27/04/2020

TULIPA VERMELHA (Letícia Luccheze)

A livraria, perfumaria, supermercado, floricultura.
O cinema.
A loja de roupas, acessórios, cremes.

Ao cair da tarde.

O decote em meio as pernas e nos seios transpirarem.
No olhar um convite ao deleito do prazer.
Flutuava no caminhar,
levando os homens à perdição.

Pessoas vinham e iam.

O maço de flores.

Desejada!
Chamava atenções.

A negra noite cobriu o gramado umedecido;
juntamente com as estrelas que o céu acolhia.

Do alto da janela a fragrância.
Doce, quente, sagaz, ardente.
Libertava os instintos selvagens.

Sussurros de gemidos...
      ...gemidos de sussurros...
           ...sussurros de gemidos...

Flores ao ar foram ao chão.
Suadas, embranquecidas.

GEOGRAFIA ABSTRATA ( Eliana Mora )

Estou com muita saudade
da tua geografia
e olhando esta paisagem
lembrei-me daquele abraço
que aconteceu na garagem
os carros por testemunha
calados a perceber
que alguém chegou por aqui
para vida oferecer.

E o que de há muito queria
sonhando na
minha cama
ganhou honras de verdade
e eu nem realizara
tudo o que tinha vontade.

Acho que agora lembrei
te vi no sonho a meu lado
e então aproveitei
que estavas junto a mim
e deixei de ser prudente
pedi mesmo que fizesses
tudo aquilo que quizesses
que me deixasse
demente
que colocasse algo quente
aqui bem dentro de mim.

Tu ficaste arrepiado
com o teu corpo grudado
nesta pele
de menina
e com o norte e o sul
virando de leste a oeste
iniciamos viagem
sem querer imaginar
quando começa
ou termina.

O desejo do teu corpo
tua pele tua carne
traz teu cheiro teu sabor
e chego a te ver aqui
sussuro grito
e berro
falo alto até cansar
palavras de todo tipo
para me aliviar.

E essa paixão danada
parece estar desenhada
no mapa de
dois amantes.

Mas ela avisa que pode
e precisa ser
de todos
de príncipe e de duquesa
de realeza e povão
com rota sempre perfeita.

Passaporte
de beleza
Viagens
do coração. 

OS TEUS OLHOS ( David Mourão Ferreira )

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ELE (Julieta Lima)
Ele
Agarra-me os cabelos
Morde-me os braços
Beija-me os dedos
E não me diz nada
Não me toca sequer.
Mas para eu me sentir amada
E me sentir mulher
Bastam-me os seus olhos.

Até que eu solte de mim

O cio da fera
Que ando a mascarar de branca asa
E o arraste por fim
Sem pudor sem roupa
Para a minha casa!

OS TEUS SEIOS (José Félix)

OS TEUS SEIOS (José Félix)
Os teus seios na palma da mão
são duas laranjas novembrinas
como aromáticas concubinas
a mentir desejos e amor não.

Sorvo o sumo doce e laranjeiro,
prostituido, sim, mas com paixão
os frutos rijos do pomareiro.
Os teus seios na palma da mão.

PRIMEIRO SUSPIRO ( Isabel Machado )


Arromba!
Penetre entre as gretas que te enxergam
Adentre pelos poros que veneram
o teu suor no meu endoidecido.

Arromba!
Por todos os meus lados puritanos
tão virgens e tão castos, espartanos
te engulo feito louca ao teu gemido.

Arromba!
Teu gozo exploda em mim feito uma bomba
debata-se e debata-se vencido
calando o meu grunhir na tua boca.

E...
depois da casa arrombada
não reste mais nada
por viver.
AMO TRÊS GESTOS TEUS(Giosi Lippolis)
Amo três gestos teus quando, senhor,
me incendeias do teu próprio fogo.
Te serves do meu corpo, minha boca
sorves na tua, me penetras...
És poderoso, vivo, estás feliz.
Mas depois disso cada minuto é meu.

