06/06/2017

AMOR DESCONTROLADO OUSADO (Anna Carolina M. Martins)

Minhas ideias não tem como controlar.
Desequilibrei de vez nessa paixão, revolução,
Que me tira a razão, só penso com o coração.
Minha ideia agora é te roubar,
Para um lugar longe te levar,
E lá eternamente te amar.

Vamos fugir! Vamos para longe,
Onde o sol se esconde, assim como
Queremos nos esconder, para um ao outro ter.
Vamos nos lançar, nos amar.
Sentir nossos corpos a ardência louca da paixão.
E a volúpia de uma canção.

Teu corpo!? Como quero ter, possuí-lo de forma
Desvairada, ousada atrevida sem medo de querer,
De ter! E sentir prazer! Eu e você.
Do anoitecer virar amanhecer. Só desejo ter.

Teu corpo bronzeado, sabor do pecado,
Meus lábios melados, querendo do teu pecado.
Se lambuzar! Deixe-me ousar?

Vamos! Quero te sentir, meu corpo te pede,
Minha alma te clama, cresce a chama dos
Meus desejos vão começar pelos beijos,
Depois os abraços e juntos no mesmo compasso,
Sem embaraços vamos deslizando nossos pensamentos,
Assim como nossas mãos, em nossos corpos sedentos.
Quero realizar fantasias, desejos, vontades.
E você me mostrará que é meu homem de verdade.
Sou toda tua, toda nua, faz de mim o que quiser,
Mate a fome desta mulher.
Meu amor descontrolado, ousado! Cheio de pecado.
Gosto lambuzado do teu corpo suado.
Cheiro de nós dois.

É o absinto do meu prazer sou toda pra você.







05/06/2017

A CHUVA (Luiz  Sommerville  Junior)
Quero tanto
o teu corpo
que todo o meu sangue
é uma chaga
em ansiedade pelo milagre
da tua carne
regenerando os meus tecidos
a matéria da tua vida
injectando nas minhas veias
o bálsamo do teu sexo
em difusão por todo o meu ser
movimento teu
entranhando-me no vértice rosado
que tomando-me
me alastrará na tua mente
nesse teu pensamento
que é o caminho da alma infinita
onde o êxtase
abrindo
a origem da vida
sela o nosso amor
no livro imortal
das nossas vozes
em fogo - gemendo murmúrios
de lá para cá, de cá para lá
em coro uníssono gritando
os nomes que se noivaram
no momento em que descobriram
que antes
dos mares beijarem a terra
já os nossos corpos
molhavam os céus.




NOITE (Abgar  Renault)
Há duas pombas brancas no telhado. 
 Junto delas pousa o silêncio do dia já parado, 
 e entre asas caladas o primeiro gesto da noite vai crescendo. 
 É tarde nos telhados e nas árvores, 
 é tarde (triste e mais tarde) nessa rua 
 que se reabriu no fundo de um olhar, 
 onde se movem ressurrectos mármores 
 e começam a discorrer ventos e velas 
 por sobre a limpidez das mesmas águas velhas, 
 e pássaros azuis bicam frutos de astro soltos no ar. 
 Sobem (de onde?) vultos escuros de coisas e de entes, 
 alongam a última distância, somem a luz que se destece 
 e a linha dos caminhos, apagam o verde prado. 
 Não há duas pombas brancas no telhado: 
 sobre elas, seu voo e seu arrulho ausentes 
 a lápide sem cor das horas desce.

