18/02/2023

AMOR É TEU OLHAR QUE SOBE ( Armindo Trevisan )


           
Amor é teu olhar que sobe
e desce torna a subir ao ramo 

desce ao poço detém-se
na água porque a sede avança

e torna a subir em carícia 

pelo braço compraz-se
em resvalar pelo declive

do corpo em balanço 

como o movimento de um
pêndulo e assim nunca
sabes se o caminho 

para ele é ascensão
ou simplesmente espera
sobre um trilho de pedras 

mais do que uma ideia
sentimento porque

o subir e o descer crescem 

na viagem indiferentes
ao amor até que a ames
como se nunca a tivesses 

conhecido somente
fora de teu alcance. 

 

MODOS DE AMAR ( Maria Teresa Horta )

MODO DE AMAR - I 
Lambe-me as seios
desmancha-me a loucura

usa-me as coxas
devasta-me o umbigo

abre-me as pernas
põe-nas nos teus ombros

e lentamente faz o que te digo:

MODO DE AMAR - II
Por-me-ás de borco,
assim inclinada.

a nuca a descoberto,
o corpo em movimento.

a testa a tocar
a almofada,
que os cabelos afloram,
tempo a tempo.

Por-me-ás de borco;
Digo:
ajoelhada.
as pernas longas
firmadas no lençol.

e não há nada, meu amor,
já nada, que não façamos como quem consome.

(Por-me-ás de borco,
assim inclinada.

os meus seios pendentes
nas tuas mãos fechadas.)

MODO DE AMAR - III 
É bom nadar assim
em cima do teu corpo
enquanto tu mergulhas já dentro do meu

Ambos piscinas que a nado atravessamos
de costas tu meu amor
de bruços eu

MODO DE AMAR  -IV
Encostada de costas
ao teu peito

em leque as pernas
abertas
o ventre inclinado

ambos de pé
formando lentos gestos

as sombras brandas
tombadas no soalho
MODO DE AMAR - V
Docemente amor
ainda docemente

o tacto é pouco
e curvo sob os lábios

e se um anel no corpo
é saliente
digamos que é da pedra
em que se rasga

Opala enorme
e morna
tão fremente

dália suposta
sob o calor da carne

lábios cedidos
de pétalas dormentes

Louca ametista
com odores de tarde

Avidamente amor
com desespero e calma

as mãos subindo
pela cintura dada
aos dedos puros
numa aridez de praia
que a curvam loucos até ao chão da sala

Ferozmente amor
com torpidez e raiva

as ancas descendo como cabras
tão estreitas e duras
que desarmam
a tepidez das minhas
que se abrem

E logo os ombros
descaem
e os cabelos

desfalecem as coxas que retomam
das tuas
o pecado
e o vencê-lo
em cada movimento em que se domam

Suavemente amor
agora velozmente

os rins suspensos
os pulsos
e as espáduas

o ventre erecto
enquanto vai crescendo
planta viva entre as minhas nádegas

MODO DE AMAR - VI 
Inclina os ombros
e deixa
que as minhas mãos avancem
na branda madeira

Na densa madeixa do teu ventre

Deixa
que te entreabra as pernas
docemente

MODO DE AMAR - VII
Secreto o nó na curva
do meu espasmo

E o cume mais claro
dos joelhos
que desdobrados jorram dos espelhos

ou dos teus ombros os meus:
flancos
na luz de maio
MODO DE AMAR - VIII
Que macias as pernas
na penumbra

e as ancas
subidas
nos dedos que as desviam

Entreabro devagar
a fenda – o fundo
a febre
dos meus lábios

e a tua língua
Vagarosa:

toma – morde
lambe
essa humidade esguia

MODO DE AMAR - IX
Enlaçam as pernas
as pernas
e as ancas

o ar estagnado
que se estende
no quarto

As pernas que se deitam
ao comprido
sob as pernas

E sobre as pernas vencem o gemido

Flor nascida no vagar do quarto

MODO DE AMAR - X
A praia da memória
a sulcos feita
a partir da cintura:

a boca
os ombros

na tua mansa língua que caminha
a abrir-me devagar
a pouco e pouco

Globo onde a sede
se eterniza
Piscina onde o tempo se desmancha
a anca repousada
que inclinas
as pernas retesadas que levantas