UNIVERSO MASCULINO (Rosa Clement)


Quando o luar se inclina pela janela
e mostra tua nudez,
és como um céu luminoso,
e eu quero compartilhar com a lua,
teu universo masculino.

A lua se deita no teu peito,
eu aqueço ainda mais teu corpo
com os meus lábios mornos.
Mas eu, sou tua estrela do desejo,
teu astro em fogo, na cama.

São as luzes do jardim
que desenham sombras voluptuosas
com as nossas silhuetas,
porque a lua envergonhada
se esconde no seu próprio céu.
Eu fico para explorar o meu,
de cima, de baixo.

A PELE E O VENTO ( Nálu Nogueira )


Quando a madrugada vem
e o vento sopra
a pele em poesia desabrocha
dizendo nua os versos de
arrepios.

E se o vento sopra sussurrante
como uma brisa morna estremecendo
os pelos
a pele, que é poesia,
mergulha em desvarios
e canta para a lua seus versos
de delírios
e espera suplicante o toque
redentor.

        (até que o vento, em sopros
        de amor
        se deita sobre a pele
        e suas mãos segura.)

então a pele, agora em loucura
sente os cabelos longos do vento
lhe fazerem cócegas; ouve os
sussurros do vento em suas costas
sente sobre si o peso do desejo

        e cândida, rende-se;
        lânguida, deita-se;
        ávida, molha-se;

sente nas costas o peso
do vento
        e treme;
        agita-se;
        inunda-se;
        e sonha;

tem dentro de si o corpo
do vento
        e tranca-se;
        e move-se;
        e geme;
        e goza
        (grávida, imensa, grata, plena);

quando a madrugada vem
e o vento sopra
a pele em poesia desabrocha
e a vida inteira fica
diferente.
CEREJAS, MEU AMOR (Renata Pallottini)
Cerejas, meu amor,
mas no teu corpo.
Que elas te percorram
por redondas.

E rolem para onde
possa eu buscá-las
lá onde a vida começa
e onde acaba

e onde todas as fomes
se concentram
no vermelho da carne
das cerejas.

LUA ( Léa Wader )

LUA (Léa Wader)
Meia noite
enlouqueço
e uivo pra lua;
perco o controle
e me preparo
pra ser tua.

PRAZER E ÊXTASE ( Stela Fonseca )


O prazer se
faz em êxtase:
quando o
meu corpo,
feito água,
descobre
todos os
caminhos
do seu.
E deixa-se
ficar
onde você
mergulha em
mim.

NOTURNOS VIII (Gilka Machado )(1893-1980)


É noite. Paira no ar uma etérea magia;
nem uma asa transpõe o espaço ermo e calado;
e, no tear da amplidão, a lua, do alto, fia
véus luminosos para o universal noivado.

Suponho ser a treva uma alcova sombria,
onde tudo repousa unido, acasalado.
A Lua tece, borda e para a terra envia,
finos, fluidos filos, que a envolvem lado a lado.

Uma brisa sutil, úmida, fria, lassa,
erra de vez em quando. E uma noite de bodas
esta noite… há por tudo um sensual arrepio.

Sinto pelos no vento… e a volúpia que passa,
Flexuosa, a se rocar por sobre as casas todas,
como uma gata errando em seu eterno cio.

07/03/2020

MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA, in POESIA REUNIDA

Deita-te aqui - esta noite, dentro de mim,
está tanto frio. Se fores capaz, cobre-me de
beijos: talvez assim eu possa esquecer para
sempre quem me matou de amor, ou morrer

de uma vez sem me lembrar. Isso, abraça-me

também: onde os teus dedos tocarem há uma

ferida que o tempo não consegue transportar.

Mas fecho os olhos, se tu não te importares, e
finjo que essa dor é uma mentira. Claro, o que
quiseres está bem - tudo, ou qualquer coisa,
ou mesmo nada serve, desde que o frio fique
no laço das tuas mãos e não regresse ao corpo
que te deixo agora sepultar. Não sentes frio, tu,
dentro de mim? Nunca nevou de madrugada no
teu quarto? Que país é o teu? Que idade tens?
Não, prefiro não saber como te chamas.





