09/11/2017

GOZO IX ( Maria Teresa Horta )


Ondula mansamente a tua língua
de saliva tirando
toda a roupa.
já breves vem os dias
dentro de noites já
poucas.
Que resta do nosso
gozo
se parares de me beijar?
Oh meu amor
devagar...
até que eu fique louca!

Depois não vejas o mar
afogado em minha
boca!

GOZO V ( Maria Teresa Horta )

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GOZO IV ( Maria Teresa Horta )


Que tenhas de mim
o contorno incerto
acertado nas linhas do
teu corpo
os dentes nos lóbulos e no pescoço
os lábios
a língua a cobrirem os ombros.

GOZO III ( Maria Teresa Horta )


Põe meu amor
teu preceito

teu pénis
meu pão tão cedo
de vestir e de enfeitar
espasmos tomados por dentro

e guarnecer o deitar
daquilo que vou gemendo

Meu amor
por me habitares
com jeito de teu
invento

ou com raiva
de gritares
quando te monto e me fendo.

GOZO II ( Maria Teresa Horta )


Desvia o mar a rota
do calor
e cede a areia ao peso
desta rocha.
Que ao corpo grosso
do sol
do meu corpo
abro-lhe baixo a fenda de uma porta
e logo o ventre se curva
e adormece
e logo as mãos se fecham
e encaminham
e logo a boca rasga
e entontece
nos meus flancos
a faca e a frescura
daquilo que se abre e desfalece
enquanto tece o espasmo o seu disfarce
e uso do gozo
a sua melhor parte.

GOZO I ( Maria Teresa Horta )

Linho dos ombros
ao tacto
já tecido.
Túnica branda
cingida sobre as
espáduas.
Os rins despidos
no fato já subido:
as tuas mãos abrindo a madrugada.
Linho dos seios
na roca dos sentidos
a seda lenta sedenta na garganta.
a lã da boca
cardada
no gemido
e nos joelhos a sede
que os abranda
Linho das ancas
bordado
de torpor
a boca espessa
o fuso da garganta.

GOZO X ( Maria Teresa Horta )


São de alumínio
os flancos

e de feltro a língua
de felpa ou seda
a abertura incerta
que cede breve a humidade
esguia
presa no quente do interior
da pedra
Ou musgo doce
de haste sempre dura
de onde pendem seus dois mansos frutos
que a boca aflora e os dentes prendem
a tatear-lhes
o hálito e o suco.

04/11/2017

FRAMBOESA (Maria Suely de Oliveira)
Musa
Morenada
Ancas cheias
Mastigada de aluguel
Não é a amora menina
Adocicada
Com sabor de desobediência
É mercadoria
Dada a namoros
Vaidosa
Sedutora
Colhida em prateleiras
Decorativa
Impressa na embalagem
Cafetina.

PRIMEIRO FORAM OS DEDOS ( Maria Carlos Loureiro ) Acasos e Mistérios, Quetzal Editores, 1998 - Lisboa, Portugal.


Primeiro foram os dedos 
que travaram conhecimento.
Depois os olhos pousaram-me
na mão e levaram-na a percorrer
a curva da cintura. E a sua boca
procurou a minha boca
sem sobressaltos e deixou-a depois
para percorrer o meu corpo.

É assim a descoberta do poeta,
apesar de tudo se passar na sua cabeça,
dando origem a mais um poema.

ESPERANTO (Marco Aurélio Pais)


Não vê? Eu por você já faço tudo
até buscar um curso de esperanto
na rede e estudar um pouco disso
pra realizar a sua fantasia
de aprender e errar e ser punida
por mim, seu professor tradicional
e rijo, além de toda sanidade.

É hilário! E mais hilário é o esperanto
do que o jeito que brincamos disso:
me dá tanto tesão sua bundinha
pedindo a disciplina da minha vara,
ouvir você gritar, gemer baixinho,
dizendo que merece meu castigo
na carne, pra deixar de ser burrinha.

