura
para que nem mesmo a inteligente brisa
da manhã
possa dar por mim.
Mais discreto que isto
é impossível.

14/02/2025

SALOMÉ ( Mário de Sá-Carneiro )

 Insónia rôxa. A luz a virgular-se em mêdo,

Luz morta de luar, mais Alma do que a lua.
Ela dança, ela range. A carne, alcool de nua,
Alastra-se pra mim num espasmo de segrêdo.

Tudo é capricho ao seu redór, em sombras fátuas.
O arôma endoideceu, upou-se em côr, quebrou.
Tenho frio. Alabastro! A minh'Alma parou.
E o seu corpo resvala a projectar estátuas.

Ela chama-me em Iris. Nimba-se a perder-me,
Golfa-me os seios nus, ecôa-me em quebranto.
Timbres, elmos, punhais. A doida quer morrer-me:

Mordoura-se a chorar-ha sexos no seu pranto.
Ergo-me em som, oscilo, e parto, e vou arder-me
Na bôca imperial que humanisou um Santo.



SE EU FOSSE PINTOR ( Pedro Homem de Mello )

 Se eu fosse pintor pintava

De verde, verde e cinzento,
O ventre da onda brava
E os olhos cegos do vento
Só com essas duas cores
Talvez que a tinta ocultasse
Meu prazer, as minhas dores.
Tudo que me lês na face!
E, sob o feltro dos dedos
Poisando nas tuas ancas,
As ondas dos teus cabelos
De loiras ficavam brancas.
Nem sequer falas de gente!
Nem alegria nem mágoa.
Ou luar ou sol poente.
Corpo de cristal com água.
Em vez de carne, cerejas.
Legumes, em vez de peixe,
Antes que os meus lábios vejas
E, presos, um beijo os deixe.
Quem se lembraria então
Do poeta (ou do pecado)
Atirado para o chão
Como um fósforo apagado?