12/01/2017

AH, COMO O SONO É A VERDADE, E A ÚNICA
Ah, como o sono é a verdade, e a única
Hora suave é a de adormecer!
Amor ideal, tens chagas sob a túnica.
‘Sperança, és a ilusão a apodrecer!

Os deuses vão-se como forasteiros.
Como uma feira acaba a tradição.
Somos todos palhaços estrangeiros.
A nossa vida é palco e confusão.

Ah, dormir tudo! Pôr um sono à roda
Do esforço inútil e da sorte incerta!
Que a morte virtual da vida toda
Seja, sono, a janela que, entreaberta,

Só vaga sombra e som do mundo deixe
Chegar à sonolência que se sente.
E a alma se desfaça como um feixe
Atado pelos dedos de um demente.
*Fernando Pessoa, (escrito em 18.5.1923), In Poesia.