10/01/2024

CHAMAMENTO ( Luísa Dacosta )

 Da margem do sonho

e do outro lado do mar
alguém me estremece
sem me alcançar.

Um bafo de desejo
chega, vago, até mim.
Perfume delido
de impossivel jasmim.

É ele que me sonha?
Sou eu a sonhar?
Sabê-lo seria
desfazer, no vento,
tranças de luar.

Nuvens,
barcos,
espumas
desmancham-se na noite.

E a vida lateja, longe,
num outro lugar.

06/01/2024

A UM JOVEM POETA ( Manuel António Pina )

 Procura a rosa.

Onde ela estiver
estás tu fora
de ti. Procura-a em prosa, pode ser
que em prosa ela floresça
ainda, sob tanta
metáfora; pode ser, e que quando
nela te vires te reconheças
como diante de uma infância
inicial não embaciada
de nenhuma palavra
e nenhuma lembrança.
Talvez possas então
escrever sem porquê,
evidência de novo da razão
e passagem para o que não se vê.

05/01/2024

POEMA DE AMOR ( Ruy Cinatti )

 Os segredos de amor têm profundezas difíceis de alcançar, 

tal como a chuva que hoje cai e nos molha na calçada a face,

nós olhando triste uma saudade imensa

num corpo de mulher metamorfoseada. 

 

Sou demasiado são para me esquecer

do tempo apaixonado que vivi nos teus braços

e bebo no teu um coração meu

adormecido no mar do meu cansaço

ou no rio das minhas secas lágrimas. 

 

Tardará muito, se é que as horas contam, 

ver-te, de novo, perto de mim, longe, 

mas eu espero, sou paciente e, no meu canhenho, aponto, 

um dia a menos, o da tua chegada. 

E assim me fico, rente ao horizonte,

abrigado da chuva numa cabine telefónica,

e ligo para ti - que número? - ninguém responde

do oceano que avança e retrai colinas,

o vulto de um navio, tu na amurada

acenando um lenço, ó minha pomba branca!

 

Como se tempestade houvesse e um naufrágio de chuva

- as vidraças escorrem, as árvores liquefazem-se... 

escurecendo os teus cabelos,

ou, se preferes, a minha boca neles 

carregada de ilhas, de nocturnos perfumes

que ateiam lumes, ó minha idolatrada, 

na minh' alma inquieta um outro bater d' asas

ou num jardim um leito de flores!


31/12/2023

ELEGIA : INDO PARA O LEITO ( John Donne )

 Vem, Dama, vem que eu desafio a paz;

Até que eu lute, em luta o corpo jaz.
Como o inimigo diante do inimigo,
Canso-me de esperar se nunca brigo.
Solta esse cinto sideral que vela,
Céu cintilante, uma área ainda mais bela.
Desata esse corpete constelado,
Feito para deter o olhar ousado.
Entrega-te ao torpor que se derrama
De ti a mim, dizendo: hora da cama.
Tira o espartilho, quero descoberto
O que ele guarda quieto, tão de perto.
O corpo que de tuas saias sai
É um campo em flor quando a sombra se esvai.
Arranca essa grinalda armada e deixa
Que cresça o diadema da madeixa.
Tira os sapatos e entra sem receio
Nesse templo de amor que é o nosso leito.
Os anjos mostram-se num branco véu
Aos homens. Tu, meu anjo, és como o Céu
De Maomé. E se no branco têm contigo
Semelhança os espíritos, distingo:
O que o meu Anjo branco põe não é
O cabelo mas sim a carne em pé.
     Deixa que minha mão errante adentre.
Atrás, na frente, em cima, em baixo, entre.
Minha América! Minha terra a vista,
Reino de paz, se um homem só a conquista,
Minha Mina preciosa, meu império,
Feliz de quem penetre o teu mistério!
Liberto-me ficando teu escravo;
Onde cai minha mão, meu selo gravo.
     Nudez total! Todo o prazer provém
De um corpo (como a alma sem corpo) sem
Vestes. As jóias que a mulher ostenta
São como as bolas de ouro de Atalanta:
O olho do tolo que uma gema inflama
Ilude-se com ela e perde a dama.
Como encadernação vistosa, feita
Para iletrados a mulher se enfeita;
Mas ela é um livro místico e somente

A alguns (a que tal graça se consente)
É dado lê-la. Eu sou um que sabe;
Como se diante da parteira, abre-
Te: atira, sim, o linho branco fora,
Nem penitência nem decência agora.
     Para ensinar-te eu me desnudo antes:
A coberta de um homem te é bastante.


