26/06/2017

O NOVO HOMEM (Carlos Drummond de Andrade)


O homem será feito 
em laboratório. 
Será tão perfeito como no antigório. 
Rirá como gente, 
beberá cerveja 
deliciadamente. 
Caçará narceja 
e bicho do mato. 
Jogará no bicho, 
tirará retrato 
com o maior capricho. 
Usará bermuda 
e gola roulée
Queimará arruda 
indo ao canjerê, 
e do não-objecto 
fará escultura. 
Será neoconcreto 
se houver censura. 
Ganhará dinheiro 
e muitos diplomas, 
fino cavalheiro 
em noventa idiomas. 
Chegará a Marte 
em seu cavalinho 
de ir a toda parte 
mesmo sem caminho. 
O homem será feito 
em laboratório 
muito mais perfeito 
do que no antigório. 
Dispensa-se amor, 
ternura ou desejo. 
Seja como for 
(até num bocejo) 
salta da retorta 
um senhor garoto. 
Vai abrindo a porta 
com riso maroto: 
«Nove meses, eu? 
Nem nove minutos.» 
Quem já concebeu 
melhores produtos? 
A dor não preside 
sua gestação. 
Seu nascer elide 
o sonho e a aflição. 
Nascerá bonito? 
Corpo bem talhado? 
Claro: não é mito, 
é planificado. 
Nele, tudo exacto, 
medido, bem posto: 
o justo formato, 
standard do rosto. 
Duzentos modelos, 
todos atraentes. 
(Escolher, ao vê-los, 
nossos descendentes.) 
Quer um sábio? Peça. 
Ministro? Encomende. 
Uma ficha impressa 
a todos atende. 
Perdão: acabou-se 
a época dos pais. 
Quem comia doce 
já não come mais. 
Não chame de filho 
este ser diverso 
que pisa o ladrilho 
de outro universo. 
Sua independência 
é total: sem marca 
de família, vence 
a lei do patriarca. 
Liberto da herança 
de sangue ou de afecto, 
desconhece a aliança 
de avô com seu neto. 
Pai: macromolécula; 
mãe: tubo de ensaio, 
e, per omnia secula
livre, papagaio, sem memória e sexo, 
feliz, por que não? 
pois rompeu o nexo 
da velha Criação, 
eis que o homem feito 
em laboratório 
sem qualquer defeito 
como no antigório, 
acabou com o homem.
       Bem feito.

DESTRUIÇÃO ( Carlos Drummond de Andrade ) in Lição de Coisas


Os amantes se amam cruelmente
e com se amarem tanto não se veem: 
Um se beija no outro, reflectido. 
Dois amantes que são? Dois inimigos. 

Amantes são meninos estragados 
pelo mimo de amar: e não percebem 
quanto se pulverizam no enlaçar-se, 
e como o que era mundo volve a nada. 

Nada, ninguém. Amor, puro fantasma 
que os passeia de leve, assim a cobra 
se imprime na lembrança de seu trilho. 

E eles quedam mordidos para sempre. 
Deixaram de existir, mas o existido 
continua a doer eternamente.

BALADA DO AMOR ATRAVÉS DAS IDADES ( Carlos D. de Andrade )

Eu te gosto, você me gosta 
desde tempos imemoriais. 
Eu era grego, você troiana, 
troiana mas não Helena. 
Saí do cavalo de pau 
para matar seu irmão. 
Matei, brigamos, morremos. 

Virei soldado romano, 
perseguidor de cristãos
Na porta da catacumba 
encontrei-te novamente. 
Mas quando vi você nua 
caída na areia do circo 
e o leão que vinha vindo, 
dei um pulo desesperado 
e o leão comeu nós dois. 
Depois fui pirata mouro, 
flagelo da Tripolitânia. 
Toquei fogo na fragata 
onde você se escondia 
da fúria de meu bergantim. 
Mas quando ia te pegar 
e te fazer minha escrava, 
você fez o sinal-da-cruz 
e rasgou o peito a punhal.
Me suicidei também. 
Depois (tempos mais amenos) 
fui cortesão de Versailles, 
espirituoso e devasso. 
Você cismou de ser freira. 
Pulei muro de convento 
mas complicações políticas 
nos levaram à guilhotina. 

