22/11/2017

A CANTORA GRITANTE ( Hilda Hilst )

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FILÓ, A FADINHA LÉSBICA ( Hilda Hilst ) In Bufólicas. São Paulo: Globo, 2002


Ela era gorda e miúda.
Tinha pezinhos redondos.
A cona era peluda
Igual à mão de um mono.
Alegrinha e vivaz
Feito andorinha
Às tardes vestia-se
Como um rapaz
Para enganar mocinhas.
Chamavam-lhe “Filó, a lésbica fadinha”.
Em tudo que tocava
Deixava sua marca registrada:
Uma estrelinha cor de maravilha
Fúcsia, bordô
Ninguém sabia o nome daquela cô.
Metia o dedo
Em todas as xerecas: loiras, pretas
Dizia-se até
Que escarafunchava bonecas.
Bulia, beliscava
Como quem sabia
O que um dedo faz
Desce que nascia.
Mas à noite quando dormia.
Peidava, rugia e
Nascia-lhe um bastão grosso
De início igual a um caroço
Depois
Ia estufando, crescendo
E virava um troço
Lilás
Fúcsia
Bordô
Ninguém sabia a cô do troço
da Fadinha Filó.
Faziam fila na vila.
Falada “Vila do Troço”.
Famosa nas Oropa
Oiapoc ao Chuí
Todo mundo tomava
Um bastão no oiti.
Era um gozo gozoso
Trevoso, gostoso
Um arrepião nos meio!
Mocinhas, marmanjões
Ressecadas velhinhas
Todo mundo gemia e chorava
De pura alegria
Na Vila do Troço.
Até que um belo dia
Um cara troncudão
Com focinho de tira
De beiço bordô, fúcsia ou maravilha
(ninguém sabia o nome daquela cô)
Sequestrou Fadinha
E foi morar na ilha.
Nem barco, nem ponte
o troncudão nadando feito rinoceronte
Carregava Fadinha.
De pernas abertas
Nas costas do gigante
Pela primeira vez
 Na sua vidinha
Filó estrebuchava
Revirando os oinho
Enquanto veloz veloz
O troncudão nadava.
A vila do troço
Ficou triste, vazia
Sorumbática, tétrica
Pois nunca mais se viu
Filó, a fadinha lésbica
Que à noite virava fera
E peidava e rugia
E nascia-lhe um troço
Fúcsia
Lilás
Maravilha
Bordô
Até hoje ninguém conhece
O nome daquela cô.
E nunca mais se viu
Alguém-Fantasia
Que deixava uma estrela
Em tudo que tocava
E um rombo na bunda
De quem se apaixonava.

Moral da estória, em relação à Fadinha:
Quando menos se espera, tudo reverbera.

Moral da estória, em relação ao morador
da Vila do Troço:
         Não acredite em fadinhas.
         Muito menos com cacete.
         Ou somem feito andorinhas
Ou te deixam cacoetes.

 

POEMA SOBRE O ENREDO (Maria Teresa Horta)


Enredada estou de mim
 nesta febre em que me vejo
já que enredada de ti
não se cura o meu desejo.

que nem me pus de curar
este fogo do teu corpo
nem me pus de enganar
esta sede que provoco.

pois logo desenredada
eu sei que me enredaria
neste vício de enredar
o meu espasmo em teu orgasmo
por sua vez enredado na branda rede dos dias.

20/11/2017

SENTIDOS ( Eugénia Tabosa )


Meus dedos
lentos
percorrendo
a medo
teu corpo
aberto
oferto.

Meus dedos
surpresos
soltando
o calor
o cheiro
de teu corpo
descoberto.

Meus dedos
olhos
trazendo 
imagens
mensagens
ao meu corpo
trémulo.


Esqueci
   teu nome
     teu rosto
       o quando
         e o porquê
Só existes
em meus dedos.
PROSERPINA (Evandro Moreira)
Quero perder-me em teu abraço forte,
aquecer a alma e o corpo em teu regaço
e encontrar o ígneo sonho que comporte
toda a paixão em que hoje me desfaço.

Hei de seguir-te, qual fiel consorte,
por todos os caminhos, passo a passo;
quero, custe-me embora dor e morte,
viver com fúria o nosso amor devasso.

Serei dos teus demônios mais um réu
e entre tormentos te amarei, contente,
que, onde estiveres, aí terei meu céu.

Felicidade, então, será o inferno!,
pois em teu ventre encontro a sarça ardente
onde me queimarei num gozo eterno!
ERÓTICA (Eduardo Durso)
amar-te, ter-te em segredo
lamber-te, sugar teu grelo
gravar meus dentes em tua carne
cravar-me intenso, em ti, inteiro
sensação, sentir o teu cheiro
levar-nos, leve, a paixão
levar-me, elevar-me
enlear-me em teus enlevos
ler e reler teu corpo
saborear teu enredo
arredio, rumino e rio
num rasgo, rodopio e arrepio
aí rimo teu nome com desejo
sonho, com tua saia, teu seio
e seja o que for, com teu beijo
delírio, quente, febril
imagino, morro, desvio
de tudo, meu desvario
devaneio, louco, atrevido
me entrego, para ti, me deixo
em ti, e tu, rouca
embriaga-se com meu leite
e abate-se sobre o meu leito.

