14/03/2017


"A loucura é vizinha da mais cruel sensatez. Engulo a loucura porque ela me alucina calmamente."  ( Clarice  Lispector )

( Fragmento do conto "Tempestade de Almas" do livro "Onde Estivestes de Noite")

 A PICA RESSUSCITA A MULHER MORTA
(Francisco Moniz Barreto)
A pica o instrumento é que no mundo
Mais milagres tem feito e mais proezas;
A pica o melhor traste e das belezas,
Mal que começa a lhes coçar o sundo.

A pica é o cão, que avança furibundo
A plebeias, fidalgas, e princesas;
A pica em chamas Troia pôs acesas,
E a Dido fez descer do Urco ao fundo.

É a pica – carnal, possante espada,
Que o mundo, perfurante, emenda, entorta,
E tudo vence, como bem lhe agrada.

A pica, ora e calmante, ora conforta;
Sendo em dose alopática aplicada,
A pica ressuscita a mulher morta.

LEMBRANÇAS DE MAIO ( Adélia Prado )


Meu coração bate desamparado
onde minhas pernas se juntam.
É tão bom existir!
Seivas, vergonteas, virgens,
tépidos músculos
que sob as roupas rebelam-se.
No topo do altar ornado
com flores de papel e cetim
aspiro, vertigem de altura e gozo,
a poeira nas rosas, o afrodisíaco
incensado ar de velas.
A santa sobre os abismos 
a voz do padre abrasada
eu nada objeto,
lírica e poderosa.
in Antologia da Poesia Erótica Brasileira; Tinta da China, Brasil 1935.

SONETO (Mário de Andrade)

Aceitarás o amor como eu o encaro?
Azul bem leve, um nimbo, suavemente
Guarda-te a imagem, como um anteparo
Contra estes moveis de banal presente.
Tudo o que há de melhor e de mais raro
Vive em teu corpo nu de adolescente,
A perna assim jogada e o braço, o claro
Olhar preso no meu, perdidamente.
Não exijas mais nada. Não desejo
Também mais nada, só te olhar, enquanto
A realidade e simples, e isto apenas.
Que grandeza. A evasão total do pelo
Que nasce das imperfeições. O encanto
Que nasce das adorações serenas.
NÃO PASSOU POR ESSA RUA
(Laurindo Rabelo )
Não passo por esta rua,
Que não veja esta perua,
Na porta com dois e três;
Que fodas não dá no mês
Aquele cono tão quente!
E chega a ser tão potente
A maldita da cachorra,
Que no cu sempre tem porra,
Na porta sempre tem gente!
(Obra de Vicente Romero)


ELA (Olavo Bilac)


Maria tem vinte amantes!
Uns tortos, outros direitos;
Todos eles são galantes,
Todos vivem satisfeitos.
Mulher de recursos fartos!
Como é que esta impenitente,
Tendo no corpo dois quartos,
Dá pousada a tanta gente?
OS QUATRO ELEMENTOS – A TERRA
*Vinícius de Moraes (1913-1980)
Um dia, estando nós em verdes prados
Eu e a Amada, a vagar, gozando a brisa
Ei-la que me detém nos meus agrados
E abaixa-se, e olha a terra, e a analisa

Com face cauta e olhos dissimulados
E, mais, me esquece; e, mais, se interioriza
Como se os beijos meus fossem mal dados
E a minha mão não fosse mais precisa.

Irritado, me afasto; mas a Amada
A minha zanga, meiga, me entretém
Com essa astúcia que o sexo lhe deu.

Mas eu que não sou bobo, digo nada.
Ah, e assim… (só penso) Muito bem:
Antes que a terra a coma, como eu.

13/03/2017

PRIMEIRO A TUA MÃO SOBRE O MEU SEIO ( Rosa Lobato de Faria )

Primeiro a tua mão sobre o meu seio.
Depois o pé - o meu - sobre o teu pé.
Logo o roçar urgente do joelho
e o ventre mais à frente na maré.