Hoje sou moço moderno, 
remo, pulo, danço, boxo, 
tenho dinheiro no banco. 
Você é uma loura notável, 
boxa, dança, pula, rema. 
Seu pai é que não faz gosto. 
Mas depois de mil peripécias, 
eu, heroi da Paramount, 
te abraço, beijo e casamos. 

23/06/2017

VÉSPERA (Carlos Drummond de Andrade)

Amor: em teu regaço as formas sonham
o instante de existir: ainda é bem cedo 
para acordar, sofrer. Nem se conhecem 
os que se destruirão em teu bruxedo. 

Nem tu sabes, amor, que te aproximas 
a passo de veludo. És tão secreto, 
reticente e ardiloso, que semelhas 
uma casa fugindo ao arquitecto. 

Que presságios circulam pelo éter, 
que signos de paixão, que suspirália 
hesita em consumar-se, como flúor, 
se não a roça enfim tua sandália? 

Não queres morder célere nem forte. 
Evitas o clarão aberto em susto. 
Examinas cada alma. É fogo inerte? 
O sacrifício há de ser lento e augusto. 

Então, amor, escolhes o disfarce. 
Como brincas (e és sério) em cabriolas, 
em risadas sem modo, pés descalços, 
no círculo de luz que desenrolas! 

Contempla este jardim: os namorados, 
dois a dois, lábio a lábio, vão seguindo 
de teu capricho o hermético astrolábio, 
e perseguem o sol no dia findo. 

E se deitam na relva; e se enlaçando 
num desejo menor, ou na indecisa 
procura de si mesmos, que se expande, 
corpóreos, são mais leves do que brisa. 

E na montanha-russa o grito unânime 
é medo e gozo ingénuo, repartido 
em casais que se fundem, mas sem flama, 
que só mais tarde o peito é consumido. 

Olha, amor, o que fazes desses jovens 
(ou velhos) debruçados na água mansa, 
relendo a sem-palavra das estórias 
que nosso entendimento não alcança. 

Na pressa dos comboios, entre silvos, 
carregadores e campainhas, rouca 
explosão de viagem, como é lírico 
o batom a fugir de uma a outra boca. 

Assim teus namorados se prospectam: 
um é mina do outro; e não se esgota 
esse ouro surpreendido nas cavernas 
de que o instinto possui a esquiva rota. 

Serão cegos, autómatos, escravos 
de um deus sem caridade e sem presença? 
Mas sorriem os olhos, e que claros 
gestos de integração, na noite densa! 

Não ensaies de mais as tuas vítimas
ó amor, deixa em paz os namorados 
Eles guardam em si, coral sem ritmo,
os infernos futuros e passados.
QUANDO CHEGARES (Carlos  Lyra)
Quando chegares aqui
Podes entrar sem bater
Ligue a vitrola baixinho
Espera o anoitecer.

Logo que ouvires meus passos
Corre pra me receber
Sorri, me beija e me abraça
Não me perguntes por quê.

Quando estiver em teus braços
Pensa somente em nós dois
Fecha de leve os teus olhos
E abre os teus lábios depois.

E quando já for bem cedinho
Não quero ouvir tua voz
Sai sem adeus, de mansinho
Esquece o que ouve entre nós.

A  PRIMEIRA  FATIA
(Carlos  Lyra & Paulo  César  Pinheiro)
A quem darei a primeira fatia
Quem comerá o primeiro pedaço
Como será que na hora eu ficarei
Se chorando de dor
Ou se eu gritarei
Louca de amor.

Poderá ser a primeira alegria
Como também, o primeiro fracasso
Porque eu não sei de quem eu serei mulher
Diz, meu Deus, o que é
Que eu faço.

De quem será a primeira carícia
Quem colherá minha rosa mais pura
Quem vai deitar o seu corpo sobre o meu
E manchar meus lençois
Quem será meu senhor
Ou meu algoz.

Poderá ser a primeira delícia
Como também, a primeira amargura
Eu já nem sei de que modo devo agir
Virgem Santa, mas que
Loucura!

