11/08/2017

MÃOS, TOQUES, DESEJOS
(Líria Bordinhão Dahlke)
Aquelas mãos em toques eternos
em alguns minutos apenas horas se tornaram
Eternos movimentos das pontas dos dedos
Procuravam retorno desejado presente na pele.

Cúmplices, entrelaçados
Numa imagem sem nome, sem entendimento
Sem cobranças
Somente sentimento e desejo.

Adoradora química
Dos lábios fortes em toques essenciais
Que nem o melhor de todos que já tive
Poderia imaginar.

ALCOÓLICAS - III ( Hilda Hilst )


Alturas, tiras, subo-as, recorto-as
E pairamos as duas, eu e a vida
No carmim da borrasca. Embriagadas
Mergulhamos nítidas num borraçal que coaxa.
Que estilosa galhofa. Que desempenados
Serafins. Nós duas nos vapores
Lobotômicas líricas, e a gaivagem
se transforma em galarim, e é translúcida
A lama e é extremoso o nada.
Descasco o dementado cotidiano
E seu rito pastoso de parábolas.
Pacientes, canonisas, muito bem-educadas
Aguardamos o tépido poente, o copo, a casa.
Ah, o todo se dignifica quando a vida é líquida.


ÁRIAS PEQUENAS PARA BANDOLIM ( Hilda Hilst )

Antes que o mundo acabe, Túlio,
Deita-te e prova
Esse milagre do gosto
Que se fez na minha boca
Enquanto o mundo grita
Belicoso. E ao meu lado
Te fazes árabe, me faço israelita
E nos cobrimos de beijos
E de flores
Antes que o mundo se acabe
Antes que acabe em nós
Nosso desejo. 

ALCOÓLICAS - V ( Hilda Hilst )

Te amo, vida, líquida esteira onde me deito
Romã baba alcaçuz, teu trançado rosado
Salpicado de negro, de doçuras e iras.
Te amo, líquida, descendo escorrida
Pela víscera, e assim esquecendo
Fomes
País
O riso solto
A dentadura etérea
Bola
Miséria.
Bebendo, vida, invento casa, comida
E um mais que se agiganta, um mais
Conquistando um fulcro potente na garganta
Um látego, uma chama, um canto. Amo-me.
Embriagada. Interdita. Ama-me. Sou menos
Quando não sou líquida.
ALCOÓLICAS-IV (Hilda Hilst)
E bebendo, vida, recusamos o sólido
O nodoso, a friez-armadilha
De algum rosto sóbrio, certa voz
Que se amplia, certo olhar que condena
O nosso olhar gasoso: então, bebendo?
E respondemos lassas lérias letícias
O lusco das lagartixas, o lustrino
Das quilhas, barcas, gaivotas, drenos
E afasta-se de nós o sólido de fechado cenho.
Rejubilam-se nossas coronárias. Rejubilo-me
Na noite navegada, e rio, rio, e remendo
Meu casaco rosso tecido de açucena.
Se dedutiva e líquida, a Vida é plena.
ALCOÓLICAS-II  (Hilda  Hilst)
Também são cruas e duras as palavras e as caras
Antes de nos sentarmos à mesa, tu e eu, vida
Diante do coruscante ouro da bebida. Aos poucos
Vão se fazendo remansos, lentilhas d'água, diamantes
Sobre os insultos do passado e do agora. Aos poucos
Somos duas senhoras, encharcadas de riso, rosadas
De um amora, um que entrevi no teu hálito, amigo
Quando me permitiste o paraíso. O sinistro das horas
Vai se fazendo tempo de conquista. Langor e sofrimento
Vão se fazendo olvido. Depois deitadas, a morte
É um rei que nos visita e nos cobre de mirra.
Sussurras: ah, a vida é líquida.

A VIDA É LÍQUIDA ( Hilda Hilst ) in Alcoólicas, 1990.

É crua a vida. Alça de tripa e metal.
Nela despenco: pedra mórula ferida.
É crua e dura a vida. Como um naco de víbora.
Como-a no livro da língua
Tinta, lavo-te os antebraços, Vida, lavo-me
No estreito-pouco
Do meu corpo, lavo as vigas dos ossos, minha vida
Tua unha púmblea, me casaco rosso
E perambulamos de coturno pela rua
Rubras, góticas, altas de corpo e copos.
A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos.
E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima
Olho d'água, bebida. A vida é líquida.