É a onda do ombro que se instala.
É a linha do dorso que se inscreve.
A mão agora impõe, já não embala
mas o beijo é carícia, de tão leve.

O corpo roda: quer mais pele, mais quente.
A boca exige: quer mais sal, mais morno.
Já não há gesto que se não invente,
ímpeto que não ache um abandono.

Então já a maré subiu de vez.
É todo o mar que inunda a nossa cama.
Afogados de amor e de nudez
Somos a maré alta de quem ama

Por fim o sono calmo, que não é
Senão ternura, intimidade, enleio:
O meu pé descansando no teu pé,
A tua mão dormindo no meu seio.

AMEI-TE COM AS PALAVRAS (Rosa Lobato de Faria)

Amei-te com as palavras
com o verde ramo das palavras
e a pomba assustada do coração.

Amei-te com os olhos
o espelho doido dos olhos
e a sede inextinguível da boca.

Amei-te com a pele
as pernas e os pés
e todos os gritos que trago
por debaixo da roupa.

Amei-te com as mãos
As mesmas com que te digo adeus.

AS PEQUENAS PALAVRAS ( Rosa Lobato de Faria )

De todas as palavras escolhi água,
porque lágrima, chuva, porque mar
porque saliva, bátega, nascente
porque rio, porque sede, porque fonte.
De todas as palavras escolhi dar.

De todas as palavras escolhi flor
porque terra, papoila, cor, semente
porque rosa, recado, porque pele
porque pétala, pólen, porque vento.
De todas as palavras escolhi mel.

De todas as palavras escolhi voz
porque cantiga, riso, porque amor
porque partilha, boca, porque nós
porque segredo, água, mel e flor.

E porque poesia e porque adeus
de todas as palavras escolhi dor.

 

QUEM ME QUISER (Rosa Lobato de Faria)

Quem me quiser há-de saber as conchas
As cantigas dos búzios e do mar
Quem me quiser há-de saber as ondas
E a verde tentação de naufragar

Quem me quiser há-de saber a espuma
Em que sou turbilhão, subitamente
Ou então não saber coisa nenhuma
E embalar-me ao peito, simplesmente

Quem me quiser há-de saber a chuva
Que põe colares de pérolas nos ombros
Há-de saber os beijos e as uvas
Há-de saber as asas e os pombos

Quem me quiser há-de saber a espuma
Em que sou turbilhão, subitamente
Ou então não saber coisa nenhuma
E embalar-me ao peito, simplesmente

Quem me quiser há-de saber as conchas
As cantigas dos búzios e do mar
Quem me quiser há-de saber as ondas
E a verde tentação de naufragar

Quem me quiser há-de saber as fontes
A laranjeira em flor, a cor do feno
À saudade lilás que há nos poentes
O cheiro de maçãs que há no inverno

VIMOS CHEGAR AS ANDORINHAS (Rosa Lobato de Faria)


Vimos chegar as andorinhas
conjugarem-se as estrelas
impacientarem-se os ventos
Agora
esperemos o verão
do teu nascimento tranquilos, preguiçosos
Tão inseparáveis as nossas fomes
Tão emaranhadas as nossas veias
Tão indestrutíveis os nossos sonhos
Espera-te um nome
breve como um beijo
e o reino ilimitado
dos meus braços
Virás
como a luz maior
no solstício de junho.

QUIMERA (Rosa Lobato de Faria)

Eu quis um violino no telhado
e uma arara exótica no banho.
Eu quis uma toalha de brocado
e um pavão real do meu tamanho.
Eu quis todos os cheiros do pecado
e toda a santidade que não tenho.

Eu quis uma pintura aos pés da cama
infinita de azul e perspectiva.
Eu quis ouvir ouvir a história de Mira Burana
na hora da orgia prometida.
Eu quis uma opulência de sultana
e a miséria amarga da mendiga.