19/06/2017

EU SONHEI QUE TU ESTAVAS TÃO LINDA ( Lamartine Babo )


Eu sonhei que tu estavas tão linda
Numa festa de raro esplendor
Teu vestido de baile lembro ainda
Era branco 
Todo branco 
Meu amor 
A orquestra tocou uma valsa dolente
Tomei-te aos braços 
Fomos dançando
Ambos silentes 
E os pares que rodeavam entre nós
Diziam coisas 
Trocavam juras
A meia voz 
Violinos enchiam o ar de emoções
E de desejos uma centena de corações 
Pra despertar teu ciúme
Tentei flertar alguém
Mas tu não flertaste ninguém 
Olhavas só para mim
Vitórias de amor cantei
Mas foi tudo um sonho acordei.

14/06/2017

PARA ATRAVESSAR CONTIGO O DESERTO DO MUNDO (Sophia de Mello Breyner Andresen) in 'Livro Sexto'


Para atravessar contigo o deserto do mundo 
Para enfrentarmos juntos o terror da morte 
Para ver a verdade para perder o medo 
Ao lado dos teus passos caminhei. 

Por ti deixei meu reino meu segredo 
Minha rápida noite meu silêncio 
Minha pérola redonda e seu oriente 
Meu espelho minha vida minha imagem 
E abandonei os jardins do paraíso.

Cá fora à luz sem véu do dia duro 
Sem os espelhos vi que estava nua 
E ao descampado se chamava tempo. 

Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento.

MASTURBAÇÃO ( Angela Lara )

Saudade do beijo na chuva,
da mão estendida, 
do coito sem medo, 
da frase sentida, 
do corpo em brasa, 
da fusão das palavras, 
sussurros em pelo, 
tesão dos sabores, 
do olhar de magia 
na hora do gozo 
nas tantas manhãs 
que me toco em segredo.

DO DESEJO I ( Hilda Hilst )

Porque há desejo em mim, é tudo cintilância.
Antes, o cotidiano era um pensar alturas
Buscando Aquele Outro decantado
Surdo à minha humana ladradura.
Visgo e suor, pois nunca se faziam.
Hoje, de carne e osso, laborioso, lascivo
Tomas-me o corpo. E que descanso me dás
Depois das lidas. Sonhei penhascos
Quando havia o jardim aqui ao lado.
Pensei subidas onde não havia rastros.
Extasiada, fodo contigo
Ao invés de ganir diante do Nada.

DESENHO 2 ( Cecília Meireles )


Fui morena e magrinha como qualquer polinésia,
e comia mamão, e mirava a flor da goiaba.
E as lágrimas me espiavam, entre os tijolos e as trepadeiras,
e as teias de aranha nas minhas árvores se entrelaçavam

Isso era um lugar de sol e nuvens brancas,
onde as rolas, à tarde, soluçavam mui saudosas.
O eco, burlão, de pedra, ia saltando,
entre vastas mangueiras que choviam ruivas horas.

Os pavões caminhavam tão naturais por meu caminho,
e os pombos tão felizes se alimentavam pelas escadas,
que era desnecessário crescer, pensar, escrever poemas,
pois a vida completa e bela e terna ali já estava.

Com a chuva caía das grossas nuvens, perfumosa!
E o papagaio como ficava sonolento!
O relógio era festa de ouro; e os gatos enigmáticos
fechavam os olhos, quando queriam caçar o tempo.

Vinham morcegos, à noite, picar os sapotis maduros,
e os grandes cães ladravam como nas noites do Império.
Mariposas, jasmins, tinhorões, vaga-lumes
moravam nos jardins sussurrantes e eternos.

E minha avó cantava e cosia. Cantava
canções de mar e de arvoredo, em língua antiga.
E eu sempre acreditei que havia música em seus dedos
e palavras de amor em minha roupa escritas.

Minha vida começa num vergel colorido,
por onde as noites eram só de luar e estrelas.
Levai-me aonde quiserdes! - aprendi com as primaveras
a deixar-me cortar e a voltar sempre inteira.



PACTO (Luhli & Lucina)
Pediria a certeza da chuva 
sopraria a surpresa dos ventos 
sentiria a nobreza da pedra bruta
viajaria na força do pensamento.

Choraria a tristeza do mundo 
beberia a riqueza da lama 
me alçaria com as aves num voo farto 
gritaria com o mar num bramido largo.

E meu corpo seria uma chama etérea amando
e o amor energia de luz infinita sendo
e o curso dos rios do sangue 
e da seiva ardendo 
é o caminho ansiado que estamos buscando.