Também são cruas e duras as palavras e as caras
Antes de nos sentarmos à mesa, tu e eu, Vida
Diante do coruscante ouro da bebida. Aos poucos
Vão se fazendo remansos, lentilhas d'água, diamantes
Sobre os insultos do passado e do agora. Aos poucos
Somos duas senhoras, encharcadas de riso, rosadas
De um amora, um que entrevi no teu hálito, amigo
Quando me permitiste o paraíso. O sinistro das horas
Vai se fazendo olvido. Depois deitadas, a morte
É um rei que nos visita e nos cobre de mirra.
Sussuras: ah, a vida é líquida.

AO AMIGO (Hilda Hilst)

I
Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse
Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.
Te olhei. E há tanto tempo
Entendo que sou terra. Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta
Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento.

NO RASTRO DA LUA CHEIA (Almir Sater & Renato Teixeira)


No quintal lá de casa
Passava um pequeno rio
Que descia lá da serra
Ligeiro escorregadio
A agua era cristalina
Que dava pra ver o chão
Ia cortando a floresta
Na direção do sertão
Lembrança ainda me resta
Guardada no coração.

E tudo era azul celeste
Brasileiro cor de anil
Nem bem começava o ano
Já era final de abril
O vento pastoreando
Aquelas nuvens no céu.
Fazia o mundo girar
Veloz como um carrossel
E levantava a poeira
E me arrancava o chapéu

Ah o tempo faz, tempo desfaz
E vai além sempre.

A vida vem lá de longe
É como se fosse um rio
Pra rio pequeno canoa
Pros grandes rios navios
E bem lá no fim de tudo
Começo de outro lugar
Será como Deus quiser
Como o destino mandar
No rastro da lua cheia
Se chega em qualquer lugar!

08/08/2017

SOU-TE NINHO ( Fátima Guimarães )


No teu rosto
repousa a madrugada
de fatigados pássaros.

Poisas a cabeça
no meu peito
onde ainda há pouco
o vento cantava
e os meus seios eram eco
de teus incontidos desejos.
Sou-te ninho!

TRAGO MORANGOS NA BOCA (Alice Fergo)

Trago morangos na boca
E amoras no desejo
Penduradas à cintura
Noites – romãs, bago a beijo.
Sou cesta de fruta doce
Cheiro a terra a madrugar
Dispo debaixo das árvores
Nuvens que um pássaro me trouxe
Dos abismos de trovar.
Silvestre, mulher e frágua
Bebo das fontes a água,
Sedes minhas, a matar.

MAREAR (Fátima Guimarães & Joaquim Monteiro)


Respiro a tua pele nos meus dedos
Colho a tua saliva em meus lábios
Beijo o mar dos teus segredos.
E sou barco, timoneiro e passageiro
Aquele que voga no ondular das vagas
Que navega em tuas águas
E te sulca em espasmos de alegria.
Afogado em teu ventre dou à costa
Como náufrago boiando sobre teus seios
E ressuscito com minha boca sobre a tua
O meu peito arfando sobre o teu.
As minhas mãos em tua praia
E sou espuma do sal que te beija.
A alga macia na seda ondulante
Sabe agora o teu corpo a maresia
Os teus olhos brilham, mar azul
Espelham o voo rasante das gaivotas
Em dia de tempestade e calmaria.

FÊMEA - FÊNIX (Conceição Evaristo) in “Poemas da Recordação e Outros Movimentos”.BH: Nandyala, 2008.

(Para Léa Garcia )
Navego-me eu–mulher e não temo,
sei da falsa maciez das águas
e quando o receio
me busca, não temo o medo,
sei que posso me deslizar
nas pedras e me sair ilesa,
com o corpo marcado pelo olor
da lama.
Abraso-me eu-mulher e não temo,
sei do inebriante calor da queima
e quando o temor
me visita, não temo o receio,
sei que posso me lançar ao fogo
e da fogueira me sair inunda,
com o corpo ameigado pelo odor
da chama.
Deserto-me eu-mulher e não temo,
sei do cativante vazio da miragem,
e quando o pavor
em mim aloja, não temo o medo,
sei que posso me fundir ao só,
e em solo ressurgir inteira
com o corpo banhado pelo suor
da faina.
Vivifico-me eu-mulher e teimo,
na vital carícia de meu cio,
na cálida coragem de meu corpo,
no infindo laço da vida,
que jaz em mim
e renasce flor fecunda.
Vivifico-me eu-mulher.
Fêmea. Fênix. Eu fecundo.

