06/07/2025

AVE MARIA QUE PASSEIA NA AVENIDA SETE ( Simone Bacelar )

 Maria passou por mim

na calçada da farmácia.
Estava com uma sacola de plástico
e o salto quebrado.
Andava com pressa,
mas dava pra ver:
rezava alguma coisa baixinho.
Era onze e meia.
Sol de rachar pensamento.
Um homem gritou “vagabunda!”
pra uma moça de vestido justo.
Ela parou,
olhou pra ele como quem examina um cisco na janela
e respondeu, sem pressa:
“Se soubesse onde dói em você,
não tentava doer em mim.”
O silêncio caiu como prato no chão.
Ele engoliu em seco
e ficou olhando o nada,
como quem esqueceu o caminho de casa.
Maria, que vinha logo atrás,
sorriu com o canto da boca,
ajeitou o pano invisível na cabeça
e seguiu com o mesmo passo de sempre.
Mas agora
havia um lume no asfalto.
Na padaria da esquina,
ela pediu fiado.
O padeiro fez cara feia,
mas deu o pão.
“É pra um menino doente”, ela disse.
Eu não sei se era.
Mas achei tão bonito acreditar
que paguei a conta sem ela saber.
Ave Maria
cheia de graça no camelô,
cheia de cheiro de queijo coalho,
cheia de saudade da mãe que morreu sem aviso.
O Senhor é convosco,
ainda que pareça ausente,
ainda que só apareça no fim da fila do SUS.
Cheia de boletos vencidos,
que pega dois ônibus para trabalhar
e ainda volta com leite,
pão e esperança na bolsa rasgada.
Bendita sois vós entre as mulheres,
que andam com o útero ferido
e, mesmo assim, dão colo.
E bendito é o fruto do vosso ventre,
o menino que dorme com fome
mas ainda sonha com bola e nuvem.
Santa Maria, Mãe de Deus, do centro da cidade,
que um dia também teve medo,
que lavou roupa em pedra dura,
que chorou em silêncio no canto da casa,
rogai por nós, os pecadores:
os que acordam atrasados,
os que falam sozinhos no ponto de ônibus,
os que juram que ainda creem,
mas vivem pedindo sinal.
Agora,
na hora em que a carne duvida,
na hora em que a lâmpada queima
e não tem dinheiro pra outra.
Na hora da nossa morte,
e na hora do aluguel.
Na hora em que o filho desvia,
na hora em que o amor vai embora
sem deixar bilhete.
Na hora em que tudo parece sem fé
e, mesmo assim, a gente reza.
Amém.