08/02/2026

LINHA A LINHA ( Natália Nuno )

 Perscruto as profundezas

do teu olhar
E meu coração muda de lugar
Sem que dê pela mudança,
esquece o tempo, julga-se imortal
Cresce nele a esperança,
É seu destino amar
Assim, é fatal.

Para as tristezas afogar
Vai ocultando a sua dor
Seu murmúrio tem o som do mar
Quem o escuta ouve a voz do amor.

Ouve-lhe os segredos
Sente-o perdido em nevoeiro baço
Escondendo os medos
A vida do avesso
Procura acertar o passo
Ai...como eu o conheço!

Mas deste mal eu padeço
Olhar teus olhos bem fundo
E achar que os não mereço?
Se acaba o chão e o mundo.
Resta-me ainda a lembrança
Neste peito nu é ventura
Quando choro me traz bonança
Passa a dor, torna clara a noite escura.

E neste meu viver singelo
Recordo com natural tristeza
Não quero esquecer o que foi belo
Deixo em palavras de singeleza.
E à vida que eu amo tanto
Tanta vez ela me afronta!
Lhe deixo este meu canto
Na esperança,
que a vida não me interrompa.

ARREBATAMENTO ( Natália Nuno )

 ante o teu corpo junto ao meu vou sonhando

prossigo inteiramente tua, do sempre ao agora
descubro a tua força, enquanto tu me amando
segredo aos teus ouvidos, rogando mais na hora

a loucura, o sonho, esse que vive junto ao meu
é como uma cascata de sede, que nos aprisiona
vejo o mar no teu olhar, fica o meu preso no teu!
esse corpo desencaminha o meu que se abandona

e nessa loucura o sonho me leva com paixão
somos como um vendaval q' palpita aprisionado
a plenitude é um mudo instante, e logo é extinção

procuramos inutilmente o amor ainda em chamas
foi-se em longínquos dias, em silêncio devorado
resta lágrima que nos afoga, e o dizeres qáme amas

SONHO DE SAUDADE ( Natália Nuno )

 pelo meu corpo passeiam

tuas mãos
donas dos meus desejos,
dominam meus anseios
sinto-as, e vou
ora resistindo ora não,
enquanto de amor bate
meu coração, mãos que

nos meus seios viajam

a cada segundo...esqueço
o mundo!

meu corpo é lava acesa
areia em tempestade
sonho de saudade.

FESTIM ( Natália Nuno )

 no mar do teu corpo me perdi

inteira diluí-me na tua corrente

no furor da rebentação

vales distantes percorri

entre o prazer e o sonho

e os aromas da paixão


o sonho me enlaçou como uma hera

em horas de delírio e rendição

e o amor me rodeou com sua dança

em impulsos vorazes de desejos

assim prossigo inteira nesse teu mar

neste sonho que é tão meu e teu

prisioneira dos teus beijos

do nosso amor, nosso festim

certeza de ti e de mim.


na loucura dos instantes

mesmo aqueles que não tive

fui água amanhecida

sedenta

como riacho de verão

nos dias que se apagavam sobre si

numa lânguida lentidão

com saudade de ti.

ESTE NOSSO AMOR ( Natália Nuno )

 Dá-me o que tens

recupera o fôlego

eu sou o rosto da fogueira

o vento do desejo

e às vezes da saudade

cansa-te no meu corpo

que o tempo dos sonhos acabou

não esperes milagre

nem tão pouco eternidade

tudo acaba, já tanto se calou

dá-me o toque dos teus dedos

ouve os meus gemidos

labirintos de segredos

espevita o carvão,

ateia a chama

e eu serei o fogo

que não se vê mas sente,

a areia ardente escaldante

deste nosso amor.

ESTE É O POEMA ( Natália Nuno )

Este é o poema onde tu me despes

como se fosse tua,

onde me sinto nua e crua.

Da tua boca saem palavras loucas

estremecidas de ternura

e loucura,

e tuas mãos sem paragem

seguem p'lo meu corpo viagem.

E o teu querer actua

num ritual de ir à lua

e voltar.

Nada sei de ti.

Que sabes de mim?

Tu és apenas o poema que li,

o amor que não vai acabar

porque te quero tanto assim!


