Para Ângela Maria
A menina selvagem veio da aurora
"O único jeito de suportar a existência é mergulhar na literatura como numa orgia perpétua". ( Gustave Flaubert )
Para Ângela Maria
A menina selvagem veio da aurora
Certa madrugada fria
fio do risco do sol
cega mormaço seu movimento
canto de olho desfoca lume
dentro tudo se aparelha
corpo batuque proposital
desejo de segundo corpo
transposição de tessitura
borboletas se divertindo
composição mágica do cérebro
órgãos e suas músicas naturais.
Meu amor meu amor
Quando teus exércitos chegaram
há penas mais pesadas que as dadas nos cárceres
penas que somente por nós podem ser pagas
asas amarradas, que só encontram liberdade
com o peso de uma pena na mão
na minha insustentável leveza
eu sinto
tudo o tempo todo
me toca
sinto muito
eu voo
As florestas ergueram braços peludos para esconder-te
com ciúmes do sol.
E a tua carne triste se desabotoa nos seios,
recém-chegados do fundo das selvas.
Pararam no teu olhar as noites da Amazônia, mornas e imensas.
No teu corpo longo
ficou dormindo a sombra das cinco estrelas do Cruzeiro.
O mato acorda no teu sangue
sonhos de tribos desaparecidas
– filha de raças anônimas
que se misturaram em grandes adultérios!
E erras sem rumo assim, pelas beiras do rio,
que teus antepassados te deixaram de herança.
O vento desarruma os teus cabelos soltos
e modela um vestido na intimidade do teu corpo exato.
À noite o rio te chama
e então te entregas à água preguiçosamente,
como uma flor selvagem
ante a curiosidade das estrelas.
eu quero a palavra com cheiro, a palavra com pelos
que veja a beleza desfocada
quero a palavra sem espelho, atemporal, vadia
que abrace a menina, penetre a mulher
quero a palavra perfurante
na garganta
a palavra que treme e vibra e contrai
a palavra da água da morte do medo do fim
eu quero a palavra engasgada
sem fôlego, sem batimentos, sem culpa
quero a palavra mapa, procura e dedos
a palavra sem ida e sem volta
que se contradiga
a palavra descrente da verdade do agora
eu quero uma palavra que é tudo
e que não sabe de nada
quero a palavra que reinvente a vida
materialidade fina e transcendente
do meu gozo, num único verbete
uma fogueira, um altar, a porta
do céu ou do inferno
eu quero a palavra muda
a palavra que desnude a poesia
eu quero o milagre do verso
porque meu sexo não sabe ser escrito
Hoje eu sonhei que ela voltava
Ela é uma borboleta
Um facho de luz
Olhando nos meus, teus olhos gritavam:
Hoje acordei
Fui seqüestrada nas entranhas
Senti na pele
As pétalas de um corpo
Preciso do veludo
Insensata alma
Chupo
boca do mar
A Musa que passava