06/09/2023

CANÇÃO À AUSENTE ( Pedro Homem de Mello )

 Para te amar ensaiei os meus lábios.

Deixei de pronunciar palavras duras.
Para te amar ensaiei os meus lábios!

Para tocar-te ensaiei os meus dedos.
Banhei-os na água límpida das fontes.
Para tocar-te ensaiei os meus dedos!

Para te ouvir ensaiei meus ouvidos!
Pus-me a escutar as vozes do silêncio.
Para te ouvir ensaiei meus ouvidos!

E a vida foi passando, foi passando.
E, à força de esperar a tua vinda,
De cada braço fiz mudo cipreste.

A vida foi passando, foi passando.
E nunca mais vieste!

12/08/2023

EU TE BAPTIZO EM NOME DO MAR ( Graça Pires )

 Eu te baptizo em nome do mar,

disse minha mãe com barcos na voz.

E as ondas enlearam nas águas o meu nome,

abrindo nas fendas do corpo um impulso

salgado que me brandiu o sangue.

Sei agora que há âncoras afogadas

nos meus olhos: nítido eco de todas as demandas.


INTERVALO AMOROSO ( Affonso Romano de Sant’Anna )

 O que fazer entre um orgasmo e outro,

quando se abre um intervalo
sem teu corpo?

Onde estou, quando não estou
no teu gozo incluído?
Sou todo exílio?

Que imperfeita forma de ser é essa
quando de ti sou apartado?

Que neutra forma toco
quando não toco teus seios, coxas
e não recolho o sopro da vida de tua boca?

O que fazer entre um poema e outro
olhando a cama, a folha fria?

DEFINIÇÃO ( Affonso Romano de Sant’Anna )

 O corpo é onde

é carne:

o corpo é onde
há carne
e o sangue
é alarme.

O corpo é onde
é chama:

o corpo é onde
há chama
e a brasa
inflama.

O corpo é onde
é luta:

o corpo é onde
há luta
e o sangue
exulta.

O corpo é onde
é cal:

o corpo é onde
há cal
e a dor
é sal.

O corpo
é onde
e a vida
é quando.

ELE (Elisa Lucinda) in "Fúria da Beleza". Rio de Janeiro: Editora Record, 2006.

Ele
Já começa a beijar o meu pescoço
com sua boca meio gelada meio doce,
já começa a abrir-me seus braços
como se meu namorado fosse,
já começa a beijar a minha mão,
a morder-me devagar os dedos,
já começa a afugentar-me os medos
e dar cetim de pijama aos meus segredos.
Todo ano é assim:
vem ele com seus cajás, suas oferendas, suas quaresmeiras,
vem ele disposto a quebrar meus galhos
e a varrer minhas folhas secas.
Já começa a soprar minha nuca
com sua temperatura de macho,
já começa a acender meu facho
e dar frescor às minhas clareiras.
Já vem ele chegando com sua luz sem fronteiras,
seu discurso sedutor de renovação,
suas palavras coloridas,
e eu estou na sua mão.

Todo ano é assim:
mancomunado com o vento, seu moleque de recados,
esse meu amante sedento alvoroça-me os cabelos,
levanta-me a saia, beija meus pés,
lábios frios e língua quente,
calça minhas meias delicadamente
e muda a seu gosto a moda de minhas gavetas!

É ele agora o dono de meus cadernos, meu verso, minha tela,
meu jogo e minhas varetas.
Parece Deus, posto que está no céu, na terra,
nas inúmeras paisagens,
na nitidez dos dias, no arcabouço da poesia,
dentro e fora dos meus vestidos,
na minha cama, nos meus sentidos.

Todo ano é assim:
já começa a me amar esse atrevido,
meu charmoso cavalheiro, o belo Outono,
meu preferido.

08/08/2023

OUTRAS PALAVRAS ( Marina Colasanti )

 Para dizer certas coisas

são precisas
palavras outras
novas palavras
nunca ditas antes
ou nunca
antes
postas lado a lado.
São precisas
palavras que inventaram
seu percurso
e cantam sobre a língua.
Para dizer certas coisas
são precisas palavras
que amanhecem.

PORTA DO ARMÁRIO ABERTA ( Marina Colasanti )

Abro a porta do armário
como abro um diário,
a minha vida ali
dependurada
meu frusto cotidiano
sem segredos
intimidade exposta
que os botões não defendem
nem se veda nos bolsos,
espelho mais real que todo espelho
entregando à devassa
as medidas do corpo.