Deixo-me ir na lonjura,

na entrega, na emoção.

Viajo no teu corpo, banhada

numa corrente de mel

onde com ternura

dirijo a tua mão

que arrepia a minha pele.


Nos meus olhos desejos

na tua boca beijos.

De repente o silêncio

como se estivéssemos ausentes

Só nossos corpos ainda quentes.


Assim nos amávamos

enquanto o poema ía nascendo!

TRANSE ( Djavan )

 Abra o seu coração

Que eu quero passar
Andar de trem
Flores beijando o chão
Pedras a sonhar
Tudo em transe de amor
As carícias virão
Soltas pelo ar
Vindas do além
E no meu coração

Ou qualquer lugar
Tudo brilhará também
Ali onde o ar beira a luz
Todo encanto vai navegar
No decorrer de uma paixão
Tempestade nasce no vento
Cresce e se faz mulher

Pra me levar
Na ilusão
Abra o seu coração
Que eu quero passar
Andar de trem
Flexas de solidão
Cantam pra saudar
Noites de luar
Em vão

FLORES SEM NOME ( Affonso Romano de Sant'Anna ) in Textamentos, 1999

 Estou amando essas flores, sem lhes saber o nome.

Isto não é justo, nem suficiente.
Sei-lhes o perfume,
vejo pequenas abelhas que as circundam
e delas se alimentam
sem lhes indagar sequer o nome.
Inominadas,
como apreendê-las no poema?
Delas guardarei no tempo
certa cor, certo aroma, certa forma,
como certas pessoas que por mim passaram
– inalcançáveis –
embora deixassem nos meus olhos
o mesmo inominado aroma.

ADOLESCÊNCIA ( Affonso Romano de Sant'Anna ) in Textamentos, 1999

 Bom teria sido

amar na adolescência
a pele clara da vizinha
com rendas sobre os seios
e perfume de odalisca
na entreaberta cortina.
Bom teria sido, na minha rua,
ter beijado Silvinha, Amélia, Clarice
e a inesquecível boca
de Lourdinha.
Se isto tivesse me sucedido ali
talvez se saciasse meu desejo
e eu não correria mais atrás da fonte
com minha sede tardia.

MÚSICA NAS CINZAS ( Affonso Romano de Sant'Anna ) in Textamentos, 1999

 Toda vez que soa esse adágio do concerto para oboé de Mozart

paro tudo
ponho os pés sobre a mesa, como agora,
olho a lagoa em frente, cruzo os braços
e começo a levitar.
Se eu morresse ouvindo essa música
chegaria do outro lado, tão asinho
que os anjos me tomariam por um dos seus.
Tantas vezes fiz soar no entardecer esses acordes
à beira-mar ou na montanha em minha casa de campo
que as azaleias, a grama, as cerejeiras e ciprestes
ressoam por si mesmos a melodia
quando desperto.
Um dia estarei morto
e peço que joguem minhas cinzas entre as flores.
Os que passarem nesta paisagem
além de aromas,
ouvirão acordes da eternidade.

ILUMINANDO ( Affonso Romano de Sant'Anna ) in Textamentos, 1999

 Que fulgurante a vida face ao entardecer.

Desfolho seus momentos numa verticalidade absurda.
Os gregos amavam o Sol
e os decadentistas
lunares formas de viver.
Projeto uns nos outros
iluminando o escurecer.
A tarde tem sortilégios.
Estou maduro para ela.
Escrevo. Escrevo. Escrevo.
E, algo se grava e se esclarece
no ato de escreviver.

DILEMA ( Affonso Romano de Sant'Anna ) in Textamentos, 1999

 Sempre que volto de viagem

a alma refastelada de afrescos, vinhos e castelos
sento-me na praia aqui nos trópicos
e ponho-me a olhar o horizonte
de onde vivo regressando.
– Não deveria ter voltado. – Sim, devia.
De costas pra montanha
de frente para o mar
dividido
entre ir e regressar
penso que merecia
porto melhor para ancorar.
De frente pra montanha
de costas para o mar
recomeço a caminhar.

OS BOIS ( Affonso Romano de Sant'Anna ) in Textamentos, 1999

 De madrugada matam os bois

que comemos ao amanhecer.
No entanto, eles tinham seus projetos:
comer a erva da manhã,
mascar o azul do entardecer
e cercados de aves e borboletas
ir adubando o dia por nascer.

