30/05/2017

INUSITADOS  PRAZERES (Anna Amelia)
Preparei-me despi o meu corpo
retirei todas as vestes que o cobriam 
tomei um banho de águas claras. 
Perfumei-me com o frescor das montanhas 
chamei as estrelas mais brilhantes como cúmplices 
do acontecimento prestes a suceder, 
despejei em meu leito pétalas de flores silvestres, 
as mais cheirosas
Escancarei as janelas
purifiquei o ar de meu quarto, 
deixando a brisa entrar com o clarão do luar. 
Coloquei o Adágio de Albinoni baixinho. 
bebi um pouco de licor Amaretto. 
limpei do pensamento de qualquer incomodo 
estava pronta, para receber meu amor 
para vivermos aqueles prazeres, inusitados, 

que sabemos nos oferecer.


VOLÚPIA ( Dagmar Pinto )


Quinze anos. Mal despontam, insinuantes, 
E cobertos de gaze transparente, 
Despertando-nos um desejo ardente 
Rígidos, seios alvos, tremulantes.

Tem nos olhos um brilho reluzente. 
Vendo-os fitos em mim, claros, vibrantes, 
Sinto invadir-me as carnes delirantes 
A chama da volúpia, de repente. 

Ah! se humano olhar a alma devassasse, 
Talvez grande castigo me esperasse 
Se descendesse de algum tronco régio. 

Mas, o desejo da carne não reprime: 
Se desejá-la constitui crime 
Deixar de desejá-la é um sacrilégio.

NUA  DE  MIM (Dulcinea  Carmona)
Hoje acordei assim,
Com palavras tristes.
E me sentindo sem freio.
Sem destino.
Sem achar o caminho.
Só com o agora.
Parece que cheguei de algum lugar.
Sem memória, sem freio.
Não sei o que veio,
Desvendar algo novo
Mas que viveu comigo,
Uma vida inteira.
Transitei pelas minhas músicas
Pelas minhas janelas
Sem destino.
Transitei nua de mim.
Não sei quem sou.
Estou sem freio,
Sem memória.
Estou sem você.
E nua de mim.

CEREJAS E CIO ( Ângela Lara )


Quero as cerejas dentro de uma taça, 
Embriagadas de martini e gelo. 
Quero dizer-te vem e me abraça, 
Sorvendo em goles este teu apelo. 
No acre instante do nosso desejo, 
Beberei teu suco em goles pequenos, 
Olhando dentro dessa noite em pelo, 
A visão sutil dos nossos anseios. 
No cio presente da madrugada, 
Quero ser uma dama ou tua escrava, 
Uma presença que te marque inteiro. 
Eu quero ser tua final tortura 
Marcada em tua lembrança, farta e nua, 
Um verdadeiro cio em desespero.






CAIXINHA DE MÚSICA (Ana Mafalda Leite)

impregno-me em ti como um perfume

como quem veste a pele de odores ou a alma de cetins

quero que me enlaces ou me enfaixes de muitos laços

abraços fitas ou fios transparentes

 

em celofane brilhando uma prenda

uma menina te traz vestida de lumes

incandescendo incandescente

te quer embrulhado em véus de seda e brocado

 

encantada a serpente a flauta o mago

senhor a toca

e quando me toca

o corpo eu abro

 

caixinha de música

dentro

com bailarina que dança


MEU OUTRO EU (Anna Rosa Cruz)
Meu coração pulsa
Teu olhar
Persegue-me.
Enlouquecida aparento-me!
És minha louca fantasia
Serás o meu.
Último suspiro enganador.
Onde apagarei as mágoas.
E contabilizarei as alegrias,
Desprezando todas tristezas!
Os vãos da alma
Sofrida.
És o meu outro eu.
Cuja vida
Afoga-me
Nos mares da vida!



SER  MULHER (Arlinda Lamego)
Este instante existe, congelado no meu peito. 
Em dimensão poética, contigo tão presente, 
Qual chama alimentada com azeite, 
Sinto-me perdida com este amor crescente. 