E dar também, é claro, a recompensa
a que você faz jus, quando, aplicada,
consegue adivinhar meu pensamento e
responde essas perguntas impossíveis
que fiz. E agora busco com a boca
a tua xaninha doce pra te dar
meus beijos e lambidas caprichados.

E, hum, morder de leve seu pescoço,
depois mais forte pra deixar as marcas
dos dentes na sua nuca arrepiada,
os seios engolir, os seu mamilos
os ombros, a barriga, as omoplatas,
sentir a sua excitação crescendo
no gozo que lhe dá ser devorada.

E o meu desejo teso, latejante,
só quer agora estar agasalhado
no aquoso paraíso que habita
no vão convidativo das suas coxas.
Penetro, então, e isso é mais gostoso,
que tudo até aqui, tão bem tramado.

Mover-me, em você sentir a vulva
pulsando, alcançando seu orgasmo,
sentir os seus espasmos, seus tremores,
os seus vagidos, o seu corpo alucinado
relaxa, de repente, sob o meu.
E agora devo ser recompensado.

Entrego, pois, meu sexo à sua boca
pra derramar no fundo da garganta
os frutos desse amor realizado.
Você me bebe cuidadosa, limpa
a mim, que então a aninho nos meus braços
pra recolher, num beijo fundo e denso,
o gosto do meu sêmen dos seus lábios.

Ah, o esperanto pode ser a língua
universal nos tempos do futuro
mas, hoje, universal é a linguagem
em que nossos fetiches se completam:
Você me faz feliz, feliz te faço,
e juntos a brincar não somos tristes!
"Danko, Dio!", essa mulher existe.
CANTIGA MUNDANA (Márcia Leite)
De teus olhos retirei a tristeza,
bebi as lágrimas salgadas;
lambi o abandono.

Ofereci esperanças, doei certezas -
segurança - e os lambuzei
com o mel dos meus.

Da tua boca seca arranquei
o riso louco de macho corno,
o sorriso morto de Prometeu.

Com os dedos refiz os sulcos
da boca ferida.
E com minha própria saliva
matei tua sede de vida.

Lavei tua alma, e a vesti
novamente em brios.
E - como se não bastasse -
a enfeitei com fios,
roubados, dos pelos do homem
que, antes de ti, era o meu.

Te abri as pernas, as portas,
a seiva e a cama.
Te banhei no gozo de infinitas
noites profanas.
Te ninei em cantigas mundanas.

Depois de lavado, lambido.
Já saciado, curado, vestido.
Retornastes a teu destino
de animal predador.
Me deixando apenas alguns
pêlos dourados - que recolhi -
esquecidos no cobertor.

NO CONJUGAR AMOR ( Manuela Amaral )

NO CONJUGAR AMOR (Manuela Amaral)
Descobrimos coisas 
      que ninguém mais sabe.
Coisas diversas do saber comum.

      A transfusão que existe no beijar
      quando a ternura é líquida

      E a transparência 
      opaca
      do suor
      quando o amor é feito

      E o jeito que nos fica
      de namorar o corpo

      E o exagero em tudo que se diz
      nas juras repetidas


Descobrimos coisas
      que ninguém mais sabe
      e que aprendemos juntas.

SEXO / CAMA ( Manuela Amaral )

SEXO / CAMA (Manuela Amaral)
Fui ordinária
requintada
tímida
Misturei poesia com vários palavrões
Gritei
Uivei
Gemi
Rasguei almofadas e lençois

Fui carnaval de amor
no circo de uma cama.

A UMA VIRGEM (Manuel Rodrigues)


Ah! tu nem sabias que a tua púbis
tinha a exacta medida da concha
de minha mão, nem suspeitavas
quanto de teu seio transbordaria
da outra que por trás te enlaçava. 
Só mal medias o espanto 
de sentires-me o hálito arfar
em teus cabelos e em ti toda
com que te perdeste, já rendida 
na surpresa de saberes-me 
contra a firmeza da tua carne,
no trémulo susto da tua pele
que há tanto tal dia esperava.