04/01/2020

SENTI ORGASMOS ( Clara Patachão )


Sensualidade meu corpo.
Eco dos teus abraços eleva os meus passos.
Senti orgasmos no vestir e despir de sonhos.
Senti perigo e desejo desse abrigo.
Na bússola do inverno sou rio de sangue fervendo
e desfolho a minha sensualidade. Nas entranhas do meu ser. Aguento o fluir de água corrente que arde no tempo.
Sou combustão e paixão no ritual do coração.
Alucinante na dança erótica da tua boca fico louca!
A minha língua viaja no céu da tua boca
Como fêmea no suor dos meus poros
Sou hálito ofegante de corpo solto e sussurrante.

10/05/2019

SOBRE ISTO (Vladimir Maiakovski)


Um dia, quem sabe,

ela, que também gostava de bichos,
apareça
numa alameda do zoo,
sorridente,
tal como agora está
no retrato sobre a mesa.
Ela é tão bela,
que, por certo, hão de ressuscitá-la.
Vosso Trigésimo Século
ultrapassará o exame
de mil nadas,
que dilaceravam o coração.
Então,
de todo amor não terminado
seremos pagos
em inumeráveis noites de estrelas.
Ressuscita-me,
nem que seja só porque te esperava
como um poeta,
repelindo o absurdo quotidiano!
Ressuscita-me,
nem que seja só por isso!
Ressuscita-me!
Quero viver até o fim o que me cabe!
Para que o amor não seja mais escravo
de casamentos,
concupiscência,
salários.
Para que, maldizendo os leitos,
saltando dos coxins,
o amor se vá pelo universo inteiro.
Para que o dia,
que o sofrimento degrada,
não vos seja chorado, mendigado.
E que, ao primeiro apelo:
– Camaradas!
Atenta se volte a terra inteira.
Para viver
livre dos nichos das casas.
Para que doravante
a família seja
o pai,
pelo menos o Universo,
a mãe,
pelo menos a Terra.

01/05/2019

SONETO DA ESPERA (vinícius de moraes)

Aguardando-te, amor, revejo os dias
Da minha infância já distante, quando
Eu ficava, como hoje, te esperando
Mas sem saber ao certo se virias.

E é bom ficar assim, quieto, lembrando
Ao longo de milhares de poesias
Que te estás sempre e sempre renovando
Para me dar maiores alegrias.

Dentro em pouco entrarás, ardente e loura
Como uma jovem chama precursora
Do fogo a se atear entre nós dois

E da cama, onde em ti me dessedento
Tu te erguerás como o pressentimento
De uma mulher morena a vir depois.

ROSÁRIO ( Vinícius De Moraes )