Eu me debruço por sobre a imensidão 
Desta estrada do nosso imaginário. 
E, de mãos dadas, vou trilhando a ilusão 
Em ter contigo uma página de diário. 

Comendo morangos silvestres, amoras e cerejas, 
Colhido livremente às margens do teu rio 
Tomando banhos de sonhos em plena natureza. 

Vejo-me nua, vejo-me tua, eu sou mulher 
Que pensa, que sabe, que quer, que tem 
Pra dar sentimentos e sabor no que se quer.

29/05/2017

DELEITE (Cristina da Costa Pereira)


A carne fareja integral libertação
imperiosa faz-se entrega aos sentidos
desbragadamente.
Assim.
língua com voracidade de Píton
a vasculhar todos os guetos
olhar lançado qual rede magnética
a azeitar de desejo
escorrido
em coxas escancaradas
mão que vá tão fundo
e faça jorrar, por fim,
luz que desce das estrelas.




QUERO UMA LÍNGUA NOVA
(Dora Ribeiro)
Quero falar uma língua nova

principiada na carta do teu
corpo
sem escrita lúcida nem
modos genitivos

quero uma língua
já gasta
gentilizada
versada em todos os
paganismos sórdidos e
elegantes

imagino-a já enciclopédica
ruminante e
devoradora de esperas

língua sem contenção

musa de labirintos.



DESENHO (Angela Nassim)


desenhaste

com lábios
meu rosto e
corpo

descobriste
meus vales
montes e
recôncavos

desvendaste
meus segredos
enlevos e
anseios

descreveste
meus gozos
em tatos e
gestos

tiveste-me.


ALQUIMIA DA VIDA ( Rose Felliciano )


És as palavras quietas,
por vezes incertas.
És meu silêncio.
Percorres labirintos secretos 
Sobrevoas segredos
Mistérios mantidos no olhar.

Queres ainda que te ensines
a comigo voar ?
Oras! tens as asas, os sonhos,
Tens a força , o desejo de amar.
Use-as
aquietes o vento,
sejas abrigo.
Tuas mãos estão soltas
e prontas.
Tens um vasto e fértil jardim
Crie raízes em mim.
Ah! se escritos fossem
os poemas em nós guardados,
E moldados nosso amor em poesia.
Explosão de sentimentos
A alquimia da vida.
Por Deus, em nós, nesse momento.
aconteceria.



ERA MÚSICA AO LONGE
(Angela  Nassim)
era música
ao longe
suave
penetrando em nossos
sentidos
nossos corpos
se misturando
transformando
num só corpo.
depois

quedamos

em silêncio
num abandono
lasso

ficou

o momento.

mesmo distante

sinto o calor

dos seus abraços
sua pele colada
a minha
seu suor
misturado
ao meu

seus toques

explorando

meus segredos
que deixaram
de ser. 
PAPOILAS (Ana Mafalda Leite)
estou opiada de ti
e percorres-me os nervos todos
com papoilas borboletas vermelhas

o meu corpo entrança-se de sonhos
e sente-se caminhando por dentro

aspiro-te
como se me faltasse o ar
e os perfumes dançam-me

qualquer coisa como uma droga bem forte
corpo e alma
rezam pequenas orações
gestos ritmados ao abraçar-te como que abraça
sonhos

coisa estranha
opiada me preciso ou apenas vestida de papoilas e
muito sol com luas por dentro

para poder mastigar estes sonhos
reais como mandrágoras.

TU QUE NUNCA SERÁS ( Alfonsina Storni )


Sábado foi caprichoso o beijo dado,
Capricho de varão, audaz e fino
Mas foi doce o capricho masculino
A este meu coração, lobinho alado.


Não é que creia, não creio, se inclinado
sobre minhas mãos te senti divino
E me embriaguei, compreendo que este vinho
Não é para mim, mas jogo e roda o dado.


Eu sou a mulher que vive alerta,
Tu o tremendo varão que se desperta
E é uma torrente que se desvanece no rio


E mais se encrespa enquanto corre e poda.
Ah, resisto, mas me tens toda,
Tu, que nunca serás de todo meu.

