04/08/2017

DIZERES ÍNTIMOS ( Florbela Espanca )


É tão triste morrer na minha idade!
E vou ver os meus olhos, penitentes
Vestidinhos de roxo, como crentes
Do soturno convento da saudade!

E logo vou olhar (com que ansiedade!)
As minhas mãos esguias, languescentes,
De brancos dedos, uns bebés doentes
Que hão-de morrer em plena mocidade!

E ser-se novo é ter-se o paraíso,
É ter-se a estrada larga, ao sol, florida,
Aonde tudo é luz, graça e riso!

E os meus vinte e três anos. (Sou tão nova!)
Dizem baixinho a rir: "Que linda a vida!"
Responde a minha dor: "Que linda a cova!"