Armário
tabernáculo do quarto
que abro de manhã
como à janela
para sagrar o ritual do dia.
Sala de Barba Azul
coalhada de pingentes
longas saias e véus
emaranhados sem que sangue goteje.
Corpos decapitados
ausentes minhas mãos
dos murchos braços.

Do armário minhas roupas
me perseguem
como baú de herança ou
maldição.
Peles minhas pendentes
em repouso
silenciosas guardiãs
dos meus perfumes
tessituras de mim
mais delicadas
que a luz desbota
que o tempo gasta
que a traça rói
ainda assim durarão nos seus cabides
muito mais do que eu sobre meus ossos.

Nenhuma levarei.
Irei despida
deixando atrás de mim
a porta aberta.

07/08/2023

VEIAS ( Maria do Rosário Pedreira )

 Nas minhas veias corre vento – por

isso, dá-me um vestido inflamado de 
rosas e ensina-me as horas do amor: 

daqui até a morte é um instante.


PEITO ( Maria do Rosário Pedreira )

 Todos querem saber se os meus

lábios ainda estão cheios dos teus 
beijos, se as minhas mãos se abrem 
ainda para as tuas nos passeios de 

verão. Mil olhos me perguntam se 
este corpo que vêem agora assim 
amarrotado continua a receber-te 

na cama, antes do sono, quando o 
pano azul-escuro da noite cai sobre 
o mundo e o vento leva as estrelas 
para longe de casa. Não lhes conto: 

o que há no meu peito é entre nós.


NÁDEGAS ( Maria do Rosário Pedreira )

 Lembro-me e sinto tudo

novamente: passo a mão
pelo veludo das tuas calças
velhas e aperto as nádegas
firmes do passado. Não sou

só eu: as tuas roupas também
têm saudades.

29/07/2023

De Vera Silva

 Abre a boca

E devora-me a língua
Em gestos soltos e precisos
Como se não te chegasse o tempo
Para me amares com loucura.
Enrosca-te nas minhas coxas
E prova o meu néctar de mulher.
Deixa-me gritar
E leva-me ao céu,
Entra em mim
Profundo,
Em movimentos perfeitos
De amante sensual,
E no fim
Sacia-me a sede
Do teu vigor.

De Margarida Piloto Garcia

Se as frases são de encantos e magias
não deixes de as dizer.
Conta-me a história dos murmúrios sussurrados,
vertidos no orvalho matinal,
lambidos na gota de suor.
O sal que me perfuma
traz as gaivotas até à minha pele.
Tanta salmoura é mar, é lágrima, é sémen de uma nova vida.
Abro-me em flor.
Carnuda.
Prenhe de desejo.
Sei ser um corpo ao vento
fustigada na ciclópica tempestade.
Não vergo mais.
Junco flexível.
Alma elástica em torvelinho.
Trauma pré-concebido.

E a tua voz é quente e abrasadora!
Bálsamo refrescante na minha alma,
ácido corrosivo no meu eu.
Dissolvo-me na contradição.
Mas essas frases inundantes,
deixam-me num porto á tua espera,
figurinha recortada em mítico horizonte.
Persigo sonhos mas o sono brinca com as horas
fá-las escorregar numa fiada de pérolas,
nacaradas, lisas, frescas na minha pele sedenta.

Se desfraldo essa vela,
rumo a um mar profundo.
Levo comigo a faca serrilhada,
desenhando runas ancestrais dentro de mim.
Sinto-lhe a ponta fria e metálica
mas abro-lhe os braços.
Cedo à carícia perfurante,
cega por uma dor que me tortura.
Aventuro-me sabendo-me por certo sem regresso.
Mas as sereias trazem as frases encantadas
e se as quiser beber
não posso recusar a embriaguez.

Provo o teu elixir,
ambrosia divinal.
E espero-te na noite sem memória.
Oferto-te o imaginário
sabendo que nos olhamos de diferentes cais.
Mas se as frases são de encantos e magias,
não deixes de as dizer.