A MARAVILHA DO MUNDO (Affonso Romano de Sant'Anna ) in Textamentos, 1999

 Quem disse

que são sete as maravilhas do mundo?
Quem disse
quais são? onde estão?
E se as maravilhas do mundo
forem oito
ou vinte e sete
ou incontáveis
como as que encontro sempre no seu corpo?

AMOR DE OSTRA ( Affonso Romano de Sant'Anna ) in Textamentos, 1999.

 Nunca soube como as ostras amam.

Sei que elas têm um jeito suave de estremecer
diante da vida e da morte.
Tens um jeito de acomodar teu corpo ao meu
como na concha.
Eu não sabia como as ostras amam
até que duas pérolas brotaram de teus olhos
no mar da cama.

07/02/2026

NOCTURNO A DUAS VOZES ( Eugénio de Andrade ) in 'Poesia e Prosa [1940-1980]

 — Que posso eu fazer

senão beber-te os olhos
enquanto a noite
não cessa de crescer?

— Repara como sou jovem,
como nada em mim
encontrou o seu cume,
como nenhuma ave
poisou ainda nos meus ramos,
e amo-te,
bosque, mar, constelação.

— Não tenhas medo:
nenhum rumor,
mesmo o do teu coração,
anunciará a morte;
a morte
vem sempre doutra maneira,
alheia
aos longos, brancos
corredores da madrugada.

— Não é de medo
que tremem os meus lábios,
tremo por um fruto de lume
e solidão
que é todo o oiro dos teus olhos,
toda a luz
que meus dedos têm
para colher na noite.

— Vê como brilha
a estrela da manhã,
como a terra
é só um cheiro de eucaliptos,
e um rumor de água
vem no vento.

— Tu és a água, a terra, o vento,
a estrela da manhã és tu ainda.

— Cala-te, as palavras doem.
Como dói um barco,
como dói um pássaro
ferido
no limiar do dia.
Amo-te.
Amo-te para que subas comigo
à mais alta torre,
para que tudo em ti
seja verão, dunas e mar.

NAMORO ( Líria Porto) in livro "Garimpo". ilustrações Silvana de Menezes. Belo Horizonte MG: Editora Lê, 2014.

 de encontro ao vento

ando lento pra sentir seus dedos finos
e seu corpo sem matéria

eleva-me do chão alguns centímetros

QUE SE PASSA? ( João Camilo ) in Nunca Mais se Apagam as Imagens, 1996.

 Claro que não, de maneira nenhuma.

Estava sentada ao meu lado, o desejo
agitava-lhe o ventre, ela semicerrava
os olhos. De maneira nenhuma, assim não,
ainda não. Debrucei-me sobre o seu rosto
e beijei-a. Pousei a cabeça no seu peito
e esperei pelas suas mãos. Continuava,
lento, a ir devagar ao encontro do desejo.
Não tinha pressa. Ela apertava-me
contra si silenciosamente, parecia
dormir e repousava o seu corpo como
se a morte ou uma hibernação o tivessem
ocupado. A televisão passava um filme
de John Ford. Ela ergueu-se subitamente,
afastou-me. Que se passa, perguntei-lhe,
surpreendido. Nada, respondeu ela, mas não é
o filme de John Ford que acaba de começar?
Não o quero perder. De acordo, pensei eu.
Levantei-me, fui sentar-me na cadeira do outro
lado da sala. Acendi um cigarro. Lá fora
caíra a noite há muito tempo. Mas quem
tinha vontade de pensar no que se passava
lá fora? Um filme de John Ford, repeti em voz
baixa. Apaguei o cigarro e concentrei-me
na aventura irreal, nas cores magníficas do deserto.

