12/03/2017

(by Maria Fernanda Arruda)

Vem arar meus sonhos
embalar minha rede
encantar meu desejo
traduzir o que me explode
aqui, dentro do peito
o dia se faz dourado
pós castanho anoitecer
pulsar de adolescente
e sei o que é amor!
na lágrima que água fonte
na semeadura do sentir transparente
ávida para tê-lo em meus braços
e sentir
e te ouvir
e te acariciar
e prazer.
(by  Maria  Fernanda  Arruda)

ESPAÇO-TEMPO (Adalcinda Camarão)


Quero-te mesmo, amor, na ausência ou na presença,
com rumores de sombra, alarde ou desafios.
―Dormir num chão de luar à sombra de roseiras
ou sob os pirisais na baixada dos rios.

Assim te amo e te sei amando dia-a-dia,
acordada ou dormindo o germinal segredo.
E te abraço sem ter teu corpo ao meu, beijando
a saudade sem ser de quem se tem sem medo.

Amo-te mesmo, amor, no madrigal do tempo,
derrubando androceus e gineceus se amando
nas pálpebras do estio que o sono não acorda.

No teu dorso eu descanso a caminhada enorme
que fiz pra te encontrar ― lábios ardendo em busca
da tua noite azul onde minh'alma dorme.

Amo-te mesmo, amor. Se me vens ou te vais.
Sinto-te à flor da pele e à superfície da água
que dessedenta o bem que nos lava o mal.

Amo-te e não sei quem és ― teu nome nem origem.
Só sei que és homem são e me sabes mulher.
Que beleza este amor sem pranto nem vertigem,
sem princípio nem fim, nem dimensão sequer!

ORIGEM ( Adalcinda Camarão )


Eu queria mesmo, ó grande mar azul
que conhecesses o meu cabelo solto ao vento,
tão parecido com o teu pensamento
livre, crescendo sempre.

Eu fazia questão que ouvisses o meu soluço abafado
como de tuas ondas,
que mal põem à tona a cabeça o vento esmaga.
Eu queria, afinal, que me visses despida
com a tua correnteza que passa
sem pudor ou malícia - transparente.
Tu reconhecerias
no contorno transluzente do meu corpo
a desordem ritmada da tua carícia que minha mãe bebeu
no dia em que se banhou nas tuas espumas,
quase ao me dar à luz,
e mergulhou, afinal, sondando-te a profundidade,
onde encontrou minhalma!

11/03/2017

AMPLEXO (Leocádia Regalo)


Nunca o sol poente
me deixou marcas melancólicas
ou impressões de perda e de vazio.
Por isso me extasio

perante as paisagens do sul
possuídas pelo astro incendiado
que paulatinamente sobre elas desce
tocando-as com a força
desse amplexo
manso e envolvente
inundando-as do fulgor ignescente
com que as cobre subitamente desmaiado.


Depois cai a sombra
apaziguando o dia
e esbatem-se os contornos indistintos
do horizonte sossegado. 

Se eu pudesse estar na vida
como as paisagens possuídas
pelo astro incendiado.
 Leocádia Regalo, no livro “Passados os Rigores da Invernia”. Coimbra: Caminho, 2003.

LÁ FORA, A NOITE ( Marina Colasanti )

Lá fora, a noite
É quando a família dorme
– inertes as mãos nas dobras dos lençois
pesados os corpos sob a viva mortalha –
que a mulher se exerce.
Na casa quieta
onde ninguém lhe cobra
ninguém lhe exige
ninguém lhe pede
nada
caminha enfim rainha
nos cômodos vazios
demora-se no escuro.
E descalços os pés
aberta a blusa
pode entregar-se
plácida
ao silêncio.

 Marina Colasanti, no livro “Rota de Colisão”.


06/03/2017

PESADELO
( Maurício Tapajós & Paulo César Pinheiro )
Quando o muro separa uma ponte une
Se a vingança encara o remorso pune
Você vem me agarra, alguém vem me solta
Você vai na marra, ela um dia volta.

