Tornar-me foi um desfazer-me.
Despir-me de pele e de sonhos.
Cada passo à frente foi mais leve,
porque despojado de propósito,
movido por inércia e desalento.
Caminhei por várias vias
sem telefone, sem dinheiro,
sem medo dos perigos.
De meu, tinha só o corpo,
que sempre foi só carne,
nunca um objeto de desejo.
Não tinha sexo, nem etnia,
ignorava que, nos outros,
ele pudesse despertar repulsa,
ou ser motivo de cobiça.
Mirava o alto, as miragens,
queria ser apenas espírito.
