26/01/2026

O PRESENTE ( Clementina Suárez ) tradução de Floriano Martins

 Eu gostaria de te dar um pedaço de mina saia,

hoje florescida como a primavera.

Um relâmpago de cor que detivesse teus olhos em meu talhe
– braço de mar de ondas inascíveis –

a ebriedade de meus pés frugais
com seus passos sem tempo.

A raiz de meu tornozelo com seu
eterno verdor,

o testemunho de um olhar que te deixasse no espelho
como arquétipo do eterno.

A beleza volúvel de meu rosto, tão perto de morrer a cada instante
por conta de viver apressadamente.

A sombra de meu corpo errante
detida na própria esquina de tua casa.

O sonho zumbidor de minhas pupilas
quando deslizam até a tua testa.

A beleza de meu rosto
em uma virgindade de nuvens.

A ribeira de minha voz infantil com tua sombra de incrível tamanho,
e a linguagem ilesa que não maltrata a palavra.

Meu alvoroço de criança que vive descoberta
para que a cubras com a armadura de teu peito.

Ou com a mão aérea de quem viaja
porque seu sangue submarino jamais se detém.

A febre de minhas noites com duendes e fantasmas
e a chuva virginal do rio mais oculto.

Que o vento se abre como um leque
ao nível do ar, da terra e do fogo.

O dorso onde bordas as tuas mãos
inchadas de marulho, nuvens e fortuna.

A paixão com que dilaceras
no leito da mesma e vasta torrente

como se o próprio coração se tornasse líquido
e escapasse de tua boca como um mar sedente.

O feixe de meus pés
despertos andando sobre a grama.

Como se trémulos aguardassem pelo encontro calado
de onde apenas pelo silêncio restassem a correntes partidas.

E em teus dedos retido o mandado da vida
que em liberdade deixou teu sangue,

embora com sua cascata, com sua racha,
as árvores do degelo, algo em ti mesmo destroçado.

A cabeleira que brota do ar
em líquidas miniaturas inquebráveis

para que as tuas mãos ilesas façam ninho
como no próprio sexo de uma rosa estremecida.

A entranha onde submerges como se buscasse estrelas enterradas
ou o sabor de pó que tornará férteis nossos ossos.

A boca que te morde
como se degustasse rios de aromas;

ou fincando em ti os dentes
matizasse a vida com a morte.

O tálamo onde medes a minha cintura
na suave sobrevivência intransitiva,

na viagem pela espuma difundida
ou pelo sangue aceso humanizada

o mundo em que vivo
estremecida de gestações inesgotáveis.

O minuto que me unge de auroras
ou de iridescências indescritíveis.

Como se ao ritmo de teu eflúvio soberano
salvasses o instante de inadvertido mel;

ou deixasses no mágico horizonte de luzes apagadas
o tempo desmedido e remediado.

Onde os sentidos ficaram detidos
e, ao final já sem idioma, totalmente despidos.

Como se ensaiando o voo suas asas se queimaram
ou, por ter cicatrizes, seus braços se extenuassem.

A pele que me veste, me contém e abrevia,
a que ata e desata minhas ramagens.

A que te abre a branda residência de meu corpo
e te entrega seu mais íntimo segredo.

Minha veia, chaga viva, quase queimadura,
vestígio do fogo que me devora.

O nome com que te chamo
para que sejas bem-vindo.

O rosto que nasce com a aurora
e é guardado por anjos na noite.

O peito com que suspiro, o latejo,
o tique-taque entranhável que ilumina tua chegada.

O lençol que te envolve em tuas horas de vigília
e nele te deixa cativo, dorme, sonho do amor.

Árvore de meu esqueleto
mesmo com suas miúdas dobradiças.

O recinto sombrio
de meus fêmures estendidos.

A morada de meu crâneo, desgarrado lamento,
pequena molécula de carne jamais humilhada.

O orgulho sustenido de meus ossos
aos quais até com as unhas eu me agarro.

Meu canto perene e obstinado
que em morada de luta e esperança defendo.

A casa intemporal
que meu pó amoroso te oferece.

O nível da lesão
ou da ferida que poderia haver acabado comigo.

O pranto que me lavou
e que este pequeno corpo transcendeu.

Minha sombra estendida
à mercê de tua lembrança.

A agulha imantada
com seu pólen impensado e suas brasas vermelhas.

Minha existência cinzenta
com sua primeira mortalha.

Minha morte
com sua pequena eternidade.