Nessa areia sereia não brinca
Essa areia é para quem
Grita sem falar
Queima sem arder
É deserto…
Quando os cabelos caem
É a perna colada à cama
É corpo mumificado no lençol
É o peito sem movimento
É deserto…
Quando tomo banho
E não estou no banho
Quando como
E não estou quando como
É deserto…
Quando você não está
E quando também não estou quando você não está
É deserto…
Quando eu não me chamo
Quando eu me canso sem descansar
Quando descanso sem cansar
Quando só me pergunto quando
É deserto…
E eu não deserto
Decerto um camelo será apropriado
Na próxima temporada
porque não me iludo:
há tantos oásis quanto desertos
há tanta seca quanto chuva
É deserto…
quando os cabelos caem
e não sou calva
não me iludo:
há tantos fios para nascer e cair
quanto desertos para atravessar
convoco caravanas de panos coloridos
para me proteger
do que arde só para doer
tenho as entranhas cheias de areia
mas não me iludo:
sou feita de água.
