Ó nudez última de meu ser completo
amado corpo que num supremo gozo
difundes em meu sangue
o prodígio encantado da alegria!
Ó mulher viva em sua calidez inocente
de puros ombros perfumados,
fragrância de frescura plena,
acesas colinas para o meu desejo!
Amo a profusão de luz que o teu rosto irradia,
a sombra doce de tua mão em minha face,
o teu sorriso que incendeia a própria água
com um fogo solar que não termina.
Entro em ti com um alento sempre renovado,
já não sonho, aspiro o teu odor de terra
a delícia sumptuosa de teu ventre
na evidência de um perpétuo nascimento.
Mulher, carne de minha carne enamorada,
aroma súbito da suavidade,
sopro de lírio e de nardo,
olente onda de embriaguez,
hálito indefinível de intagível flor –
todo o ar se inflama, arde e transfigura
quando para mim te despes e insinuas.
Quem és cercada de mistérios que não desvendo?
fugidio horizonte de meus anseios que persigo?
És êxtase? Visão de dança?
Doçura que soluça em mim?
Fonte de águas amanhecidas
a rumorejar secretas melodias?
De que jardim fechado surgiste
anunciando a madrugada?
Que fragrância te define?
Que aroma de ti parte
para volúpia dos meus sentidos?
Que perfume é este
que tua pele exala
e sobre mim se derrama
num súbito tremor de claridade?
Ah, pudesse eu tocar tua alma
onde se reflecte puro o firmamento
e a beleza do mundo se espelha deslumbrada
numa contínua festa de estio e primavera!
E pela verdura dos anos beijar teus lábios,
beber a sombra de tantos frutos iluminados!
Leve, tão leve nada mais seria
que ar e brisa e pólen a cintilar ao vento,
a vida mais estéril fecundaria!