SÚCUBO (Emiliano Perneta)


Desde que te amo, vê, quase infalivelmente, 
Todas as noites vens aqui. E às minhas cegas
Paixões, e ao teu furor, ninfa concupiscente,
Como um súcubo, assim, de fato, tu te entregas.

Longe que estejas, pois, tenho-te aqui presente.
Como tu vens, não sei. Eu te invoco e tu chegas.
Trazes sobre a nudez, flutuando docemente, 
Uma túnica azul, como as túnicas gregas.

E de leve, em redor do meu leito flutuas, 
Ó Demônio ideal, de uma beleza louca, 
De umas palpitações radiantemente nuas!

Até, até que enfim, em carícias felinas,
O teu busto gentil ligeiramente inclinas,
E te enrolas em mim, e me mordes a boca!

UM OLHAR ( Kátia Cerbino )


Um olhar...
tudo foi fotografado. 
Trago ainda na pele 
o rastro do teu afago. 
Meu seio, 
qual monte de feno, 
onde deitavas 
a sonhar sereno. 
Guardo nas entranhas 
tuas impressões digitais. 
Esquecê-las? Jamais. 
Nos lábios, 
o calor de uma febre terçã, 
como o derradeiro beijo 
de Camille em seu Rodin.

19/11/2017

O PESCADOR (Genaro Vencato)
Abri a ostra e encontrei a pérola
Um leve beijo com o toque da língua,
Fez ela morder o lábio e mergulhar
Arrepiada no oceano de fogo
E urna gigantesca onda de calor
Banhou seu tênue corpo salgado
o vento uivou desconcertante
Completamente alucinado
Por cima das nuvens de nácar
Comprimindo os sons
Com um aperto, um urro
E um puxão de cabelo
Fiquei tonto, totalmente inebriado
Com a beleza desta joia
De valor inestimável
Continuando minha busca
De cultivar sempre
A beleza rara
E deliciosamente pronta a ser aberta
Da sensível ostra.

AMO TRÊS GESTOS TEUS ( Giosi Lippolis ) (Tradução: José Paulo Paes)

Amo três gestos teus quando, senhor,
me incendeias do teu próprio fogo.
Te serves do meu corpo, minha boca
sorves na tua, me penetras.
És poderoso, vivo, estás feliz.
Mas depois disso cada minuto é meu.

PÉLVICAS ANGRAS ( Geraldo Pinto Rodrigues )


Pélvicas angras
aonde veleja 
meu barco ébrio 
entre suores.
Meu barco púbico 
roçando o porto 
de tuas ancas,
nos desesperos.

Se a quilha agito
qual um corcel,
nos descampados
já faço água
neste batel
desgovernado
nos teus desmandos.

Só sigo a viagem,
mais confortado,
quando fundeio 
nos teus abraços.

Enfim, assédios
de muitos frêmitos
me desintegram
nos teus penhascos!

SAUDADES ( Gilka Machado ) no livro "Velha Poesia". Editora Baptista de Souza, 1968.

De quem é esta saudade
que meus silêncios invade,
que de tão longe me vem?

De quem é esta saudade,
de quem?

Aquelas mãos só carícias,
Aqueles olhos de apelo,
aqueles lábios-desejo.

E estes dedos engelhados,
e este olhar de vã procura,
e esta boca sem um beijo.

De quem é esta saudade
que sinto quando me vejo

PARTICULARIDADES 2 ( Gilka Machado )

Tudo quanto é macio os meus ímpetos doma, 
e flexuosa me torna e me torna felina.
Amo do pessegueiro a pubescente poma, 
porque afagos de velo oferece e propina.

O intrínseco sabor lhe ignoro, se ela assoma, 
no rubor da sazão, sonho-a doce, divina! 
gozo-a pela maciez cariciante, de coma,
e o meu senso em mantê-la incólume se obstina.

Toco-a, palpo-a, acarinho o seu carnal contorno, 
saboreio-a num beijo, evitando um ressábio, 
como num lento olhar te osculo o lábio morno.

E que prazer o meu! que prazer insensato!
– pela vista comer-te o pêssego do lábio, 
e o pêssego comer apenas pelo tato. 

VII ( Gilka Machado ) in "Estados da alma: poesias". Revista dos Tribunaes, 1917.


Na plena solidão de um amplo descampado, 
penso em ti e que tu pensas em mim suponho; 
tenho toda afeição de um arbusto isolado, 
abstrato o olhar, entregue à delícia de um sonho.