E se a força é tua ela um dia é nossa
Olha o muro, olha a ponte, olhe o dia de ontem chegando
Que medo você tem de nós, olha aí.

Você corta um verso, eu escrevo outro
Você me prende vivo, eu escapo morto.

De repente olha eu de novo.

Perturbando a paz, exigindo troco
Vamos por aí eu e meu cachorro
Olha um verso, olha o outro
Olha o velho, olha o moço chegando
Que medo você tem de nós, olha aí.

O muro caiu, olha a ponte
Da liberdade guardiã
O braço do Cristo, horizonte
Abraça o dia de amanhã.

Olha aí.
Olha aí.
Olha aí.



DEPRESSÃO ( Adalcinda Camarão )


Aos manos Céli e Edir
Quero ar. Ar puro dos campos marajoaras.
Água enchente de rio - temperatura do meu corpo.
Pisar caminhos estreitos sem tráfego.
Beber chuva - comer caça
na faísca arisca da brasa
que o boi vigia.
Quero vento alísio - uma só estação todo ano!
Olhos. Inteligência.
Brasilidade. Gargalhada.
Silêncio de rádio, de relógio, de telefone.
(Não fale em televisão, por favor.)
Quero plantar frutas e legumes,
criar aves
que me sustentam e se misturem comigo.
Quero os meus cabelos que cobriam os joelhos.
(Quem cortou os meus cabelos, ninguém se lembra.)
Quero falar em poesia descuidada
num degrau de ponte velha,
onde os barcos cochilam
à maresia do luar.
Uma rede de esse rangindo sonolentamente
num canto sombrio da varanda invadida
dos galhos do biribazeiro.
Quero a noite. Candeeiro espetado ao alto da parede
com uma paisagem de Sílvio Pinto.
Quero fugir para o verão do meu Pará.
Quero o meu homem!
 

ANSEIO (Adalcinda Camarão)


Ah, eu quisera ser aquela árvore
coberta pelas garças brancas de voo incerto!
Árvore plantada pelo acaso
à margem do rio enorme!
Árvore de frondes anantos,
desejosa, quase humana,
que se arrepia ao contato
das penas dos papagaios que passam!
Árvore que tem o grande amor do vento
e que da sombra para o gado descansar.
Árvore estéril, árvore bela, árvore fresca,
árvore amante de todos os crepúsculos,
no solstício do inverno ou do verão,
Árvore do pensamento das outras árvores!

 

AMOR ( Adalcinda Camarão ) in Vidência


Teus olhos se espreguiçam no meu peito
e dormem o riso morno das abelhas
tontas de mel rolando
amor - amado.
Teus lábios escrevem poemas sós, secretos,
nos meus lábios lacrados desta sede
que só tu sabes a paixão imensa.
Tuas mãos debulham rimas
em todo o meu dorso dourado
da tua presença
à sombra da tarde que escoa.
Tentar ficar longe de ti é fiasco, é legenda.
Fica rente a ti blasfêmia que Deus abençoa.

DESPEDIDA (Adalcinda Camarão) in Poesia do Grão-Pará


Pediste-me qualquer coisa.
Qualquer coisa de meu muito íntimo
que me cobrisse o corpo.
Que me tocasse a pele arrepiada,
E como pra te dar eu não tivesse nada,
E como só a escuridão me envolvesse
pelos olhos, pelos ombros,
pelo ventre morno e mofino,
eu te dei de presente a minha noite enorme,
a minha grande noite sem memória e sem destino!

