25/03/2026

BOCAS AO SOL ( Yara Osman )

 Há muito tempo

me tornei uma parede.

 

Uma parede com dois olhos,

aquela que viu tudo

e nunca disse nada.

 

A única que não caiu

de uma casa

milhares de vezes bombardeada.

 

Do outro lado do muro

há pessoas dormindo

com a boca aberta para o sol,

e os olhos — mesmo fechados —

fixos nos meus.

 

Com olhos abertos,

a morte me observa

como um gato

observa uma borboleta.

 

Com asas abertas,

a morte me encara

como uma borboleta

encara o fogo.

 

A morte me visita.

A morte dorme comigo.

Rouba meu lençol.

 

E toda vez que esqueço

que sou uma parede,

ela me mostra meu pai

com a boca aberta para o sol.