Ama, canta-me. Eu nada quero
Do mundo ouvir.
Sofro e, se penso, desespero.
Eu quero dormir.
Um sono em que a alma se esqueça,
Vazio embalar
Que o som do teu canto por fim desfaleça
E eu durma sem sonhar.
Como malmequeres, para em minha sorte,
Os meus sonhos desfolhei.
Tenho medo da vida, tenho medo à morte.
Nunca tive o que amei.
Que a tua canção seja um nada, um afago,
Como o som longe do mar.
Eu quero dormir, Ama, as dores que trago
Só assim podem acabar.
Criança que vê os outros brincando
Sem brinquedos, e sem companhia.
Conta-me, ama, vá-me o sono levando
Como uma melodia.
Noturna esperança feneceu no outono,
Sussurro, secaram as águas.
Canta, e que o teu canto entre no meu sono
Como um ai sem mágoas.