04/03/2017

mãos tuas que às minhas chegam
em linhas da vida
traçadas ha muito
mãos que tocam e acordam
meus versos brejeiros
sonhando-te por inteiro
estrofes esboçando a manhã
bem definidas as linhas
cúmplices, traçam contorno do corpo
tecem os poros suaves caminhos
acalma a saudade quando se juntam as minhas
e gozo se faz na palma da mão.
(by Maria Fernanda Arruda)

e tu, o que sabes de mim?
de meu repouso cotidiano em
lembranças quando vens
de meu sentimento mais apurado
no silêncio que me guardo
nas histórias que trago, enfim
sabes de mim
quando tarde desapareço
no curso fluvial profundo
denso como sei ser
em tudo que pretendo de nós,
que desperta, agita
me dá fome e prazer.
(by Maria Fernanda Arruda)

by Maria Fernanda Arruda

estou tão às palmas
entornando minha’alma quando vens
traçando linhas do meu destino
tuas mãos suando meus poros
tuas mãos meus contornos
seios pernas leito dorso
poema que tinge o corpo
me anoitece quando deito
meus sonhos
em ti: deleite!
(by Maria Fernanda Arruda)
não fique aqui agora
o sorriso no rosto é curto
o silêncio da solidão é pouco
linhas frias em mãos de acariciar
coração intimida o peito
rompe o ruido da rede
que em rendas e madrigais
a moça não quer sonhar
na pauta um traço mal feito
um rabisco torto no escuro
reclamando todo apuro
de querer-te abraçar
de saber-te só mais um pouco
boa noite pra tudo
e se ficou algo
o amanhecer se encarrega de apagar.
(by Maria Fernanda Arruda )

by Maria Fernanda Arruda

eu aqui, refém de sonhos profanos
jogo a rede e trago coincidências
afinal, elas existem?
vou, sensata buscar-te
nas palavras eloquentes
de prazer e de desejo
insculpindo montanhas
que no seu mais profundo absorve e conserva
contornos de nossos corpos
todo mel que nos traz suspiros inquietos.
(by Maria Fernanda Arruda) 
Maria, menina, mulher
Vai a vida e ama
Em sua plenitude
Derrama o cálice doce de saliva
Que guardaste até hoje
Ao ouvir teu coração
E junto dele fez rima
Sentiu desejo
Andou nas nuvens
Teve saudade.
Sente tesão!
 (by Maria Fernanda Arruda )

SEM AÇÚCAR ( Chico Buarque de Holanda )


Todo dia ele faz diferente, não sei se ele volta da rua
Não sei se me traz um presente, não sei se ele fica na sua
Talvez ele chegue sentido, quem sabe me cobre de beijos
Ou nem me desmancha o vestido, ou nem me adivinha os desejos

Dia ímpar tem chocolate, dia par eu vivo de brisa
Dia útil ele me bate, dia santo ele me alisa
Longe dele eu tremo de amor, na presença dele me calo
Eu de dia sou sua flor, eu de noite sou seu cavalo

A cerveja dele é sagrada, a vontade dele é a mais justa
A minha paixão é piada, sua risada me assusta
Sua boca é um cadeado e meu corpo é uma fogueira

Enquanto ele dorme pesado eu rolo sozinha na esteira
E nem me adivinha os desejos
Eu de noite sou seu cavalo.

CAÇADA ( Chico Buarque de Holanda )



Não conheço seu nome ou paradeiro
Adivinho seu rastro e cheiro
Vou armado de dentes e coragem
Vou morder sua carne selvagem
Varo a noite sem cochilar, aflito
Amanheço imitando o seu grito
Me aproximo rondando a sua toca
E ao me ver você me provoca
Você canta a sua agonia louca
Água me borbulha na boca
Minha presa rugindo sua raça
Pernas se debatendo e o seu fervor
Hoje é o dia da graça
Hoje é o dia da caça e do caçador.

Eu me espicho no espaço feito um gato
Pra pegar você, bicho do mato
Saciar a sua avidez mestiça
Que ao me ver se encolhe e me atiça
Que num mesmo impulso me expulso e abraça
Nossas peles grudando de suor
Hoje é o dia da graça
Hoje é o dia da caça e do caçador.