A CARÍCIA PERDIDA ( Alfonsina Storni ) Tradução de Carlos Seabra


Sai-me dos dedos a carícia sem causa,
Sai-me dos dedos. No vento, ao passar,
A carícia que vaga sem destino nem fim,
A carícia perdida, quem a recolherá?
Posso amar esta noite com piedade infinita,
Posso amar ao primeiro que conseguir chegar.
Ninguém chega. Estão sós os floridos caminhos.
A carícia perdida, andará, andará.
Se nos olhos te beijarem esta noite, viajante,
Se estremece os ramos um doce suspirar,
Se te aperta os dedos uma mão pequena
Que te toma e te deixa, que te engana e se vai.
Se não vês essa mão, nem essa boca que beija,
Se é o ar quem tece a ilusão de beijar,
Ah, viajante, que tens como o céu os olhos,
No vento fundida, me reconhecerás?
FLOR DO DESEJO (Zena  Maciel)
Mar aberto
Vida fechada
Coração ao léu!
Flor do desejo!
Por onde andas?
Em que estrela cadente partistes
que se quer encontrei tua sombra?
Em qual coração adormecestes e 
não mais quisestes acordar?
Onde fizestes teu ninho?
Por que não levastes a minha dor como
tua companhia?
Rejeito adoçar meus dias com o
néctar da solidão
Perdida dentro de mim
não sei para onde ir
Sigo a estrada do nada como uma
louca peregrina errante
Busco-te em cada alvorecer
Desencanto-me em cada anoitecer
Mesmo assim,ainda te espero e te quero!
Vens cantar ao meu ouvido
Não importa a melodia
Engana-me com tolos desejos
Vens beijar minha saudade nua
Visita-me em sonhos
Desfolha a árvore da tristeza desta pobre alma dilacerada
Dê-me pelo menos um minuto fugaz
de falsa felicidade e vaís embora! 
MEMÓRIA NA PELE (Carlos G. Pontes)
Há uma memória indissolúvel
que guarda desejos
abraços
prazeres
que acorda no meio da noite
e espera o dia vir
com seu cheiro de mato e passarinho
há nesta memória
o registro dos momentos passageiros
do brilho dos olhos teus
dos prazeres repartidos
da resina do sexo entre nossas coxas
erupindo como se fôssemos mar revolto
em minha memória
és como uma tatuagem gravada no pescoço.

AS VINDIMAS DA NOITE (Maria do Sameiro Barroso)


As ancas, os ombros, as falésias flutuariam,
na noite onde se despenham as ravinas,
o corpo insidioso arrastando o mar, a boca,
os joelhos sonâmbulos,
os barcos que se cobrem de limos, grãos de areia,
esquecimento.

As harpas do horizonte ergueram-se já,
como árvores frondosas.
Nas colmeias de sangue, fervilha a rosa,
a corola verde, o tumultuoso nome,
o timbre infinito.

As ancas, os ombros, as falésias flutuariam,
na noite,
no vazio errante de um coração silábico
que se abre, suspenso,
por dentro das estrelas, à deriva.

No vazio leve das miragens, esconde-se,
nas vindimas da noite,
o corpo dormente da eternidade que rebenta,
silenciosa,
nos punhais ébrios de salsa, cinza,
aspergindo, na névoa minuciosa,
o ruir das telhas, entre ervas, dedos,

acariciados lentamente.

28/05/2017

CANÇÃO PRIMAVERIL (David Mourão Ferreira)


Anda no ar a excitação
de seios súbito exibidos
à torva luz de um alçapão,
por onde os corpos rolarão,
mordidos!
Ou é um deus, ou foi a morte
que nos vestiu este torpor;
e a primavera é um chicote,
abrindo as veias e o decote
ao meu amor!
Esqueço que os dedos têm ossos:
é só de sangue esta carícia;
apenas nervos os pescoços.
Mas nos teus olhos, nos meus olhos,
a luz da morte brilha.