A RAINHA CARECA (Hilda Hilst)
De cabeleira farta
de rígidas ombreiras
de elegante beca
Ula era casta
Porque de passarinha
Era careca.
À noite alisava
O monte lisinho
Co’a lupa procurava
Um tênue fiozinho
Que há tempos avistara.
Ó céus! Exclamava.
Por que me fizeram
Tão farta de cabelos
Tão careca nos meios?
E chorava.
Um dia.
Passou pelo reino
Um biscate peludo
Vendendo venenos.
(Uma gota aguda
Pode ser remédio
Pra uma passarinha
De rainha.)
Convocado ao palácio
Ula fez com que entrasse
No seu quarto.
Não tema, cavalheiro,
Disse-lhe a rainha
Quero apenas pentelhos
Pra minha passarinha.
Ó Senhora! O biscate exclamou.
É pra agora!
E arrancou do próprio peito
Os pelos
E com saliva de ósculos
Colou-os
Concomitantemente penetrando-lhe os meios.
Ui! Ui! Ui! gemeu Ula
De felicidade
Cabeluda ou não
Rainha ou prostituta
Hei de ficar contigo
A vida toda!
Evidente que aos poucos
Despregou-se o tufo todo.
Mas isso o que importa?
Feliz, mui contentinha
A Rainha Ula já não chora.
Moral da estória:
Se o problema é relevante,
apela pro primeiro passante.
DRIDA, A MAGA PERVERSA E FRIA
(Hilda  Hilst)
Pairava sobre as casas
Defecava ratas
Andava pelas vias
Espalhando baratas
Assim era Drida
A maga perversa e fria.
Rabiscava a cada dia o seu diário.
Eis que na primeira página se lia:
Enforquei com a minha trança
O velho Jeremias.
E enforcado e de mastruço duro
Fiz com que a velha Inácia
Sentasse o cuzaço ralo
No dele dito cujo.
Sabem por quê?
Comeram-me a coruja.
Incendiei o buraco da Neguinha.
Uma criola estúpida
Que limpava remelas
De porcas criancinhas.
Perguntaram-me por que
Incendiei-lhe a rodela?
Pois um buraco fundo
De régia função
Mas que só tem valia
Se usado na contramão
Era por neguinha ignorado.
maldita ortodoxia!
Comi o cachorro do rei
Era um tipinho gay
Que ladrava fino
Mas enrabava o pato do vizinho.
Depenei o pato.
Sabem por quê?
Cagou no meu cercado.
E agora vou encher de traques
O caminho dos magos.
Com minha espada de palha e bosta seca
Me voy a Santiago.
Moral da história:
Se encontrares uma maga (antes
Que ela o faça), enraba-a.



QUERO-TE (Julieta Ferreira)

No calor rubro do teu abraço
Eu queimo o meu pesar.
Na chama ateada do teu corpo
Eu arrefeço o meu cansaço.
No brilho candente do teu olhar
Eu apago o meu passado morto.
No fogo ardente do teu beijo
Eu derrubo o meu fingimento.
Na centelha viva do teu desejo
Eu disperso o meu sofrimento.
Quero-te assim.
Nesse instante e para sempre
Perdida em êxtase me deter.
No labirinto de ti aprisionada
Suor a escorrer pelo meu ventre
Na entrega de mim desnudada.
A fêmea outrora adormecida
Surge agora ainda mais mulher
De máscaras já toda despida.
Quero-te em mim.
Do que antes eras esquecido
Na voragem da minha paixão.
De me possuíres tão sequioso
Alimentado no suco do prazer
Que umedece cálido e viscoso
Meu sexo que está ao teu unido.
Afundado num mar de emoção
Embriagado no auge de me ter.
Quero-te assim.
Bem fundo dentro de mim!



02/06/2017

REGRESSO A TI ( Ana Silvestre )

regresso a ti
nesta folha branca
ávida da languidez do teu olhar
mel em colher dourada
colhe o pólen da minha poesia
ás tuas mãos hábeis para o verso

meu amor
dança comigo a dança das letras
aqui onde meus dedos caminham
aticemos a discreta insanidade do sonho
acendamos a fogueira na raiz da utopia

atropelam-se arrepios no areal do corpo
reclamam o beijo, molhado, na baía da tua boca
soltam-se as amarras das letras
audaciosa a pena faz maravilhas
gravita nas entranhas das palavras

dança comigo teus versos
em compasso nos seios das palavras
nossos pensamentos nus encontram-se por aí
nas estrelas, na lua, colidem suas emoções
em perfeita comunhão de corpos.

a palavra é um ímpeto onde manuseamos o sentimento.