A NOITE NÃO ADORMECE NOS OLHOS DAS MULHERES (Conceição Evaristo)in Cadernos Negros, vol. 19.

(Em memória de Beatriz Nascimento)
A noite não adormece
nos olhos das mulheres
a lua fêmea, semelhante nossa,
em vigília atenta vigia
a nossa memória.
A noite não adormece
nos olhos das mulheres
há mais olhos que sono
onde lágrimas suspensas
virgulam o lapso
de nossas molhadas lembranças.
A noite não adormece
nos olhos das mulheres
vaginas abertas
retêm e expulsam a vida
donde Ainás, Nzingas, Ngambeles
e outras meninas luas
afastam delas e de nós
os nossos cálices de lágrimas.
A noite não adormecerá
jamais nos olhos das fêmeas
pois do nosso sangue-mulher
de nosso líquido lembradiço
em cada gota que jorra
um fio invisível e tônico
pacientemente cose a rede.

Por Conceição Evaristo, “Poemas da Recordação e Outros Movimentos”. BH: Nandyala, 2008.

Do fogo que em mim arde
Sim, eu trago o fogo,
o outro,
não aquele que te apraz.
Ele queima sim,
é chama voraz
que derrete o bivo de teu pincel
incendiando até ás cinzas
O desejo-desenho que fazes de mim.
Sim, eu trago o fogo,
o outro,
aquele que me faz,
e que molda a dura pena
de minha escrita.
é este o fogo,
o meu, o que me arde
e cunha a minha face
na letra desenho
do auto-retrato meu.

N'ALGUM LUGAR ( E. E. Cummings )


N’algum lugar em que eu nunca estive,
Alegremente além de qualquer experiência, teus olhos têm o seu silêncio:
No teu gesto mais frágil há coisas que me encerram
Ou que eu não ouso tocar porque estão demasiado perto
Teu mais ligeiro olhar facilmente me descerra
Embora eu tenha me fechado como dedos, nalgum lugar
Me abres sempre pétala por pétala como a primavera abre
(tocando sutilmente, misteriosamente) a sua primeira rosa

Ou se quiseres me ver fechado, eu e
Minha vida nos fecharemos belamente, de repente,
Assim como o coração desta flor imagina
A neve cuidadosamente descendo em toda a parte;

Nada que eu possa perceber neste universo iguala
O poder de tua imensa fragilidade: cuja textura
Compele-me com a cor de seus continentes,
Restituindo a morte e o sempre cada vez que respira

(não sei dizer o que há em ti que fecha
E abre; só uma parte de mim compreende que a
Voz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas)
Ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas!
(Traduzido por Augusto de Campos)

EU GOSTO DO MEU CORPO (E. E. Cummings)
eu gosto do meu corpo quando está com o seu
corpo. É uma coisa tão nova e viva.
Melhores músculos, nervos mais.
eu gosto do seu corpo e do que ele faz,
eu gosto dos seus comos. de tatear as vértebras
 do seu corpo, a sua treme
-lisa-firmeza e que eu quero
mais e mais e mais
beijar, gosto de beijar isso e aquilo de você,
gosto de, lentamente golpeando o choque
do seu velo elétrico e o-que-quer-que freme
sobre a carne bipartida. E olhos migalhas
de amor grandes e acho que gosto de ver sob mim
você vibrar tão viva e nova assim.
(Tradução de Augusto de Campos)

LATEJA-ME NOS DEDOS(Fátima Guimarães)


Lateja-me nos dedos cada prega do teu corpo
Na pele nua a maciez da tua pele
No corpo inunda-me a quentura da tua seiva
A lua está linda, resplandecente
mas para quê a lua se nos lábios
persiste a ternura de uma gota de orvalho
Deliciada fecho os olhos.
Deixo a minha mão escorregar
pelo teu corpo macio
Adormeço.

VOZES-MULHERES (Conceição Evaristo) in “Poemas da Recordação e Outros Movimentos”.BH:Nandyala,2008.


