lembra-te
de cada guinada das costas
depois do trabalho,
de cada esticão da coxa e dos músculos dos pés,
de tanta fadiga nos ombros depois de carregares aos ombros
a maldição de Midas dos secos patrões
esganados entre o parecer e o ter
sem pingo de paz nem poesia
para a sua própria salvação.
lembra-te dos versos que te nascem da exaustão e da dor
lembra-te do Poema, dos mestres da Palavra e do ardor
lembra-te do ardor benéfico da Palavra
que a tudo queima
a tudo lavra
a tudo respiga até à mais funda raíz
até a terra eleita emergir sob os passos desgastados
do operário manual
do camponês à jorna
da mulher invisível apoucada por outras mulheres
e de todos os viventes adiados sonegados e banidos
lembra-te de cada dor e sentir exasperado
destaca, diferencia, distingue, sofre e vive
o rebordo da angústia
o recorte da frustração
o amargo da tristeza e da dureza do que te morre
para poderes sempre regressar aos teus territórios amorosos e limpos
e para conservares em ti o fio de prumo da justiça
da beleza, do respeito