BEIJO-TE (Denis Correia Ferreira)

Beijo-te inteira
da cabeça aos pés
sem cerimônia
sem pudor.

Beijo-te inteira
sem pressa de acabar
com toda a calma do mundo
sem vontade de parar.

Beijo-te inteira
para o meu e o teu prazer
os meus lábios tocam tua pele
e se deliciam com a sua reação.

Beijo-te inteira
com ternura e com paixão
cada suspiro é uma sinfonia
feita de silêncios e sons.

Beijo-te inteira
com todo o meu ardor
com todo o meu carinho
com todo o meu amor.








PENETRAÇÃO ( Raimundo Sturaro )

Segue na colina o pássaro púrpura,
Cospe seu atro lamento,
Sangue banha os lábios da criança
Trago nos braços o silêncio.

Da crepuscular síncope divina.
Em aflição contorce o medo
O significado reacende o circunspecto passo
Cada vez mais fundo mergulha cego.

A sua cabeça vaga na umidade serena.
Milenar tarde negra, incoercível desejo,
Esvoaça a irmã imensa da melancolia
Acaricia o rígido membro.

Uma nova ordem passa pelos arcos sinistros
Uma lágrima fecha-se sobre os corpos.
Antecede o vazio do amor que pensei ter encontrado
Posterior a morte de todos os sonhos.


 



 

O ELIXIR DO PAJÉ (Bernardo Guimarães)
Eu te adoro, água divina,
santo elixir da tesão,
eu te dou meu coração,
eu te entrego a minha porra!
Faze que ela, sempre tesa,
e em tesão sempre crescendo,
sem cessar viva fodendo,
até que fodendo morra!
Sim, faze que este caralho,
por tua santa influência,
a todos vença em potência,
e, com gloriosos abonos,
seja logo proclamado,
vencedor de cem mil conos.
E seja em todas as rodas,
d’hoje em diante respeitado
como heroi de cem mil fodas,
por seus heroicos trabalhos,
eleito rei dos caralhos!
LUGAR (Simone Teodoro)
Aqui
onde foi abolido o hímen
úmido hífen.

Aqui
onde a língua é dinâmica
e dedos são talheres.

Aqui
onde o grelo
destrona o falo.

É rijo
É lindo
É talo.
MADEMOISELLE FURTA-COR
(Armando Freitas Filho)
Eu conheço o seu começo:
                ponto e novelo,
meada de mel e langor
                 de lentos elos
que a minha língua lambe
          no calor despido,
no meio das suas pernas:
         aneis de cabelos,
anelos e nós se desmancham
      em nada ou nódoa
por todo o lençol do corpo
           nu e amarrotado:
nós aqui somos todos laços
             e nos rasgamos
devagar – poro por poro;
           rumor de sedas
ou de uma pele toda feita
  de suor e suspiro:
eu soluço a cada susto seu
    que nos dissolve.
AMOR SEM COMPROMISSO
(Célia  Jardim)
Quero um amor sem compromisso,
feito de magia, feitiço,
que me encante todo dia,
com uma nova fantasia.
Quero um amor diferente,
um amor ardente,
amor que surpreende,
sem palavras tudo entende.
Quero um amor de um dia,
que não deixe minha vida vazia,
amor que chega devagar,
sem pressa de voltar.
Quero um amor sincero,
que me queira como quero,
amor sem compromisso,
diferente dos demais,
de um dia feito de muitos depois,
onde exista sempre nós dois.
Quero um amor que não cobra,
amor que tenha amor de sobra,
amor sem outro compromisso,
que seja por toda vida,
simplesmente tudo isso.