SEM CULPA (Judith Teixeira )

 Dizes agora que eu quis acabar;

que sou culpada dos teus tristes dias;
que não te amei ou não te soube amar;
porém é falsa a teima em que porfias.

Deixavas-me sozinha, a delirar
ciúmes, em loucuras e bravias
crispações; começava a agonizar
o meu amor, e tu nada fazias!

Não querias acabar mas insististe
nesta separação tão longa e triste
e escrevias-me cartas tão banais!

Porque quiseste ser o meu ausente?
se o meu amor já era tão doente
e eu não podia acreditar-te mais!


 

RAJADA ( Judith Teixeira )

 Abram-se as portas do inferno

para o meu amor!
Rasgue-se a terra num rugido eterno
para solver a minha dor!

Trágica cavalgada
do meu pensamento!
Tu andas batalhando o meu tormento
Num rumor de maldição!

Oh rajada infernal!
leva-me o coração,
onde vibra a agonia do meu mal.

E se amarrada à minha cruz de fogo,
nesta ânsia rubra, eu não vencer a dor,
dispersa seja a queixa do meu rogo!
- E que o vento e as ondas,
a fiquem gritando
num eterno clamor!

30/12/2023

CAMPO COM MULHER AO FUNDO ( Nuno Júdice )

 Abri as folhas de um canto de flores nómadas,

de veios apodrecidos e pele rugosa, a desfazer-se
nas mãos que procuravam o corpo da deusa do campo,
de braços enterrados na erva selvagem e rosto virado
para o céu. Procurei nesse livro de arbustos a cor
dos seus olhos, e o fogo do sol reflectiu-se neles,
cegando-me para que não continuasse essa leitura
demente. Mas a sua voz entrou-me pelos ouvidos
da alma, e fi-la soletrar cada sílaba do seu nome, para
não o esquecer nas noites amargas dos longos
continentes em que a saudade, num murmúrio
de corolas sacudidas pelo cansaço do branco, se
prolonga até de madrugada.
Fi-la estender os seus braços na terra húmida
de um breve orvalho, e contei os passos que faltavam
para romper o canavial e descobrir, nesse rio de espumas
sensuais, uma deriva de aves perdidas da sua migração. E
pousei-a numa cama de tábuas e de estevas, coberta
por um pano de palavras tecidas pelas mãos do amor,
desenhando os seus lábios com o sulco de asas que
arranquei ao voo de uma sombria libélula. Toquei
nos seus seios o seu casulo; e senti uma respiração suave
como a aragem que atravessou a colina de onde a vi
descer, empurrada pelos braços de um desejo
de cadências obscuras, de mudos suspiros, de
uma floração de murmúrios ao ouvido da noite.
Recortei esse campo do seu horizonte e colei-o
na página da minha memória, para o percorrer na ausência
do seu corpo. Então, luminosa, a imagem ressurge desse
canto de aves e de vento, e visto-a com o perfume
aveludado da primavera fugitiva. Ainda ouço a sua voz,
na cansada mansidão de um leito de manhãs incandescentes.

ALICE QUEIROZ, in JARDIM DE AFECTOS

 Não é por acaso

que existe um espaço
entre dois braços
lugar onde se semeiam
germinam e crescem
os abraços
No espaço
entre dois braços
exauram-se medos e agonias
removem-se pedras do caminho
fecundam-se sonhos
criam-se laços
No espaço entre dois braços
calam-se as vozes e os passos
falam os sentidos consentidos
nasce a vertigem de coração
com coração sem embaraços
Não não é por acaso
que existe um espaço
entre dois braços
lugar onde se semeiam
e crescem os abraços


29/12/2023

PUDESSE EU VIVER ( Maria Teresa Horta )

 Pudesse eu viver

no interior da poesia
cada palavra um rigor
cada maneira de amor
que eu descrevesse
cada verso do corpo
e do despir, cada rima
de beleza e de fragor
cada poema de paixão
e liberdade
de tristeza e solidão

22/12/2023

MINHA VIDA (Judith Teixeira )

 Tu estás doente meu amor, porquê?

