25/03/2026

É DESERTO... ( Elaine Dauzcuk ) in O Ponto ; 2025, Editora Patuá.

Nessa areia sereia não brinca

Essa areia é para quem

Grita sem falar

Queima sem arder

É deserto…

Quando os cabelos caem

É a perna colada à cama

É corpo mumificado no lençol

É o peito sem movimento

É deserto…

Quando tomo banho

E não estou no banho

Quando como

E não estou quando como

É deserto…

Quando você não está

E quando também não estou quando você não está

É deserto…

Quando eu não me chamo

Quando eu me canso sem descansar

Quando descanso sem cansar

Quando só me pergunto quando

É deserto…

E eu não deserto

Decerto um camelo será apropriado

Na próxima temporada

porque não me iludo:

há tantos oásis quanto desertos

há tanta seca quanto chuva

É deserto…

quando os cabelos caem

e não sou calva

não me iludo:

há tantos fios para nascer e cair

quanto desertos para atravessar

convoco caravanas de panos coloridos

para me proteger

do que arde só para doer

tenho as entranhas cheias de areia

mas não me iludo:

sou feita de água.