Eu quis um vinho feito de medronho
de veneno, de beijos, de suspiros.
Eu quis a morte de viver dum sonho
eu quis a sorte de morrer dum tiro.
Eu quis chorar por ti durante o sono
eu quis ao acordar fugir contigo.

Mas tudo o que é excessivo é muito pouco.
Por isso fiquei só, com o meu corpo.

VI ( Rosa Lobato de Faria )

Outra coisa que o corpo há quem conheça. 
Eu não. Somente nele me cumpro viva. 
Poema, beijo, estrela, afago, intriga 
só no corpo me são pés e cabeça. 

E coração também que às vezes teça 
razão de me saber mais que a medida 
nessa trágica trama tão antiga 
a que chamam ficar de amor possessa. 

E é de novo poema, beijo, afago. 
É de novo no corpo que te trago 
A exótica festa da nudez, 

E tudo quanto sinto e quanto penso 
Toma corpo no corpo a que pertenço. 
E aqui estou: de barro, como vês.

O TEU AMOR ABSOLUTO (Rosa Lobato de Faria)

O teu amor absoluto
é como a hera que envolve as paredes da casa.
Quero ser a casa
e que arranhes a cal da minha pele
e te aninhes nos meus ouvidos fendas
e perturbes a porta minha boca.
E por fim
procures o perigo das janelas
e enfrentes os meus olhos
infinitos de mágoa
noite e assombração.
*Rosa Lobato de Faria, in "A Noite Inteira Já Não Chega Poesia."


QUERO DAR-TE ( Rosa Lobato de Faria )

Quero dar-te a coisa mais pequenina que houver
bago de arroz
grão de areia
semente de linho
suspiro de pássaro
pedra de sal
som de regato
a coisa mais pequena do mundo
a sombra do meu nome
o peso do meu coração na tua pele.
 

I (Rosa Lobato de Faria)

Vêm à poesia
como o sargaço à areia.
Ficam soltas, vadias
a namorar-me a veia.

Dizem coisas pequenas
pequenos sons, matizes
que bordam no poema
a borda do que dizes.

Engastam-se na pele                                                          
as palavras-vampiro
e ficam no papel
a latejar comigo.




 

VII ( Rosa Lobato de Faria )

De ti só quero o cheiro dos lilases
e a sedução das coisas que não dizes
De ti só quero os gestos que não fazes
e a tua voz de sombras e matizes

De ti só quero o riso que não ouço
quando não digo os versos que compus
De ti só quero a veia do pescoço
vampira que já sou da tua luz

De ti só quero as rosas amarelas
que há nos teus olhos cor das ventanias
De ti só quero um sopro nas janelas
da casa abandonada dos meus dias

De ti só quero o eco do teu nome
e um gosto que não sei de mar e mel
De ti só quero o pão da minha fome
mendiga que já sou da tua pele.



12/03/2017

A MOSCA AZUL ( Machado de Assis )

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Cheguei mais tarde de minha ausência
Reticências que só eu sei pensar
Coração, carne, cheiro de sexo,
Bálsamo da tinta quando se esparrama no papel
Parece que deita e se deleita de imaginar
Quer engolir o mundo e sair da linha
Apagar as pautas
Impostas
Com prazo, medidas para que eu seja feliz
Às vezes não suporto viver quando o sol esvazia
Então.
Desenho em mim girassol que vejo
E volta a te desejar
Egoico ler a vida em amarelo
Sem pausas virgulas e ponto
Alinhavos meus sonhos
E no retalho do tempo
Dou formas contornos
Rendas e conforto
Te amo
Tudo de novo!
(by Maria Fernanda Arruda)

VOYEUR (Maria  Fernanda  Arruda) 
Antes da noite do teu último homem
reunirei em mim, teus amores
me saberei mulher em teus sonhos
quem sabe a lua que me aponta
revele a direção de teu olhar
e nele, com sorte, me encontras.
Hoje em mim tuas sutilezas
teus hiatos
sem pudor toquei teu corpo
templo da delicadeza
Dono de minha poesia.
(by  Maria  Fernanda  Arruda)