Um espaço livre. Preencho-o de palavras. Piscadas. Chuva. Filmes.
Metástases: o coração estende-se além das pernas da rua.
Meus passos vão com esta música, versos e tambores.
Ressoam as minhas imagens. O corpo não me pesa. E o ar não me faz falta.
Faço amor com os sonhos. E não os conheço de nada. Travessa, cruzo sem olhar, apita-me um carro e volto à terra. Agarro-me por um momento aqui em baixo: impureza controlada.
Olhadas, fujo delas, pego nelas, me matam, me salvam. Transcendo luzes de néon ruídos matemáticos, chego mais abaixo, toco minhas raízes. Cresci como uma alga clorofílica e mais ninguém estava lá, porventura agora sim? Até às ruínas do fundo do mar ninguém pode chegar, e as borbulhas me coroaram rainha de um paraíso indescritível. É incrível mas aqui não se ouve nada. Dissolvo-me, sou líquido, água pura, e a lua me maneja. Não falo, não minto, não quero.
Ouve-se qualquer coisa ao longe, e quando olho já não o vejo. Uma seta cruza meu oxigénio: Uns olhos que olham sem dizer uma palavra. Acompanham-me, as algas se afastam. Nossos corpos movem-se por um impulso que vem de acima, a maré nos eleva. Não percebemos nada.
Nada. O tempo não passa. Ou sim, aqui em baixo não se ouve nada. Ondas submergem-nos mais abaixo. Dentro do fundo e tocamos a areia branca que ninguém pisou. Virgens explorando, movemo-nos pela inércia dos corpos que sobem e baixam. Acima passam furiosas, mais ondas.
Uma espuma choca contra outra, o golpe empurra o meu corpo meu olhar a uma espiral obscura que me trespassa. Não vejo nada. Agito meus braços para acima, a água está viva, me enlaça, solto as minhas pernas, levanto a minha cabeça, para acima, já vamos, chegamos.
Onde estás? Não te vejo.
Fora, longe de casa. Meu outro corpo perdido no oceano.
Acima, o ar seca a minha pele, pesa-me a saliva ancorada na minha garganta. Necessito água.
Volto, revolvo tudo, procuro-o, não o encontro. Agora estou outra vez aqui, onde te perdi. Ruínas azuis. Mas já não há marcas na água. Nadadora, agora, com meta. Perco a minha coroa, navego, agora, num mar vermelho.
Um ruído aparece, quando olho não ouço nada, e chega outra vez, o mesmo olhar.
Não há corpo, não há saída. Seus olhos, me crucificam numa cruz de borbulhas. E eu só procurava a minha coroa, meu corpo, e me cravas contra isso, contra todoomeudesejo. Dias, passam tantos dias. Estou prestes a afogar, trouxeste-me à terra. Estou nela? E luto, agora luto contra ela ou contra ti que me cravaste a ela, mas primeiro hei de soltar-me para logo agarrar-te. Enfureço a minha vontade, sangro. Não funciona. Quieta, tranquila, fico paralisada. E dissolvo-me, afundo-me no mais infinito do oceano. Transparente, puro mar. Liberdade. Nado para ti. Não podemos tocar-nos, misturamo-nos, não tens corpo, só duas asas, e a minha alma.
