14/07/2025

OBSCURO DOMÍNIO ( Eugénio de Andrade )

 Amar-te assim desvelado 

entre barro fresco e ardor. 
Sorver entre lábios fendidos 
o ardor da luz orvalhada. 

Deslizar pela vertente 
da garganta, ser música 
onde o silêncio flui 
e se concentra. 

Irreprimível queimadura 
ou vertigem desdobrada 
beijo a beijo, 
brancura dilacerada. 

Penetrar na doçura da areia 
ou do lume, 
na luz queimada 
da pupila mais azul, 

no oiro anoitecido 
entre pétalas cerradas, 
no alto e navegável 
golfo do desejo, 

onde o furor habita 
crispado de agulhas, 
onde faça sangrar 
as tuas águas nuas.
 Eugénio de Andrade, em "Obscuro Domínio". 1972.