Minha mãe e eu quebrávamos canela
sobre uma mesa de madeira.
Abaixo, uma aranha
tecia um ninho para seus filhotes.
Nós conversávamos
nos amávamos
nos beijávamos
quebrávamos canela.
O cheiro impregnava a sala
nas cadeiras de plástico trançado
na mesa de madeira
onde juntas selávamos as capas
com o fogo de uma vela.
Meus dedos se enchiam de cera branca
eu lembrava da Ave Maria da igreja
e da tabuada
não aprendida para segunda-feira.
Lá fora, era noite
dentro de casa
cheirava a leite morno
a pão doce
a maduro assado
à canela quebrada
por nossas mãos.
Minha mãe colocava
um pão doce
e leite morno na mesa.
Eu a observava
falava sobre gatos
as travessuras da cadela
o líquido branco como leite
que sai das plantas
quando brinco.
Ela falava sobre a escola
a sorte
suas dores nas articulações
sua tia má
que a tratava como escrava.
Enquanto isso, eu
mergulhava meus dedos na superfície
do leite morno
feito nata
teia de aranha branca
em meus dedos.
Eu adorava ouvi-la
amava comovê-la
sentia-a mãe
e pai ao mesmo tempo.
Eu ansiava ser adulta
queria cuidar dela
protegê-la
porque era morna como o leite
doce como o pão do meu prato
perfeita e perfumada como a canela
que quebrava com suas mãos.
Eu a amava tanto
que um dia à tarde
parti para agradá-la.