À FLOR DA PELE ( João Camilo ) In revista Inimigo Rumor 13 - 2002- Ed. 7 Letras, Rio de Janeiro. Livros Cotovia, Lisboa

 Acende o cigarro, rapariga. E olha para a

rua onde passam transeuntes desconhecidos.
A tarde vai avançando e nós morrendo nela
ou morrendo nela as nossas esperanças,
a ilusão de eternidade. A beleza o que é?
Braços nus, o ventre liso nu, os cabelos caídos
nos ombros. A desconhecida concentra em si
a atenção do homem desocupado. Para
distrair-se, ele olha para ela e recorda-se
da história antiga do amor, reconstrói
ficções que sabe serem apenas ficções. Assim
passa o tempo, depois irá para casa. Quem
sabe o segredo mais secreto da existência
de cada um? Todos nós temos uma
história. Uns calam-na, outros murmuram
entre dentes os episódios essenciais, outros
encontram palavras com que construir o
poema hermético. Que diferença é que faz?
De tudo se constrói a existência, se alimenta
o sentido. Camisa branca à flor da pele, a
rapariga levantou-se e foi lá dentro do café
comprar qualquer coisa. Palavras, deixai-me
celebrar o vão movimento dos ponteiros do
relógio, os episódios vãos, a nossa morte.

XLII ( Hilda Hilst ) in De Amavisse, 1989.

 As barcas afundadas. Cintilantes

Sob o rio. E é assim o poema. Cintilante
E obscura barca ardendo sob as águas.
Palavras eu as fiz nascer
Dentro de tua garganta.
Úmidas algumas, de transparente raiz:
Um molhado de línguas e de dentes.
Outras de geometria. Finas, angulosas
Como são as tuas
Quando falam de poetas, de poesia.

As barcas afundadas. Minhas palavras.
Mas poderão arder luas de eternidade.
E doutas, de ironia as tuas
Só através de minha vida vão viver.

I ( Hilda Hilst ) Tempo - Morte, in Da Morte. Odes Mínimas

 Corroendo

As grandes escadas
Da minha alma.
Água. Como te chamas?
              Tempo.

Vívida antes
Revestida de laca
Minha alma tosca
Se desfazendo.
Como te chamas?
              Tempo.

Águas corroendo
Caras, coração
Todas as cordas do sentimento.
Como te chamas?
              Tempo.

Irreconhecível
Me procuro lenta
Nos teus escuros.
Como te chamas, breu?
              Tempo.

I ( Hilda Hilst ) in da Morte. Odes Mínimas, São Paulo: Massao Ohno, Roswitha Kempf Editores, 1980

 Te batizar de novo.

Te nomear num trançado de teias
E ao invés de Morte
Te chamar      Insana
                      Fulva
                      Feixe de flautas
                      Calha
                      Candeia
Palma, por que não?
Te recriar nuns arco-íris
Da alma, nuns possíveis
Construir teu nome
E cantar teus nomes perecíveis:
                      Palha
                      Corça
                      Nula
                      Praia
Por que não?

COMO SE TE PERDESSE, ASSIM TE QUERO ( Hilda Hilst ) in Amavisse, 1989.

 Como se não te visse (favas douradas

Sob um amarelo) assim te apreendo brusco

Inamovível, e te respiro inteiro

 

Um arco-íris de ar em águas profundas.           

 

Como se tudo o mais me permitisses,

A mim me fotografo nuns portões de ferro       

Ocres, altos, e eu mesma diluída e mínima

No dissoluto de toda despedida.

 

Como se te perdesse nos trens, nas estações

Ou contornando um círculo de águas

Removente ave, assim te somo a mim:

De redes e de anseios inundada.

O SOLITÁRIO ( Manoel de Barros ) in livro "Face imóvel" (1942), em 'Poesia completa: Manoel de Barros'. SP: Editora Leya, 2010.

 Os muros enflorados caminhavam ao lado de um 

homem solitário 
  Que olhava fixo para certa música estranha 
  Que um menino extraía do coração de um sapo.

  Naquela manhã dominical eu tinha vontade de sofrer 
  Mas sob as árvores as crianças eram tão comunicativas

  Que me faziam esquecer de tudo 
  Olhando os barcos sobre as ondas…

  No entanto o homem passava ladeado de muros! 
  E eu não pude descobrir em seu olhar de morto 
  O mais pequeno sinal de que estivesse esperando alguma dádiva!

  Seu corpo fazia uma curva diante das flores.

2 ( Manoel de Barros ) in livro "Poesia" (1947), em 'Poesia completa: Manoel de Barros'. SP: Editora Leya, 2010.

