14/07/2025

SERENATA ( Eugénio de Andrade )

 Venho ao teu encontro a procurar 

bondade, um céu de camponeses, 
altas árvores onde o sol e a chuva 
adormecem na mesma folha. 

Não posso amar-te mais, 
luz madura, espaço aberto. 
Não posso dar-te mais do que te dou: 
sangue, insónias, telegramas, dedos. 

Aqui estou, fronte pura, rodeado 
de sombra, de soluços, de perguntas. 
Aceita esta ternura surda, 
este jasmim aprisionado. 

Nos meus lábios, melhor: no fogo, 
talvez no pão, talvez na água, 
para lá dos suplícios e do medo, 
tu continuas: matinalmente. 
Eugénio de Andrade, em "Até Amanhã". 1956.