
Há mulheres que deixaram a natureza entregue
a si própria.
Já raramente se ocupam dos vasos e do jardim.
Todas as coisas parecem estar à solta, numa
liberdade sem limites.
A tesoura de poda, as pás, a vassoura há muito que
pingam gotas de ferrugem encostadas a uma porta
em cujas ferragens a erosão do tempo passou sem
piedade.
Elas não são indiferentes nem despreocupadas.
Saem à rua para ver o sol nascente. Para verem o
afogueado crepúsculo espreitam pelos vidros da
janela na parede oposta à porta.
Não as vêem sair com crianças.
“São mulheres sozinhas, sem futuro”, murmuram.
De facto, recebem poucas visitas e em datas certas.
Nesses dias mostram o seu riso através do cabelo
desgrenhado, sem corte.
Quem não lhes conhece o íntimo, chama-lhes
mulheres que têm um quarto só para si.
Moram numa casa de paredes cheias de livros,
folhas, tinteiros, lápis e uma máquina de escrever. A
cadeira da secretária é velha mas conhece-lhes os
contornos do corpo. Têm um candeeiro aceso junto
da pilha de livros e papéis rasurados.
Como virginia woolf, tiveram de fazer escolhas.
Aniquilaram o fantasma da fada do lar.
Sentam-se cada dia à secretária e deixam-se levar
por personagens, amores e enredos que escrevem
com os dedos nas teclas da máquina. Por vezes
param e anotam umas palavras e riscos numa folha.
Preparam um chá e voltam a escrever.
Uma certa manhã prendem o cabelo num rolo,
passam pelo rosto um creme guardado e tiram do
roupeiro o fato de saia e casaco, os sapatos e a mala.
Enlaçam no pescoço um lenço mais colorido.
Abrem a porta e levam na mão uma capa de pele
preta muito volumosa. Sobem para um autocarro na
paragem. Sentam-se apreensivas. Não sabem se
desta vez vão ler o seu nome na capa do livro. Estão
fartas de assinar os livros com george, joão e outros
