Nesta vizinhança
Nenhuma luz me reconhece
Memórias e eu fervemos em silêncio
Nenhuma mão
Nenhuma carícia
Nenhum olhar que me dê sentido
A mesma janela cansada
Voltada para o beco sem saída
Que só conhece
Risos artificiais
Aqui, deste lado,
A imagem do meu pássaro -
Um pássaro que já morreu mil vezes,
E, ainda assim, abre novamente as asas.
Sem medo algum
De cair.
O teto do quarto,
Mais pesado que uma tumba.
Os sopros
Que vêm e vão
Cheiram a coisa antiga.
E o espelho revela
As feridas do meu rosto
Mais nítidas que qualquer sorriso.
É a vida
Algo mais que uma ferida profunda?
Este olhar sem sentido
De um espetáculo amargo?
Respiramos
Apenas para ensaiar
A morte
Mais uma vez.
