26/01/2026

DOIS POEMAS PARA A INSÓNIA(Eunice Odio) in Os Elementos Terrestres e Outros Poemas; Anjo Terrível, 2020. trad.:Luiza Nilo Nunes

 Hoje

como nunca,
Amado,
era a tua nuca suave,

e a tua face,
um quilómetro branco
que chegava pelo ares.

Hoje
como nunca,
Amado,

vão cerejeiras
à tua casa,

e por teu pescoço fazem
cruzeiros,
certos peixes rosados.

Eu,
entretanto,
observo a variação coral
dos radiogramas

e um rio inédito
escreve
os seus molhados rituais
no teu cabelo.

*

Ver-te
é não ter perfume

Mas perder-te ao vento.

Ver-te é já não saber ver
as purezas do jasmineiro.

Ver-te é unir o céu
de quatro pontos distantes.

Amor,

Emigrante azul,

Secreta rosa dos poços,

Ah!

Que dulcíssima fábula
de açucenas extraviadas,

Que anjos de quatro
sílabas
entre os espasmos das mãos,

Amar-te
é já não ter no espírito
invólucro para o teu corpo.