Sussurraste ainda a medo
não quero, sou tão nova! Mas tudo
te era já maduro e quente
em tua boca de sede e línguas,
aberta como já essoutros lábios.

Nem choraste como choram
vãs as que perdidas se acham.
Nem uma lágrima te caiu. Era 
apenas o suor puro e o sangue
e teus loucos olhos líquidos
que naquela hora e nos lençois
ofereceras à vida misturados,
não por mim – bem o sabias –,
mas por outro que em tua casa, 
daí a meses, daí a anos, todas 
as noites se deitaria a teu lado, 
cumprindo o destino de ter filhos.

Talvez por isso tenhas dito, 
sem sorriso triste, sequer com gesto de 
fingido amor, mas de olhos seguros, 
certa quanto eu que nem haveria adeus:

Deixa, não foi nada, não tem mal.

COISA AMAR ( Manuel Alegre )


Contar-te longamente as perigosas
coisas do mar. Contar-te o amor ardente
e as ilhas que só há no verbo amar.
Contar-te longamente longamente.

Amor ardente. Amor ardente. E mar.
Contar-te longamente as misteriosas
maravilhas do verbo navegar.
E mar. Amar: as coisas perigosas.

Contar-te longamente que já foi
num tempo doce coisa amar. E mar.
Contar-te longamente como dói

desembarcar nas ilhas misteriosas.
Contar-te o mar ardente e o verbo amar.
E longamente as coisas perigosas.

VISIO ( Machado de Assis )


Eras pálida. E os cabelos,
Aéreos, soltos novelos,
Sobre as espáduas caíam.
Os olhos meio-cerrados
De volúpia e de ternura
Entre lágrimas luziam.
E os braços entrelaçados,
Como cingindo a ventura,
Ao teu seio me cingiram.

Depois, naquele delírio,
Suave, doce martírio
De pouquíssimos instantes
Os teus lábios sequiosos,
Frios trêmulos, trocavam
Os beijos mais delirantes,
E no supremo dos gozos
Ante os anjos se casavam
Nossas almas palpitantes.
Depois, depois a verdade,
A fria realidade,
A solidão, a tristeza;
Daquele sonho desperto,
Olhei... silêncio de morte
Respirava a natureza —
Era a terra, era o deserto,
Fora-se o doce transporte,
Restava a fria certeza.

Desfizera-se a mentira:
Tudo aos meus olhos fugira;
Tu e o teu olhar ardente,
Lábios trêmulos e frios,
O abraço longo e apertado,
O beijo doce e veemente;
Restavam meus desvarios,
E o incessante cuidado,
E a fantasia doente.

E agora te vejo. E fria
Tão outra estás da que eu via
Naquele sonho encantado!
És outra, calma, discreta,
Com o olhar indiferente,
Tão outro do olhar sonhado,
Que a minha alma de poeta
Não vê se a imagem presente
Foi a imagem do passado.

Foi, sim, mas visão apenas;
Daquelas visões amenas
Que à mente dos infelizes
Descem vivas e animadas,
Cheias de luz e esperança
E de celestes matizes:
Mas, apenas dissipadas,
Fica uma leve lembrança,
Não ficam outras raízes.


Inda assim, embora sonho,
Mas sonho doce e risonho,
Desse-me Deus que fingida
Tivesse aquela ventura
Noite por noite, hora a hora, 
No que me resta de vida,
Que, já livre da amargura,
Alma, que em dores me chora,
Chorara de agradecida!

MENINA E MOÇA ( Machado de Assis ) ( A Ernesto Cibrão)


Está naquela idade inquieta e duvidosa,
Que não é dia claro e é já o alvorecer;
Entreaberto botão, entrefechada rosa,
Um pouco de menina e um pouco de mulher.

