Guerreiras da Paz e da Fartura
perfiladas no horizonte
as guerreiras da fartura
aguardam o sinal para avançar.
virão devagar, robustas e vagarosas
pela encosta dos queridos montes raianos.
um ar de Setembro cuida de as manter na farta redoma
emoldurando e desenhando
o olival.
de tão lentos os passos
um estranho ao lugar juraria que não
que é fantasia ou ilusão de óptica
esse mito da marcha das oliveiras.
suponho que noutras paragens
se sofre da mesma incredulidade:
uma crença árida e seca
insistindo na ideia de as oliveiras serem apenas árvores e,
para tal visão bafienta
árvores têm raízes que a fúria
humana escolhe onde plantar ou arrancar
acontece que, aqui, estamos no reino da imensidão
onde a única barreira a deter
é a arrogância e os brotos de mesquinhez.
aqui, no reino da imensidão
todos sabemos como as oliveiras defendem a paz
semeando temperos, sabores e sombras,
à medida que habitam as terras
até devir olival.
foi num monte destes que o tal das tranças se reconheceu homem amoroso
pois cabe aos olivais a missão do espelhamento das almas.
faça o forasteiro o teste:
assim que aviste um rebordo de oliveiras na linha cimeira de um monte
páre e disponha-se a acolher esse cortejo.
uma vez internamente pronto
basta habitar a máxima quietude interior
distender as pernas,
pousar mãos, braços e memórias
alongar o olhar desde onde emerge a esperança
até que a silenciosa invasão se consuma
e, num ápice, o terreno que parecia vazio
se revela pejado
de copas troncos folhas frutos
e da radiosa cantiga a várias vozes
dos outros seres esvoaçantes
