Se há na língua, além do sentido
o gosto da palavra
que se bebe derramada
num sussurro
Se a luz turva e há nos meus versos
serpentes adornadas com escamas-nomes
gatos negros suicidas a saltar ágeis sobre os automóveis
A minha palavra é um parapeito
este corpo bélico-poético
é um precipício irrefreável
Se há nos ossos a certeza de memória,
e se são eles os últimos registros da barbárie,
quanto tempo demora até que
a porosidade deste tempo nos consuma?
Esse meu desejo secreto de inumar tudo
é um ritual, uma prece, uma confissão de fé
é o desejar herbário de querer que tudo ao meu redor
(se) vingue.