Às vezes recatada, outras estouvadinha,
Casa no mesmo gesto a loucura e o pudor;
Tem cousas de criança e modos de mocinha,
Estuda o catecismo e lê versos de amor.

Outras vezes valsando, o seio lhe palpita,
De cansaço talvez, talvez de comoção.
Quando a boca vermelha os lábios abre e agita,
Não sei se pede um beijo ou faz uma oração.

Outras vezes beijando a boneca enfeitada,
Olha furtivamente o primo que sorri;
E se corre parece, à brisa enamorada,
Abrir as asas de um anjo e tranças de uma huri.

Quando a sala atravessa, é raro que não lance
Os olhos para o espelho; e raro que ao deitar
Não leia, um quarto de hora, as folhas de um romance
Em que a dama conjugue o eterno verbo amar.

Tem na alcova em que dorme, e descansa de dia,
A cama da boneca ao pé do toucador;
Quando sonha, repete, em santa companhia,
Os livros do colégio e o nome de um doutor.

Alegra-se em ouvindo os compassos da orquestra;
E quando entra num baile, é já dama do tom;
Compensa-lhe a modista os enfados da mestra;
Tem respeito a Geslin, mas adora a Dazon.

Dos cuidados da vida o mais tristonho e acerbo
Para ela é o estudo, excetuando-se talvez
A lição de sintaxe em que combina o verbo
To love, mas sorrindo ao professor de inglês.

Quantas vezes, porém, fitando o olhar no espaço,
Parece acompanhar uma etérea visão;
Quantas cruzando ao seio o delicado braço
Comprime as pulsações do inquieto coração!

Ah! se nesse momento, alucinado, fores
Cair-lhe aos pés, confiar-lhe uma esperança vã,
Hás de vê-la zombar de teus tristes amores,
Rir da tua aventura e contá-la à mamã.

É que esta criatura, adorável, divina,
Nem se pode explicar, nem se pode entender:
Procura-se a mulher e encontra-se a menina,
Quer-se ver a menina e encontra-se a mulher!
DAS VIAGENS (Ademir Antonio Bacca)
Viajo
no teu corpo
caminhos
nunca imaginados
delírios
de náufrago à deriva
em noite de temporal.
viajo em ti
sonhos de uma ternura
nunca sentida.

03/11/2017

DO TEU CHEIRO (Ademir Antonio Bacca)


O gosto da tua pele
sal impregnado em meus lábios
que me mata de sede
à beira da fonte dos teus prazeres.

O teu gosto na minha boca
mel que sacia meus desejos
na hora derradeira
do medo de te perder
em meio aos lençois.

O teu cheiro impregnado
no meu corpo
perfume raro que nem a chuva
leva de mim.

INSENSATEZ (Ademir Antonio Bacca)


eu navego
em ti
o desejo insano
que persegue
anos a fio.


nas águas perigosas
do teu cio
eu me deixaria afogar
de vez.

AVES (Fernando Namora)

Ter-te suspensa 
do meu lume 
na fogosa boca 
o ardume 
a explodir 
tu 
ardida e intacta 
sonho e nuvem 
voz exacta 
um soltar 
de aves 
em pânico 
na relva do olhar.


NOITE ( Fernando Namora ) in Mar de Sargaços


Ó noite, coalhada nas formas de um corpo de mulher 
vago e belo e voluptuoso, 
num bailado erótico, com o cenário dos astros, mudos 
                                                                                 e quedos. 
Estrelas que as suas mãos afagam e a boca repele, 
deixai que os caminhos da noite, 
cegos e rectos como o destino, 
suspensos como uma nuvem, 
sejam os caminhos dos poetas 
que lhes decoraram o nome. 
Ó noite, coalhada nas formas de um corpo de mulher! 
Esconde a vida no seio de uma estrela 
e fá-la pairar, assim mágica e irreal, 
para que a olhemos como uma lua sonâmbula.