Falta-te o sol, a luz, o meu sabor?
Ou queres tu, que ainda eu te dê,
nos meus braços, mais ânsia, mais calor?

Se és tu o sol, a graça, essa mercê
divina que Deus trouxe à minha dor,
exige tudo, a minha vida e crê
que ta darei com alegria, amor!

Se perdes a alegria, minha vida,
perco-me eu a procurar a causa:
minha alegria é também perdida!

Beijemo-nos, meu bem, ardentemente...
que venha a morte numa doce pausa
e que nos leve se não és contente!

ROSAS VERMELHAS ( Judith Teixeira )

 Que estranha fantasia!

Comprei rosas encarnadas
às molhadas
dum vermelho estridente,
tão rubras como a febre que eu trazia...
- E vim deitá-las contente
na minha cama vazia!

Toda a noite me piquei
nos seus agudos espinhos!
E toda a noite as beijei
em desalinhos...

A janela toda aberta
meu quarto encheu de luar...
- Na roupa branca de linho,
as rosas,
são corações a sangrar...

Morrem as rosas desfolhadas...
Matei-as!
Apertadas
às mãos-cheias!

Alvorada!
Alvorada!
Veio despertar-me!
Vem acordar-me!

Eu vou morrer...
E não consigo desprender
dos meus desejos,
as rosas encarnadas,
que morrem esfarrapadas,
na fúria dos meus beijos!

VOLÚPIA ( Judith Teixeira )

 Era já tarde e tu continuavas

entre os meus braços trémulos, cansados...
E eu, sonolenta, já de olhos fechados,
bebia ainda os beijos que me davas!

Passaram horas! Nossas bocas flavas,
Muito unidas, em haustos repousados,
Queimavam os meus sonhos macerados,
Como rescaldos de candentes lavas.

Veio a manhã e o sol, feroz, risonho,
entrou na minha alcova adormecida,
quebrando o lírio roxo do meu sonho...

Mas deslumbrou-se e em rúbidos adejos
Ajoelhou-se e numa luz vencida,
Sorveu, sorveu o mel dos nossos beijos!

SINFONIA HIBERNAL ( Judith Teixeira )

 Adoro o inverno.

Envolvo-me assim mais no teu carinho,
friorenta e louca...
Nascem-me na alma os beijos
que se vão aninhar na tua boca!
Gosto da neve
a diluir-se ao sol
em risos de cristal!
Vem-me turbar a ânsia do teu rogo...
E a neve fulgente
dos meus dentes trémulos,
vai fundir-se na taça ardente,
rubra e original,
na qual eu bebo os teus beijos em fogo!
Tu adormentas a minha dor
na doce sombra dos teus cabelos,
e eu envolvo-me toda nos teus braços
para dormir e sonhar!
- lá fora que não deixe de chover,
e o vento que não deixe de clamar!
Deixá-lo gritar!
Que importa o seu clamor,
se me abrasa o teu olhar
vivíssimo?!
Atei, meu amor, o fogo em que me exalto...
- Enrola-me mais...
ainda mais no teu afago;
que esta alegria do nosso amor
suavíssimo,
será mais forte e gritará mais alto!


 

BAILADOS AO LUAR ( Judith Teixeira )

 Pétalas de rosas

tombam lentamente, silenciosas.
E de vagar
vem entrando
a farândola rítmica
e silente
dos góticos bailados do luar!

Sobre as dobras macias
e assediantes
da seda do meu leito desmanchado,
esguias sombras
adelgaçando afagos,
poisam no meu peito desvestido.
E a boca hipnótica e algente
do meu luarento amante,
vai esculpindo o meu corpo
pálido e vencido!

No espaço azul e vago,
esvoaça subtilmente
a cálida lembrança
da tua voz!

Busco a verdade viva do teu beijo
e encontro apenas
esta estranha heresia,
crispando o alvo recorte
do meu corpo magoado!

Estilhaçam-se, vibrando
numa ânsia doentia,
os meus nervos nostálgicos,
irreverentes
empalidecendo
em dolências inocentes
o rubor do meu desejo
insaciado.

As rosas vão tombando lentamente,
devagar,
sobre a carícia dormente
e embruxada
dos espásmicos beijos do luar.
Oiço a tua voz
em toda a parte!

