04/05/2025

LÍLIA TAVARES, in Nas Mãos A Sede Dos Pássaros

 Há mulheres que esperam cravadas numa

concha de solidão.
Mordem as mãos para se sentirem vivas.
Descem à intimidade do mar para compreender a
melancolia dos peixes.
Como veias das mãos, abrem canais no arvoredo
para se ocultarem.
Amiúde sentem temor, pois é no coração que
guardam um a um os seus medos.
Como corujas, cerram os olhos longamente. Têm a
visão audaz das aves nocturnas.
Misturam-se em tramas de inquietude para tomar o
gosto do espanto das sombras.
Retornam à claridade e expelem do corpo, lugar
desabitado, todas os fragmentos da
inutilidade do tempo.
Sobem torres.
As mulheres.