Ofereço-te:
esta coordenada-cordilheira
esta longa seda desprendida
o buraco, o vale, o abraço prolongado.
Cavalga amor com mãos acesas
- argonauta da bússola partida –
para que sul e norte se soltem
para que os signos azuis
te devorem,
para que a minha voz cubra
o teu silêncio.
Onde reconheci o teu sinal,
onde reconheci o meu?
Na tua voz, nos teus olhos, nas tuas mãos
ou no silêncio que precede o silêncio?
A tua mão ordena a desordem do caos
e a minha paixão agita os ramos da árvore
que há dentro de ti
para que os frutos caiam.
Que generosos são os deuses
sábios e calados!
Posso observar o seu sorriso
de prazer, de entendimento
quando nos vêem
caminhando juntos,
desenredando os fios
em estranhos, secretos labirintos.
Podem acontecer duas coisas:
que o caracol se vire sobre si mesmo
ou que se erga rolando
para fora.
Assim são os caminhos,
as nossas vidas.
Eu dobrada sobre mim mesma
e tu estendendo-te, cingindo.
Num ponto qualquer
os círculos concêntricos
tocaram-se:
estranhos meteoros
de rápidos planetas.
Não te enganes,
posso ensinar-te muitas coisas.
Guardo dentro de mim esse segredo,
o que procuraste e procuras
em tantas outras mãos.
De noite, quando as tuas pálpebras te cobrem,
escapo-me,
visito os teus fantasmas
e examino lentamente as tuas feridas
sanadas pela minha língua.
Quando te aproximas
e pensas
escondo-me e, de assalto,
digo o teu nome, esconjuro-o.
E cresço dentro do teu corpo
e tu dilatas-te no meu coração
porque assim o disseram
os antigos deuses.
Espero-te, embora estejas a meu lado,
calado e como ausente.
Espero o sinal
para o silencioso encontro
das tuas torres com os meus cumes,
do teu abismo
com os meus braços.
Embora digas o meu nome em sonhos,
espero-te desde esta imensa
eternidade,
desde o território do amor,
semeando.
A tua carícia é um laço,
seda colada à minha pele,
veludo que se estende
e se agarra às minhas pernas.
A tua carícia é um látego feroz
que me submete ao jugo do teu tempo
e do teu prazer.
A tua carícia solta
o mar enlouquecido
humana, demasiado humana.
Se o teu cérebro pudesse autorizar
o teu coração,
se fechasses os olhos.
Se sentisses
toda esta constelação que treme
nas minhas mãos.
Se pudesses receber o meu coração,
olhá-lo fixamente,
ser sua testemunha
antes que se extinga.
Se pudesses.
Um dia os ponteiros dos relógios girarão ao contrário
e os nomes repetir-se-ão
sem pensar nisso.
A presença de tantas madrugadas
que trago nos alforges
despertará.
E abrir-te-ei a porta
como antigamente:
tremor, raiz cravada no meu epicentro.
A noite será oferenda:
a serpente de seda e a taça da ninfa,
unidas,
tão amadas.