De tocaia fico a espreitar a fera
Logo dou-lhe o bote certeiro
Já conheço seu dorso de gazela
Cavalo brabo montado em pelo
Dominante, não se desembaraça
Ofegante, é dona do seu senhor
Hoje é o dia da graça
Hoje é o dia da caça e do caçador.

MOÇA NA CAMA (Adélia Prado)


Papai tosse, dando aviso de si,
vem examinar as tramelas, uma a uma.
A cumeeira da casa é de peroba do campo,
posso dormir sossegada. Mamãe vem me cobrir, 
tomo a bênção e fujo atrás dos homens,
me contendo por usura, fazendo render o bom.
Se me tocar, desencadeio as chusmas,
os peixinhos cardumes.
Os topázios me ardem onde mamãe sabe,
por isso ela me diz com ciúmes:
dorme logo, que é tarde.
Sim, mamãe, já vou:
passear na praça sem ninguém me ralhar.
Adeus, que me cuido, vou campear nos becos,
moa de moços no bar, violão e olhos
difíceis de sair de mim.
Quando esta nossa cidade ressonar em neblina,
os moços marianos vão me esperar na matriz.
O céu é aqui, mamãe.
Que bom não ser livro inspirado
o catecismo da doutrina cristã,
posso adiar meus escrúpulos
e cavalgar no topor
dos monsenhores podados.
Posso sofrer amanhã
a linda nódoa de vinho
das flores murchas no chão.
As fábricas têm os seus pátios,
os muros tem seu atrás.
No quartel são gentis comigo.
Não quero chá, minha mãe,
quero a mão do frei Crisóstomo
me ungindo com óleo santo.
Da vida quero a paixão.
E quero escravos, sou lassa.
Com amor de zanga e momo
quero minha cama de catre,
o santo anjo do Senhor,
meu zeloso guardador.
Mas descansa, que ele é eunuco, mamãe.

OUVE, MEU ANJO ( António Botto )


Ouve, meu anjo:
Se eu beijasse a tua pele?
Se eu beijasse a tua boca
Onde a saliva é mel?

Tentou, severo, afastar-se
Num sorriso desdenhoso;
Mas aí!,
A carne do assassino
É como a do virtuoso.

Numa atitude elegante,
Misterioso, gentil,
Deu-me o seu corpo doirado
Que eu beijei quase febril.

Na vidraça da janela,
A chuva, leve, tinia.

Ele apertou-me cerrando
Os olhos para sonhar - 
E eu lentamente morria
Como um perfume no ar!

LETTERA AMOROSA ( Eugénio de Andrade )


Respiro o teu corpo:
sabe a lua-de-água
ao amanhecer,
sabe a cal molhada,
sabe a luz mordida,
sabe a brisa nua,
ao sangue dos rios,
sabe a rosa louca,
ao cair da noite
sabe a pedra amarga,
sabe à minha boca.

DEIXA A MÃO ( Eugénio de Andrade )


Deixa a mão
caminhar
perder o alento
até onde se não respira.

Deixa a mão
errar
sobre a cintura
apenas conivente
com nácar da língua.

Só um grito desde o chão
pode fulminá-la.

A morte
não é um segredo
não é em nós um jardim de areia.

De noite
no silêncio baço dos espelhos
um homem
pode trazer a morte pela mão.

Vou ensinar-te como se reconhece
repara
é ainda um rapaz
não acaba de crescer
nos ombros
a luz
desatada
a fulva 
lucidez dos flancos.

A boca sobre a boca nevava.

AQUELE OUTRO NÃO VIA (Hilda Hilst)



Aquele outro não via minha muita amplidão
Nada lhe bastava. Nem ígneas cantigas.
E agora vã, te pareço soberba, magnífica
E fodes como quem morre a última conquista
E ardes como desejei arder de santidade.
(E há luz na tua carne e tu palpitas.)

Ah, por que me vejo vasta e inflexível
Desejando um desejo vizinhante
De uma fome irada e obsessiva?