E perco-me dentro dos meus próprios braços,
tumultuosos e exigentes,

a procurar-te!

ILUSÃO (Judith Teixeira)

Vens todas as madrugadas

prender-te nos meus sonhos,
estátua de Bizâncio
esculpida em neve!
e poisas a tua mão
mavia e leve
nas minhas pálpebras magoadas...

Vens toda nua, recortada em graça
rebrilhante, iluminada!
Vejo-te cegar
como uma alvorada
de sol!
E o meu corpo freme,
e a minha alma canta,
como um enamorado rouxinol!

Sobre a nudez moça do teu corpo,
dois cisnes erectos
quedam-se cismando em brancas estesias
e na seda roxa
do meu leito,
em rúbidos clarões,
nascem, maceradas,
as orquídeas vermelhas
das minhas sensações!

És linda assim; toda nua,
no minuto doce
em que me trazes
a clara oferta do teu corpo
e reclamas firmemente
a minha posse!

Quero prender-me à mentira loira
do teu grácil recorte...
E os teus beijos perfumados,
nenúfares desfolhados
pela rajada dominante e forte
das minhas crispações,
tombam sobre eu meus nervos
partidos... estilhaçados!

............................

Acordo. E os teus braços,
muito ao longe,
desfiam ainda
a cabeleira fulva
do sol
por sobre os oiros adormecidos
da minha alcova

Visão bendita! Repetida e nova!

Loira Salomé
de ritmos esculturais!
Vens mais nua
esta madrugada!
Vem esconder-te na sombra dos meus olhos
e não queiras deixar-me...
ai nunca, nunca mais!

 

21/12/2023

DEUS (Nuno Júdice)

 À noite, há um ponto do corredor

em que um brilho ocasional faz lembrar
um pirilampo. Inclino-me para o apanhar
- e a sombra apaga-o. Então,
levanto-me: já sem a preocupação
de saber o que é esse brilho, ou
do que é reflexo.
Ali, no entanto, ficou
uma inquietação; e muito tempo depois,
sem me dar conta do motivo autêntico,
ainda me volto no corredor, procurando a luz
que já não existe.

SAUDADE ( Judith Teixeira )

 Segue-me noite e dia o teu desejo!

Oiço a tua voz rúbida e cantante
Suplicar-me a carícia do meu beijo,
numa teima exigente e perturbante!

E o meu corpo vencido, dominado,
vai tombar doloroso, inconsciente,
sobre a lembrança morna do passado
- e fica-se a sonhar perdidamente!

REQUIEM POR MUITOS MAIOS (Nuno Júdice)

 Conheci tipos que viveram muito. Estão

mortos, quase todos: de suicídio, de cansaço.
de álcool, da obrigação de viver
que os consumia. Que ficou das suas vidas? Que
mulheres os lembram com a nostalgia
de um abraço? Que amigos falam ainda, por vezes,
para o lado, como se eles estivessem à sua
beira?

No entanto, invejo-os. Acompanhei-os
em noites de bares e insónia até ao fundo
da madrugada; despejei o fundo dos seus copos,
onde só os restos de vinho manchavam
o vidro; respirei o fumo dessas salas onde as suas
vozes se amontoavam como cadeiras num fim
de festa. Vi-os partir, um a um, na secura
das despedidas.

E ouvi os queixumes dessas a quem
roubaram a vida. Recolhi as suas palavras em versos
feitos de lágrimas e silêncios. Encostei-me
à palidez dos seus rostos, perguntando por eles - os
amantes luminosos da noite. O sol limpava-lhes
as olheiras; uma saudade marítima caía-lhes
dos ombros nus. Amei-as sem nada lhes dizer - nem do amor,
nem do destino desses que elas amaram.

Conheci tipos que viveram muito - os
que nunca souberam nada da própria vida.

UM POEMA DE AMOR (Nuno Júdice)

 Não sei onde estás, se falas

ou se apenas olhas o horizonte,
que pode ser apenas o de uma
parede de quarto. Mas sei que
uma sombra se demora contigo,
quando me pergunto onde estás:
uma inquietação que atravessa
o espaço entre mim e ti, e
te rouba as certezas de hoje,
como a mim me dá este poema.