E eu que era um menino puro 
Não fui perder minha infância 
No mangue daquela carne! 
Dizia que era morena 
Sabendo que era mulata 
Dizia que era donzela 
Nem isso não era ela 
Era uma moça que dava. 
Deixava... mesmo no mar 
Onde se fazia em água 
Onde de um peixe que era 
Em mil se multiplicava 
Onde suas mãos de alga 
Sobre meu corpo boiavam 
Trazendo à tona águas-vivas 
Onde antes não tinha nada. 
Quanto meus olhos não viram 
No céu da areia da praia 
Duas estrelas escuras 
Brilhando entre aquelas duas 
Nebulosas desmanchadas 
E não beberam meus beijos 
Aqueles olhos noturnos 
Luzindo de luz parada 
Na imensa noite da ilha! 
Era minha namorada 
Primeiro nome de amada 
Primeiro chamar de filha... 
Grande filha de uma vaca! 
Como não me seduzia 
Como não me alucinava 
Como deixava, fingindo 
Fingindo que não deixava! 
Aquela noite entre todas 
Que cica os cajus! travavam! 
Como era quieto o sossego 
Cheirando a jasmim-do-cabo! 
Lembro que nem se mexia 
O luar esverdeado 
Lembro que longe, nos Ionges 
Um gramofone tocava 
Lembro dos seus anos vinte 
Junto aos meus quinze deitados 
Sob a luz verde da lua. 
Ergueu a saia de um gesto 
Por sobre a perna dobrada 
Mordendo a carne da mão 
Me olhando sem dizer nada 
Enquanto jazente eu via 
Como uma anêmona na água 
A coisa que se movia 
Ao vento que a farfalhava. 
Toquei-lhe a dura pevide 
Entre o pelo que a guardava 
Beijando-lhe a coxa fria 
Com gosto de cana brava. 
Senti à pressão do dedo 
Desfazer-se desmanchada 
Como um dedal de segredo 
A pequenina castanha 
Gulosa de ser tocada. 
Era uma dança morena 
Era uma dança mulata 
Era o cheiro de amarugem 
Era a lua cor de prata 
Mas foi só naquela noite! 
Passava dando risada 
Carregando os peitos loucos 
Quem sabe para quem, quem sabe? 
Mas como me seduzia 
A negra visão escrava 
Daquele feixe de águas 
Que sabia ela guardava 
No fundo das coxas frias! 
Mas como me desbragava 
Na areia mole e macia! 
A areia me recebia 
E eu baixinho me entregava 
Com medo que Deus ouvisse 
Os gemidos que não dava! 
Os gemidos que não dava... 
Por amor do que ela dava 
Aos outros de mais idade 
Que a carregaram da ilha 
Para as ruas da cidade 
Meu grande sonho da infância 
Angústia da mocidade.

QUANDO ME ERGUI ELA DORMIA, NUA... (vinícius de moraes)

Quando me ergui ela dormia, nua 
E sorria, em seu sono desmaiada 
Tinha a face longínqua e iluminada 
E alto, seu sexo sugava a Lua. 

Toquei-a, ela fremiu, gemeu, na sua 
Doce fala, e bateu a mão alçada 
No ar, e foi deixá-la de guardada 
Sob a nádega fria, forte e crua. 

Tão louca a minha amiga, linda e louca 
Minha amiga, em seu branco devaneio 
De mim, eu de amor pouco e vida pouca. 

Mas que tinha deixado sem receio 
Um segredo de carne em sua boca 
E uma gota de leite no seu seio.

PRESSENTIMENTO ( Vinícius de Moraes )


Deixa dormir na tua porta o sono, poeta apascentado pela Lua 
Seus seios bebem teu sangue para alimentar os anjos 
Ouve as flores, sente como as suas minúsculas tetas de perfume 
Palpitam cheias de vinho para as pequeninas ovelhas do céu 
Fica em calma, enche teus olhos do verde negror da noite 
E quando muito recita um pouco de poesia à toa para as estrelas 
Porque nada tens a fazer, nada! e os passarinhos continuam soltos por aí.

POEMA PARA TODAS AS MULHERES ( Vinícius de Moraes )

No teu branco seio eu choro.
Minhas lágrimas descem pelo teu ventre
E se embebedam do perfume do teu sexo.
Mulher, que máquina és, que só me tens desesperado
Confuso, criança para te conter!
Oh, não feches os teus braços sobre a minha tristeza não!
Ah, não abandones a tua boca à minha inocência, não!
Homem sou belo
Macho sou forte, poeta sou altíssimo
E só a pureza me ama e ela é em mim uma cidade e tem mil e uma portas.
Ai! teus cabelos recendem à flor da murta
Melhor seria morrer ou ver-te morta
E nunca, nunca poder te tocar!
Mas, fauno, sinto o vento do mar roçar-me os braços
Anjo, sinto o calor do vento nas espumas
Passarinho, sinto o ninho nos teus pelos...
Correi, correi, ó lágrimas saudosas
Afogai-me, tirai-me deste tempo
Levai-me para o campo das estrelas
Entregai-me depressa à lua cheia
Dai-me o poder vagaroso do soneto, dai-me a iluminação das odes, dai-me o cântico dos cânticos
Que eu não posso mais, ai!
Que esta mulher me devora!
Que eu quero fugir, quero a minha mãezinha quero o colo de Nossa Senhora!