A voz de minha bisavó
ecoou criança
nos porões do navio.
ecoou lamentos
de uma infância perdida.
A voz de minha avó
ecoou obediência
aos brancos-donos de tudo.
A voz de minha mãe
ecoou baixinho revolta
no fundo das cozinhas alheias
debaixo das trouxas
roupagens sujas dos brancos
pelo caminho empoeirado
rumo à favela.
A minha voz ainda
ecoa versos perplexos
com rimas de sangue
e
fome.
A voz de minha filha
recolhe todas as nossas vozes
recolhe em si
as vozes mudas caladas
engasgadas nas gargantas.
A voz de minha filha
recolhe em si
a fala e o ato.
O ontem – o hoje – o agora.
Na voz de minha filha
se fará ouvir a ressonância
o eco da vida-liberdade.

MEU GLORIOSO PECADO III ( Gilka Machado )


A que buscas em mim,
que vive em meio de nós,
e nos unindo nos separa,
não sei bem aonde vai,
de onde veio,
trago-a no sangue
assim como uma tara.
Dou-te a carne que sou
Mas teu anseio
fora possuí-la –
a espiritual, a rara,
essa que tem o olhar
ao mundo alheio,
essa que tão somente
astros encara.
Por que não sou
como as demais mulheres?
Sinto que, me possuindo,
em mim preferes
aquela que é
o meu íntimo avantesma.
E, o meu amor,
que ciúme dessa estranha,
dessa rival
que os dias
me acompanha,
para ruína gloriosa
de mim mesma!
TUDO (Joaquim Pessoa)
Tudo o que me vem às mãos faz parte de ti,
do teu sabor, do teu perfume, da tua teimosia
tão alta como as catedrais onde o vento vai rezar,
esses lugares edificados para o silêncio e para
mais silêncio ainda. E tudo tu és, e sabes, tudo
corre do teu sangue para o meu sangue, palavra
por palavra, palmo a palmo, gota a gota.
A tua beleza ensinou-me a cantar nestes dias
que já pouco sabem de mim, e de ti, e de ambos,
estes dias em que a tristeza entristece mais
entre os beijos e a boca, com a luz movendo-se
em territórios húmidos de sombra. E porque tudo
o que me dizes é tão extraordinário como os
peixes que sobem os rios e gostam de viver
contra a corrente, eu escrevo-te, eu canto-te,
eu quero-te, eu peço que me dês o que o amor
não pôde ou não quis dar-me antes de ti.






DESEJO (Fátima Guimarães)


Deseja-o
como já não
se lembrava
de o ter
o seu corpo
arde em silêncio
os lábios
latejam
pedindo
as pernas
tremem
o coração bate
descompassado
todo o corpo
num frémito
crescente
Hesita
insegura
Deseja-o
Enlaça-o
num ímpeto
esmaga-lhe
os lábios
húmidos
percorre-lhe
o corpo
tateando
todas as saliências
deita o seu
no dele
não hesita
toma posse
e
em movimentos
estonteantes
ritmados
vibrantes
amam-se
amam-se
sofregamente
como se
não houvesse
amanhã.
 

NO SACIAR DA PELE ( Ana Fonseca )


Mitiguei a minha sede
Em teus lábios
Saciei o corpo
Num abraço de ti
Ofereci-te meu corpo
Em doce embrulho de pele
Desataste o laço
De meus pudores
No aflorar dos lábios
Saboreou-se o néctar
Que nos alimenta
Nos sacia, sustenta
E o corpo ondulante
Em suaves vagas se sustém
Ao encontro do que preenche
Em doce vai e vem
E num gemido o êxtase
Se te me oferece.
Subliminarmente
Em suave folha de papel!

04/08/2017

VERTENTES (António Ramos Rosa)


As palavras esperam o sono 
e a música do sangue sobre as pedras corre 
a primeira treva surge 
o primeiro não a primeira quebra. 
A terra em teus braços é grande 
o teu centro desenvolve-se como um ouvido 
a noite cresce uma estrela vive 
uma respiração na sombra o calor das árvores. 
Há um olhar que entra pelas paredes da terra 
sem lâmpadas cresce esta luz de sombra 
começo a entender o silêncio sem tempo 
a torre extática que se alarga. 
A plenitude animal é o interior de uma boca 
um grande orvalho puro como um olhar. 
Deslizo no teu dorso sou a mão do teu seio 
sou o teu lábio e a coxa da tua coxa 
sou nos teus dedos toda a redondez do meu corpo 
sou a sombra que conhece a luz que a submerge. 
A luz que sobe entre 
as gargantas agrestes 
deste cair na treva 
abre as vertentes onde 
a água cai sem tempo.