E logo
são os dentes que limitam

mas logo
estão os lábios que adormentam
no quente retomar de uma saliva
que me penetra em vácuo
até ao ventre

o vínculo do vento
a vastidão do tempo

o vício dos dedos
no cabelo

E o rigor dos corpos
que já esquece
na mais lenta maneira de vencê-los

MODO DE AMAR - XI 
((Teu) Baixo ventre)

Nunca adormece a boca no
teu peito

a minha boca no teu baixo
ventre
a beber devagar o que é
desfeito

MODO DE AMAR - XII 
(Os testículos)
Tenho nas mãos
teus testículos
e a boca já tão perto

que deles te sinto
o vício
num gosto de vinho aberto

MODO DE AMAR - XIII 
(As pedras – As pernas)
São as pedras
meus seios
São as pernas

pele e brandura
no interior dos
lábios

rosa de leite
que sobe devagar
na doce pedra
do muco dos meus lábios

São as pedras
meus seios
São as pernas

Pêssegos nus corpo
descascados

Saliva acesa
que a língua vai cedendo

o gozo em cima
na pedra dos meus
lábios

Jogo do corpo
a roçar o tempo
que já passado só se de memória,
a mão dolente
como quem masturba entre os joelhos...
uma longa história.

Estrada ocupada
onde se vislumbra
(joelhos desviados na almofada )

assim aberta o fim de que desfruta
o fruto do odor
o fundo todo
do corpo já fechado.

MODO DE AMAR - XIV 
(As rosas nos joelhos)
São grinaldas de rosas
à roda
dos joelhos

O âmbar dos teus dentes
nos sentidos

O templo da boca
no côncavo do espelho
onde o meu corpo espia
os teus gemidos

É o gomo depois
e em seguida a polpa.

o penetrar do dedo.
O punho do punhal

que na carne enterras
docemente
como quem adormenta
o que é fatal

É a urze debaixo
e o fogo que acalenta
o peixe
que desliza no umbigo

piscina funda
na boca mais sedenta bordada a cuspo
na pele do umbigo

E se desdigo a febre
dos teus olhos
logo me entrego à febre
do teu ventre

que vai vencendo
as rosas – os escolhos
à roda dos joelhos, docemente.


MODO DE AMAR - XV 
(A boca – A rosa)
Entreabre-se a boca
na saliva da rosa

no raso da fenda
na fissura das pernas

Entreabre-se a rosa
na boca que descerra
no topo do corpo
a rosa entreaberta

E prolonga-se a haste
a língua na fissura
na boca da rosa
na caverna das pernas

que aí se entre-curva
se afunda
se perde

se entreabre a rosa
entre a boca
das pétalas.

DE ANDREZA LEMOS


Amor bandido que me faz enlouquecer 

que me deixa sem chão 
querendo ter você.
Amor profano que faz o meu corpo estremecer 
tô queimando de desejo 
doida pra te ver.
Amor insano você finge não perceber 
que eu já sou completamente sua 
sua por puro prazer.
Amor avassalador que penetra a minha alma 
inundando o meu ser 
quero ser a tua eterna diva 
teu momento de querer.
Amor virtual que mexe tanto comigo 
e mesmo sem saber 
já fiz tudo o que podia 
e mesmo assim não consegui te esquecer.
Amor de ilusão que vive a me encher 
de sonhos e fantasias sempre a me envolver.
Amor real não tem dia e nem tem hora para acontecer 
por isso te digo não vou mais esconder 
esse sentimento que me toma 
me eleva ao céu me embriagando de tesão 
nesse instigante viver.

ENCANTAMENTO (Gilka Machado)

ENCANTAMENTO (Gilka Machado)

A Francisco Alves – O perfeito intérprete da canção brasileira.