CÂNTICO 10 - ESTE É O CAMINHO (Cecília Meireles)


Este é o caminho de todos que virão.
Para te louvarem.
Para não te verem.
Para te cobrirem de maldição.
Os teus braços são muito curtos.
E é larguíssimo este caminho.
Com eles não poderás impedir
Que passem, os que terão de passar,
Nem que fiques de pé,
Na mais alta montanha,
Com os teus braços em cruz.




13/06/2017

TRANSA DE PALAVRAS (Bruno Barros)


Justifico a poesia desabotoando botões,
Sem ousadas mãos,
Com roupas ao vento e
Seus joelhos ao chão.

Na tranquilidade de nossa cama
Entrelaçou-me em pernas brancas.
Entre os macios dedos e toques
Lábios meus nos seios teus.

Com nossas sujas palavras,
Quão tórridos fomos intensos.
Desde o alto calor imponente,
À malícia sempre presente.

Comia-me com pequenos olhares,
Dominando-te com euforia,
Fazendo banquete no sexo meu,
Molhando-o com doce saliva.

Genuína vida perfumada
Junto a teus baixos encantos.
No caminho da flor desabrochada,
Minha língua adentrava.

Mas é apenas penetrando bem fundo,
Chegando à essência nossa,
Que sabemos como foi complicado:
Tornar duas almas em uma,
Adentrar em ti,
Ser bem amado.

Embriagou-me o íntimo,
Com o presente suor metido.
Criando música em meus ouvidos,
Ritmando seus gemidos.

E prestes a explodir,
Manchamos o ardente lençol,
Contraindo pés e mãos,
Numa gozada conclusão,
De que nós chegamos ao fim.


CÂNTICO 05 - ESSE TEU CORPO (Cecília Meireles)


Esse teu corpo é um fardo.
É uma grande montanha abafando-te.
Não te deixando sentir o vento livre
Do infinito.
Quebra o teu corpo em cavernas
Para dentro de ti rugir
A força livre do ar.
Destroi mais essa prisão de pedra.
Faze-te recepo.
Âmbito.
Espaço.
Amplia-te.
Sê o grande sopro
Que circula.

CÂNTICO 17 - PERGUNTARÃO PELA TUA ALMA (Cecília Meireles)


Perguntarão pela tua alma.
A alma que é ternura,
Bondade,
Tristeza,
Amor.
Mas tu mostrarás a curva do teu voo
Livre, por entre os mundos.
E eles compreenderão que a alma pesa.
Que é um segundo corpo,
E mais amargo,
Porque não se pode mostrar,
Porque ninguém pode ver.

CÂNTICO 07 - NÃO AMES (Cecília Meireles)


Não ames como os homens amam.
Não ames com amor.
Amor sem amor.
Ama sem querer.
Ama sem sentir.
Ama como se fosses outro.
Como se fosses amar.
Sem esperar.
Por não esperar.
Tão separado do que ama, em ti,
Que não te inquiete
Se o amor leva à felicidade,
Se leva à morte,
Se leva a algum destino.
Se te leva.
E se vai, ele mesmo. 

TUA AUSÊNCIA ( Celso Brasil )


Tua ausência deitou-se comigo
Nesta noite de ares enfadonhos.
Tocou minh’alma. Toque incisivo.
Penetrando tocou meus sonhos.

Tua ausência abraçou todo meu ser,
Senti aquela que não mais existe.
Despertou-me friamente ao amanhecer,
Mostrando-me um quarto vazio e triste.

Tua ausência caminhou pela sala.
Encarnou-se em teu belo retrato
No quadro sombrio que deixaras
Na angustiosa saudade emoldurado.

Tua ausência plantou-se no jardim,
Cravando raízes profundamente.
Crescendo ao lado dos jasmins,
Espalhando mais tuas sementes.

Tua ausência pôs música no ar,
Antigos sons que te recordam.
Lágrimas dos olhos a jorrar.
Tempos belos que não retornam.

Tua ausência enfim, presente se fez.
Por todo tempo comigo ficou.
Triste verbo bardo para sempre, talvez.
Neste poeta se incorporou.
 