 São mil coisas impressentidas 

Que me escutam:
O movimento das folhas 
O silêncio de onde acabas de voltar 
E a luz que divide o corpo do nascente

São mil coisas impressentidas 
Que me escutam: 
São os pássaros assustados, assustados, 
Tuas mãos que descobrem o convite da terra 
E os poemas como ilhas submersas…

São mil coisas impressentidas 
Que me escutam: 
Sou eu apreensivamente 
Solicitado pela inflorescência 
Redescoberto pelo bulir das folhas…

8 ( Manoel de Barros ) in livro "Poesia" (1947), em 'Poesia completa: Manoel de Barros'. SP: Editora Leya, 2010.

 A boca está aberta, seca e escura 

De raízes mortas
Encontro restos de orvalho 
No rosto da terra, e os bebo

Ao silêncio do enxofre que penetra 
Deito-me para germinar
Ouço fluir a seiva 
Ouço o caule crescer

Do ventre que gesta sob ramas 
Uma flor de moliços depois 
Irá comendo o contorno dos lábios 
E as mãos sem despedidas.

Corpo em árvore feito 
Serei como talha de pedra 
Na terra, com molduras de fresco 
E hortênsias…

Ervas tolhiças crescerão 
Nos interstícios do ser 
E o que foi música e sede de sarças 

Há de ser pasto de águas

11 (Manoel de Barros) in livro "Poesia" (1947), em 'Poesia completa: Manoel de Barros'. SP: Editora Leya, 2010.

 Aqui: ardo e maduro. 

Compreendo as azinheiras. 
Compreendo a terra podre e fermentada 
De raízes mortas.

Compreendo a presciência do fruto 
Na carne intocada.

E assisto crescerem 
Frescos, nessa carne, os teus dedos.

Compreendo esse garfo na terra 
A germinar ferrugens 
Sob laranjais…

E o grão que semearam na pedra. 
E mais: os troncos rugosos 
Pendendo suas bocas para as águas.

ZONA HERMÉTICA ( Manoel de Barros ) in livro "Poesia" (1947) 'Poesia completa: Manoel de Barros'. SP: Editora Leya, 2010.

 De repente, intrometem-se uns nacos de sonhos; 

Uma remembrança de mil novecentos e onze; 
Um rosto de moça cuspido no capim de borco; 
Um cheiro de magnólias secas. O poeta 
Procura compor esse inconsútil jorro; 
Arrumá-lo num poema; e o faz. E ao cabo 
Reluz com a sua obra. Que aconteceu? Isto: 
O homem não se desvendou, nem foi atingido: 
Na zona onde repousa em limos 
Aquele rosto cuspido e aquele 
Seco perfume de magnólias, 
Fez-se um silêncio branco. E aquele 
Que não morou nunca em seus próprios abismos 
Nem andou em promiscuidade com os seus fantasmas 
Não foi marcado. Não será marcado. Nunca será exposto 
Às fraquezas, ao desalento, ao amor, ao poema.

X (Manoel de Barros) no livro "O Guardador de Águas" (1989), em 'Poesia completa: Manoel de Barros'. SP: Editora Leya, 2010.

 É o mais engenhoso estafermo. 

Sem mexer com a boca ele tira ardor de pétalas! 
Atrás de sua casa trabalha um tordo cego 
E um rio emprenhado de rãs até os joelhos. 
De manhã ouve frases do tordo. 
Prende aragens de manga nos cabelos. 
O lodo aceso das moscas — 
Guarda em vasos de pedra. 
Ave, pedras! 
Um roxo a vegetal encorpa em seu casaco — o 
mesmo roxo enfermo das violetas desmolhadas… 
Sabe coisas por concha e água. 
Cigarras lhe sonetam sobre outubro. 
Esse homem 
Teria, sim 
O que um poeta falta para árvore.

7 ( Manoel de Barros )in livro "O Guardador de Águas" (1989), em 'Poesia completa: Manoel de Barros'. SP: Editora Leya, 2010.

 O rio atravessou um besouro pelo meio — e uma falena. 

Era um besouro de âmbar, hosco 
E uma falena de Ocaso. O besouro 
Enfiou na falena seu aguilhão 
E a trouxe para seu esconderijo. 
Depois esplendorou-a toda antes de comê-la.