Canta,
que tua voz
ardente e moça
faz com que eu sinta a meiguice
das palavras que a vida não me disse.
Para te ouvir melhor
abro as janelas
e fico a sós
com tua voz
sonhando
que a noite está cantando
pelos lábios de fogo das estrelas.
Canta,
boca febril que não conheço,
que nunca me falaste e que me dizes tudo!
Ave estranha
de garras de veludo,
entoa para mim
uma canção sem fim!
Canta,
que ao teu canto vejo
em tudo
quietude atroz
de insatisfeito desejo
Canta,
— em cada ouvido há um beijo

para tua linda voz.

III ( Hilda Hilst )

  No teu leiro de lírios

         Lambe-me o pelo
         Agora reluzente.
         De remansos de zelo.
         Devolve-me a cabeça
         (Pois mula que sou
         E deitada com o Pai
         Isso talvez se faça ou aconteça)
         Rodeia-a de rosas
         Como os humanos fazem
         À guisa de louros
         Com os seus mais preclaros.
         Barganha-me nas feiras
         Em proveito Teu:
         Mula que se fez musa
         (Porque deitou com Deus)
         Na grande noite escura
         Do Teu riso.

LÍLIA TAVARES, in EVOCAÇÃO DAS ÁGUAS (Porto, 2015)


Abro páginas,
rompo silêncios
na margem
ondulada dos teus cabelos.
Sei de cor a outra margem
do rio onde te demoras 
como casa alucinada que percorro.
Vagueio o corpo alucinado,
farrapo nos ventos
das nossas memórias.
Cobrem as paredes 
e vivem nas janelas da fome
da pele onde não pernoitas.

Num dia sem horas
esperarei por ti
vestida de laços brancos como os silêncios
por desatar.
E será noite e manhã no limiar 
das palavras de um poema
que se abrasam e clamam sem parar.

LÍLIA TAVARES, in RIO DE DOZE ÁGUAS (Coisas de Ler Ed., 2012)

Habitas-me
como a uma casa
de um só quarto
no alto de uma falésia;
Como a ventania
irrompe na floresta, cavando clareiras
ou devagar vai esculpindo luas
nas areias.

13/02/2023

AVES SEM POUSO (Afonso Félix de Sousa)

 Percorro o território do teu corpo

e um ninho, um pouso busca a boca cega
salivando saliências e reentrâncias
que dás e negas, tão cheia de graça,
e és tão cheia de ninhos, só que pairas
em páramos que esboças pelo teto
quando descerro as portas que me trancam
o coração, e o coração já voa
também por outros páramos, por onde
como soltos no espaço nós soltamos
essas aves que em vão buscam um pouso.

DESEJO E PRAZER (Joel Gallinati Heim)

 Meu corpo junto ao seu te aquece
Braços te envolvem com firmeza
Mãos percorrem sua pele macia
Línguas provam nossos sabores
Seu corpo se entrega ao prazer
Bem suave te penetro lentamente
Deslizando avanço toco seu íntimo
Um calafrio de tesão te percorre e
Você geme com uma volúpia intensa
Derramo meu leite num gozo pleno
Um instante a saborear o momento
Seu rosto iluminado com um sorriso
Vejo o desejo de quem quer mais
Então prometo ser seu para sempre.

SOPRAVA O VENTO PELA FRESTA ( Bertold Brecht )

Soprava o vento pela fresta
A menina comia nêspera
Antes de dar em segredo
O níveo corpo ao folguedo:

Mas antes provou ter tacto
Pois só o queria nu no acto
Um corpo bom como um figo
Não se vai foder vestido.

Para ela em tempos de ais
Nunca o gozo era demais.
Lavava-se bem depois:
Nunca o carro antes dos bois.
(Tradução de Aires Graça)














NUA (Isabel Machado)

Porque me despes completamente
sem que eu nem perceba.
E quando nua
por incrível que pareça
sou mais pura.
Porque vou ao teu encontro
despojada de critérios.
liberto os mistérios
sem perder o encanto
do prazer.
Porque
quando nua
sou única
e exclusivamente
tua.

ERÓTICO PURITANO ( Niandra LaDez)

As pontas dos meus seios apontam para o céu
inchados e duros
pequenos e brancos
reluzem e gritam
enquanto as estrelas queimam e umedecem
meus santos orifícios
com seus toques inesperados.
sou cega, muda, espasmódica.
pernas abertas por um mundo melhor.