CÂNTICO 02 - NÃO SEJAS O DE HOJE (Cecília Meireles)


Não sejas o de hoje.
Não suspires por ontens.
Não queiras ser o de amanhã.
Faze-te sem limites no tempo.
Vê a tua vida em todas as origens.
Em todas as existências.
Em todas as mortes.
E sabe que serás assim para sempre.
Não queiras marcar a tua passagem.
Ela prossegue:
É a passagem que se continua.
É a tua eternidade.
É a eternidade.
És tu.

AMAR E SER AMADO (Castro Alves)
Amar e ser amado! Com que anelo
Com quanto ardor este adorado sonho
Acalentei em meu delírio ardente
Por essas doces noites de desvelo!
Ser amado por ti, o teu alento
A bafejar-me a abrasadora frente!
Em teus olhos mirar meu pensamento,
Sentir em mim tu’alma, ter só vida
P’ra tão puro e celeste sentimento:
Ver nossas vidas quais dois mansos rios,
Juntos, juntos perderem-se no oceano —,
Beijar teus dedos em delírio insano
Nossas almas unidas, nosso alento,
Confundido também, amante — amado —
Como um anjo feliz, que pensamento!



12/06/2017

FLOR DA CARNE (Lenny Lima e Silva)
Que coisa é essa?
Eu te intumesço,
Você me umedece
Deixa-me às avessas.
E desce, sem pressa.
E sua boca desce
E sobe e desce
E cresce
E o desejo floresce.
E o rosto enrubesce.
E sobe e desce.
E o corpo incandesce.
De repente
A terra estremece.
E vira e mexe
E sobe e desce.
Paixão inconfessa
E mexe e remexe.
E rompe, e irrompe.
Desejo liquefeito.
Satisfeito.
O corpo adormece.
Até que novamente se enlouquece.
E tudo recomeça!


MEU CORPO SENTE O TEU CORPO
(Cláudio  Peres)
Meu corpo sente
o teu corpo!
Quente,
nu e poderoso,
a deslizar gostoso
sobre si.
Suado,
exalando o aroma
que antecede o gozo,
perfuma o ambiente
e abre-se completamente
para engolir meu fogo,
afogando-me aos poucos
neste mar fremente
de águas quentes,
que sua fenda em brasa
mantém selada
e que sinto ferver
estremecer

a cada
estocada.



MULHER  (Dora  Brisa)
Não sou mulher de uma noite
Nem de um dia só.

Sou mulher que tem mais fases
Que a lua
Mais estrelas
Que o céu
Mais calor
Que o sol
Mais segredos
Que o universo.

Não sou mulher para comemorar
Um dia
Que nada mais é
Que um dia
Um dia qualquer.

Não sou mulher de receber flores
Quero logo o jardim.

Não sou mulher de uma vida
Nem "foi bom enquanto durou"
Da lembrança banida
No tempo que passou.

Não sou mulher do amanhã
(Amanhã será outro dia)

Sou a mulher bandida
Vadia
Mendiga
Vazia.

Mulher que perambula na rua
Com pouca roupa
Maltrapilha, louca
De alma nua.

Sou a mulher do infinito
Meu nome é eternidade
Neste dia não deixo sequer o meu grito.

Sou a mulher que passa na esquina
Carregando crianças pela mão
Trouxa de roupas a lavar
Carrinho de papelão
Marido bêbado a escandalizar.

Sou a mulher que apanha
Em casa
Na calçada
No trabalho
Só porrada.

Sou a mulher que cala
Consente
Fala
Mente.

Sou mulher que não tem dia
Tempo
Hora
Memória.

Mulher sem identidade
Sem história.

Amores? Todos que vivi.
Sou apenas (mais uma) mulher.
Meu nome? Geni.

SONHOS NO ENTARDECER
(Lenny  Lima  e  Silva)
Teu corpo nu
Entregue à nudez
Do corpo meu.
Sem pudores, sem tabu.
Doce embriaguês.
A noite traz seu breu.
Nosso sonho vaga solto
Feito barco num mar em calmaria,
Passeamos no mundo da fantasia
Numa mais louca alegria
Vulcões entram em erupções
Incendeiam nossas emoções
Iluminam nossos rostos.
Deixas-me louca com estes teus gostos.
Saliva doce, corpos descompostos.
Amor em explosão
Com o fogo da paixão.