SEI DE COR ( Maria Escritos )( Paula Maria da Rocha Moreira )

 Sei de cor

Cada traço da tua pele
Cada sabor expelido
Nos espasmos enfurecidos
Das noites ardentes de amor
Sinto
A chama que irradia em ti
Quando encostas
Teu corpo no meu
E me acaricias lentamente
Grito
Gemidos loucos de prazer
Nessa dança compulsiva
Com que me possuis
E te deitas sobre mim
Abraço teu corpo
Absorvendo do suor escorrido
Na fúria do desejo
Saciado em catadupa 
Entre jorros de prazer



SUSPIRO GOTAS( Maria Escritos )( Paula Maria da Rocha Moreira )

 Suspiro gotas

Entre sedas e cetim
Num bailado de cadencias distantes
Dos desejos incontidos
Suspiro gotas
Entre o roçar da pele
Sob o incenso vaporoso
Da sedução do amor
Suspiro gotas
Na dança de corpos desnudados
Entre a chama sibilante
Do aroma que paira no ar
Arrepios saem
Num ápice entre gemidos
Da inconsistência bruta
Dessa ânsia que assenta em mim
Suspiro gotas
Gemidos saem
Estremecimentos expelidos
Numa dança sem fim

TOCA - ME ( Maria Escritos )( Paula Maria da Rocha Moreira )

 Toca-me!

Toca meu corpo,
Instrumento que espera
Pelo suave toque dos teus acordes

Toca-me!
Toca meu corpo,
Violino teu no timbre exacto
Suspirando notas em perfeita harmonia

Toca-me!
Toca meu corpo,
Conduz teu corpo sobre o meu
Que vibra à espera do primeiro tom

Toca-me!
Toca meu corpo,
Arranca de mim as mais belas notas
Para entoar segregadas aos teus ouvidos

Toca-me!
Toca meu corpo,
E cala a minha boca com um beijo teu
Acolhe meu corpo que tua boca recebeu

SEI O GOSTO ( Cláudia Marczak )

 Sei o gosto do seu beijo,

Seu cheiro me guia
Na escuridão da noite.
Onde está você agora
Que seu espírito engoliu meu coração ?
Por que não o encontro,
Amanhecendo ao meu lado,
Quando meu corpo chora seu abraço…
Não tente me entender,
Apenas me toque,
Deixa seu suor inundar
Minha pele com seu prazer
Beija-me
Possua-me
Que na minha solidão
Já não cabe o tamanho da sua ausência,
Pois quando vi seus olhos
Repletos de luz
O breu da minha tristeza
Iluminou-se de festa
E fez da minha estrada
Um rio de águas mornas
Desaguando no seu mar.
Deixe-me gritar seu nome
Deixe-me sangrar seu coração
Deixe-me lamber em seus lábios
Toda a dor que eles tem
E beber sua saliva de fel.
Não deixe meus olhos se fecharem,
Pois eles possuem os sonhos frágeis
De quem ama demais.

LADAINHA HORIZONTAL ( David Mourão - Ferreira )

 Como se fossem jangadas

desmanteladas,
vogam no mar da memória
as camas da minha vida 
Tanta cama! Tanta história!
Tanta cama numa vida!
Grabatos, leitos, divãs,
a tarimba do quartel;
e no frio das manhãs
lívidas camas de hotel 
Ei-las vogando as jangadas
desmanteladas,
todas cobertas de escamas
e do sal do mar da vida 
Tanta cama! Tantas camas!
Tanta cama numa vida!
Já os lençóis amarrados
tocam no centro da Terra
(que o reino dos desesperados
fica no centro da Terra!)
e os cobertores empilhados
são monte que não se alcança!
Só as tábuas das jangadas
desmanteladas
boiam no mar da lembrança
e no remorso da vida 
Homem sou. Já fui criança.
Tanta cama numa vida!
Nem vão ao fundo as de ferro,
nem ao céu as de dossel
Lembro-vos, camas de ferro
de internato e de bordel,
gaiolas da adolescência,
ginásios do amor venal!
Barras fixas. Imprudência.
Sem rede, o salto mortal
pra fora da adolescência 
E confundem-se as jangadas
desmanteladas
no mar da reminiscência 
Onde estás, ó minha vida?
Sono. Volúpia. Doença.
Tanta cama numa vida!
E recordo-vos, tão vagas,
vós que viestes depois,
ó camas transfiguradas
das furtivas ligações!
Camas dos fins-de-semana,
beliches da beira-mar 
Oh! que arrojadas gincanas
sobre os altos espaldares!
E as camas das noites brancas,
tão brancas!, tão tumulares!
Cigarros. Beijos. Uísque.
Ó fragílimas jangadas,
desmanteladas!
E nelas há quem se arrisque
sobre as pétalas da vida!
Cigarros. Beijos. Uísque.
Tanta cama numa vida!
E o amor? Tálamo, templo,
conjugação conjugal
O amor: tálamo, templo
– ilha num mar tropical.
Mas ao redor, insistentes,
bramam as ondas do mar,
do mar da memória ardente,
eternamente a bramar 
Já no frio dos lençóis
há prelúdios da mortalha;
e, nas camas, sugestões
fúnebres, torvas, pesadas
– Sede, por fim, ó jangadas
desmanteladas,
a ponte do esquecimento
prà outra margem da Vida!
Sede flecha, monumento,
ponte aérea sobre o Tempo,
redentora madrugada!
Se o não fordes, sereis nada,
jangadas
desmanteladas,
todas roídas de escamas
da margem de cá da Vida 
Pobres camas! Tristes camas!
Tanta cama numa vida!