O vento, sob o céu de brumas carregado, 
passa, ora langoroso, ora forte, medonho! 
e tanto penso em ti, ó meu ausente amado! 
que te sinto no vento e a ele, feliz, me exponho.

Com carícias brutais e com carícias mansas, 
cuido que tu me vens, julgo-me toda nua. 
– sou árvore a oscilar, meus cabelos são franças.

E não podes saber do meu gozo violento, 
quando me fico assim, neste ermo, toda nua, 
completa-te exposta à volúpia do vento!

PÚBIS CARENTE (Geraldo Ângelo Rasputim)


Púbis carente
      Saudades
           Momentos contentes
gozo,
      êxtases
           suspiros.

Gemidos

      Gritos.

Pecado

      Volúpia
Boca molhada
      Pêlos molhados
Suor
      pecados
           Líquido salgado.

Saudades

      Púbis carente.
UM SORRISO (Ferreira Gullar)
Quando 
com minhas mãos de labareda 
te acendo e em rosa 
embaixo 
te espetalas 

quando 
com o meu aceso archote e cego 
penetro a noite de tua flor que exala 
urina 
e mel 
que busco eu com toda essa assassina 
fúria de macho? 
que busco eu 
em fogo 
aqui embaixo? 
senão colher com a repentina 
mão do delírio 
uma outra flor: a do sorriso 
que no alto o teu rosto ilumina?

GOZO (Léa Waider )


Viro, reviro,
Revido.
Torço
Abraço
Atiro
Me afasto.
Grito
Afago
Aninho.
Me deito
Te agarro
Nos mordemos
Nos amamos.
Num impulso
te expulso.
Me seguras,
Penetras,
Me apertas
Te enlouqueço
Gozamos.
Eita, doidera boa!

APÓS O BANHO (Fernando Py)


Após o banho, nua 
ainda, o corpo úmido 
ao meu encontro, visão, 
relembro, cálido êxtase, 
os seios entrevistos 
no decote frouxo, agora, nua, 
toalha molhando-se, ressurgem 
após o banho, 
fremindo, suave embalo, avidez 
de língua e mãos, nua, vens, 
perfume, sulcos na pele, 
ansiada espera, curvas, a entrega 
ao meu olhar, bocas, rosa 
túmida, pétala, sucção, espuma, 
resplandeces para mim, nua, 
após o banho.

17/11/2017

ELOGIO DO PECADO ( Bruna Lombardi )


Ela é uma mulher que goza
celestial sublime
isso a torna perigosa
e você não pode nada contra o crime
dela ser uma mulher que goza

você pode persegui-la, ameaçá-la
tachá-la, matá-la se quiser
retalhar seu corpo, deixá-lo exposto
pra servir de exemplo.
É inútil. Ela agora pode resistir
ao mais feroz dos tempos
à ira, ao pior julgamento
repara, ela renasce e brota
nova rosa.

Atravessou a história
foi queimada viva, acusada
desceu ao fundo dos infernos
e já não teme nada
retorna inteira, maior, mais larga
absolutamente poderosa.

SONETO DO AMOR IMPURO (Goulart Gomes)


Já te comi com os olhos e com as mãos
antropofagia étnica, incesto de irmãos
sei que não raspas teus púbicos pelos
corta-os baixinhos, aparas os cabelos.

Conheço cada ondulação da tua bunda
onde teu ventre se alarga e onde se afunda
qual dos teus seios tem maior volume
e como a tua ira de gozo se assume.

Ao banho, onde primeiro tocas o sabonete
a quantas fricções respiras em falsete
deixando a água ser um outro, teu.

E se em tua corte fui só mais um bobo
trago comigo um real consolo:
quem mais te possuiu fui eu.

A VIRGEM (António Aragão)


um avião em teus seios desocupados
um guindaste em tua boca alerta

um passo de arco-íris corre
teu pulso – dá-me teu bilhete
oh como voo te gosto de viajar!
um motor faz entre tuas coxas
hosana! é sangue o côncavo do teu lugar.

PUXEI A MANGA DA CAMISA (Martha Medeiros)

puxei a manga da camisa um pouco pra cima
perto do cotovelo, e abri o botão calmamente
como se fizesse isso todo dia na tua frente
não te olhei como amiga nem professora
e não liguei para a pouca idade que tinhas
eu era mais madura e você mais coerente
tinha certeza de tudo mas não se mexia
passei a mão no teu cabelo
te beijei na testa, no queixo
beijei tua nuca e tua boca
e fui a primeira mulher nua da tua vida

OS TEUS SEIOS (José Félix)


Os teus seios na palma da mão
são duas laranjas novembrinas
como aromáticas concubinas
a mentir desejos e amor não.

Sorvo o sumo doce e laranjeiro,
prostituido, sim, mas com paixão
os frutos rijos do pomareiro.

Os teus seios na palma da mão.