Há muito tempo
me tornei uma parede.
Uma parede com dois olhos,
aquela que viu tudo
e nunca disse nada.
A única que não caiu
de uma casa
milhares de vezes bombardeada.
Do outro lado do muro
há pessoas dormindo
com a boca aberta para o sol,
e os olhos — mesmo fechados —
fixos nos meus.
Com olhos abertos,
a morte me observa
como um gato
observa uma borboleta.
Com asas abertas,
a morte me encara
como uma borboleta
encara o fogo.
A morte me visita.
A morte dorme comigo.
Rouba meu lençol.
E toda vez que esqueço
que sou uma parede,
ela me mostra meu pai
com a boca aberta para o sol.