 

 


 

 

E POR VEZES ( David Mourão-Ferreira )

 E por vezes as noites duram meses E por

vezes os meses oceanos E por vezes os
braços que apertamos nunca mais são os
mesmos E por vezes

encontramos de nós em poucos meses o
que a noite nos fez em muitos anos E por
vezes fingimos que lembramos E por
vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos só o
sarro das noites não dos meses lá no
fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah e por vezes
num segundo se evolam tantos anos

RESPIRA NÃO FALES ( David Mourão - Ferreira )

 Entre as duas nádegas 

o pávido sulco
tem aroma de áfricas 
e de uvas de outubro

Dirias que fora 
um silvo de morte 
a penetrar toda
a nocturna flora
até hoje intacta
que ainda aí tinhas

Respira Não fales
Murmura Não grites

Que travo de amoras
Que túnel escuro
Que paz no que sofres 
por mais uns minutos

o pescoço vergas submissa e frágil
tal o de uma égua que vai beber água
mas encontra a lua 

E junto da cama
a rosa viúva
com lágrimas brancas
já pede a meus dedos 
sacudido apoio
para a viuvez
em que a deixo hoje

Muito mais a norte 
os queixumes calas
E nem gemes
Gozas enquanto te invade
o suco da vara vertido no sulco

Vê como foi fácil
Respira mais fundo

SOBRE MIM CAVALGAS... ( David Mourão-Ferreira )

 Sobre mim cavalgas 

cingindo-me os flancos
Colhes à passagem
a luz do instante

De dentes cerrados
ondulas, avanças, 
retesas os braços,
comprimes as ancas.

Depois para a frente 
inclinas-te olhando
o que entre dois ventres 
ocorre entretanto,
e o próprio galope
em que vais lançada 
Que lua te empolga 
Que sol te embriaga

Lua e sol tu és 
enquanto cavalgas 
amazona e égua
de espora cravada
no centro do corpo 

Centauresa alada 
com os seios soltos 
como feitos de água.

Queria bebê-los 
quando mais te dobras 
Os cabelos esses 
sorvê-los agora

Mas de cada vez
que o rosto aproximas
já é outra a sede
que me queima a língua:
A de nos teus olhos 
tão perto dos meus
descobrir o modo
de beber o céu.

CURTAS ( David Mourão-Ferreira )

Quem foi que à tua pele conferiu esse papel
de mais que tua pele ser a pele da minha pele?

Cintilação de luas
assim que te desnudas
às escuras

Diante do teu ventre
como não dizer "sempre"
novamente.

Ó lâmina e bainha
de outra espada ainda
Tua língua

Ruge. Reprende. Arrasa
Desde que sempre o faças
com as asas

Vem dos arcanos de outro tempo
ou dos anéis de outra galáxia
esta espessura transparente
que só na cama as almas ganham


ILHA ( David Mourão - Ferreira )

Deitada és uma ilha E raramente
surgem ilhas no mar tão alongadas
com tão prometedoras enseadas
um só bosque no meio florescente
promontórios a pique e de repente
na luz de duas gémeas madrugadas
o fulgor das colinas acordadas
o pasmo da planície adolescente
Deitada és uma ilha que percorro
descobrindo-lhe as zonas mais sombrias
Mas nem sabes se grito por socorro
ou se te mostro só que me inebrias
Amiga amor amante eu morro
da vida que me dás todos os dias

28/07/2023

IMAGEM ( Dante Milano )

 Uma coisa branca,

Eis o meu desejo.

Uma coisa branca
De carne, de luz,

Talvez uma pedra,
Talvez uma testa,

Uma coisa branca,
Doce e profunda,

Nesta noite funda,
Fria e sem Deus.

Uma coisa branca,
Eis o meu desejo.

Que eu quero beijar,
Que eu quero abraçar,

Uma coisa branca
Para me encostar

E afundar o rosto.
Talvez um seio,

Talvez um ventre,
Talvez um braço,

Onde repousar.
Eis o meu desejo,

Uma coisa branca
Bem junto de mim,

Para me sumir,
Para me esquecer,

Nesta noite funda,
Fria e sem Deus.