11/03/2024

SEM TÍTULO ( Carol Ruiz )

deitada nua ao chão
seu membro duro
tocando os gomos
a eletricidade
percorrendo todas
as minhas veias

seu corpo pesado
quente sobre o meu
fecho os olhos
fecundada como árvore
galhos se expandem
a partir de todo o meu corpo
em folhas flores e frutos
sou toda seiva

VESPA-DO-FIGO (Carol Ruiz)


o figo é uma fruta
para lamber
sentir seu cheiro
penetrar seu orifício
com os dedos
parti-lo ao meio
morder sua polpa
comê-lo de ponta a ponta

saborear o figo
: saciar o desejo

VII (Pietro Nardella Dellova)

 VII

Os seus olhos rompem o silêncio

do claustro, e na noite brilham os

lábios avermelhados, na vontade

de beijos loucos, e no acaso reclamam

os abraços e os amores vários,

e estes traços que se mostram

no seu corpo de ternura

delineiam nos meus olhos fitos

o calor dos afagos, e o aperto nos seios,

e o transpirar constante de corpos nus,

deixe-se e permita-me tirar com beijos

e carinhos muitos a espuma dos lábios

e quero despentear os cabelos

e atirar-me aos seios

modificando suas formas

no hirto da ansiedade e dos desejos,

e grite, apertando-me às suas entranhas

com fogo, e força, e com prazer bastante,

e repouse por fim

no aconchego dos braços,

e não pare,

e não pense, e não parta,

apenas, derrame o beijo da sua boca

para que cubra minha boca novamente…


SANTHA ( Isabella Ingra )

 se sou a santa a te olhar do meu altar

com sua calça jeans decadente e seu all star

de sempre.

 

se sou a santa a fugir

na calada da noite para me espremer entre as grutas com os nativos

 

se sou a santa a chorar as lágrimas

dos meus filhos e gozar a alegria dos meus súditos

 

se sou a santa a gemer

entre os intervalos desse sino

 

se sou a santa a vestir uma camisola tão transparente

tão pura

tão marcada entre as coxas

ajoelhe-se e abra a boca.

 

se sou a santa que implora a própria unção

se me escondo atrás dessas cortinas para que não vejas meus olhos de felina

para não causar confusão entre os irmãos

 

se sou uma santa ou sua sina

ou sua cisma

fugitiva.


QUALQUER LUGAR ( Isabella Ingra )

 se pudesse

te amava no chão

pagaria pela dor nas costas do outro dia

se pudesse

te amava no portão

pagaria pelas fofocas do outro dia

se pudesse

te amava na escada

pagaria pelos quadris doloridos do outro dia

se pudesse

te amava em sonho a noite inteira

pagaria pela nostalgia do outro dia.

se pudesse, eu te amaria.


TULIPA ( Isabella Ingra )

 minha flor se abre para você

desabrocha e chora por você

pede por água, tem muita sede

minha flor se escancara por você

pede por água e carinho,

talvez uma conversa

minha flor tímida se abre para você mesmo quando

minhas pétalas retraem diante da dor

mesmo quando o clima está seco

minha flor se abre para você

não me pergunte por quê.

UMA HISTÓRIA QUASE NOSSA ( Graça Pires)

 Enquanto me dispo, vão-se os teus olhos cobrindo

de perturbado gozo. Vem. Somos jovens de novo.
Podemos colher os medronhos, ainda molhados
pelo orgasmo da manhã e partilhar, palmo a palmo,
a secreta invenção do musgo.
Podemos transgredir o rio da cintura
e reajustar a nau que aporta sobre a boca.
Vem. Podemos roçar a polpa, lamber o suco,
tactear as raízes do fruto ou da fome.
Podemos arriscar as asas, adiar o voo
e, no vértice dos corpos, fruir a paisagem,
lentamente. Vem.

07/03/2024

OS PRESTÍGIOS SIMPLES ( António Ramos Rosa )

Conheço as palavras das árvores, as voluptuosas têmporas
das pedras. Toda a minha vida é um sono de árvores.
Vivo oscilando como uma simples coisa
na paz do espaço. Não pergunto às folhas
onde o país unânime. Sou uma chama do ar.

Oscilo na folhagem. Vibro entre mãos aéreas
sobre os sulcos dos insectos. Amo os simples
prestígios, os percursos leves, as sombras verdes.
Esta é a minha casa de pedras e de sol.
Esta é a minha firmeza suave, minha alegria nova.

Estou no meio do vento, sou uma haste solitária.
Bebo as sombras que deslizam numa volúpia aérea.
Dispo-me e sou um tronco, ou um ramo, uma figura da terra.
Adormeço e desperto para o júbilo do mar.
A boca encontra o seio da primeira harmonia.



27/02/2024

MIJO (um poema urgente) (Angélica Freitas)


1.
uma mulher não deve mijar
deve fazer xixi
2.
uma mulher faz xixi
não mija
mas em banheiros públicos
a mulher acaba que mija
3.
uma mulher faz xixi
porque é mais sexy
mas quando é incontinente
a questão se torna irrelevante
4.
conheço uma mulher
que mijava
mas dizia por aí
que fazia xixi
5.
mijei no balde
foi libertador
mijei no balde
dentro do elevador
mijei com vontade
sim senhor
hoje
sou outra mulher
6.
xixi, mijo, urina: como queira chamar
se tiver nojo e a água acabar
se quiser viver vai ter que tomar
mijo. se quiser pode dizer
xixi ou guaraná

mas continua sendo mijo
7.
nisso tudo eu pensava
a caminho do banheiro
após ter lido uma frase
do marcelo rubens paiva
será que ele mija, o marcelo?
com certeza deve mijar
mirando as estrelas, será?
fazendo desenhos no ar?

(quem se importa?
eu não me importo)
8.
outra questão a se especular
quando acontece dormindo
é xixi ou mijo?
dependerá do fluxo?
da quantidade?
qual o critério?
outra coisa que direi
como aviso ou comentário:
mija-se desperto ou dormindo
peidar só se pode acordado

SEGREDO ( David Mourão Ferreira )

Nem o Tempo tem tempo
para sondar as trevas

deste rio correndo
entre a pele e a pele

Nem o Tempo tem tempo
nem as trevas dão tréguas

Não descubro o segredo
que o teu corpo segrega


 


DIZ- ME O TEU NOME ( Maria Rosário Pedreira )

 Diz-me o teu nome – agora, que perdi

quase tudo, um nome pode ser o princípio
de alguma coisa. Escreve-o na minha mão

com os teus dedos – como as poeiras se
escrevem, irrequietas, nos caminhos e os
lobos mancham o lençol da neve com os
sinais da sua fome. Sopra-mo no ouvido,

como a levares as palavras de um livro para
dentro de outro – assim conquista o vento
o tímpano das grutas e entra o bafo do verão
na casa fria. E, antes de partires, pousa-o

nos meus lábios devagar: é um poema
açucarado que se derrete na boca e arde
como a primeira menta da infância.

Ninguém esquece um corpo que teve
nos braços um segundo – um nome sim.

24/02/2024

QUERO PEDIR DESCULPA A TODAS AS MULHERES ( Rupi Kaur )

 quero pedir desculpas a todas as mulheres

que descrevi como bonitas
antes de dizer inteligentes ou corajosas
fico triste por ter falado como se
algo tão simples como aquilo que nasceu com você
fosse seu maior orgulho quando seu
espírito já despedaçou montanhas
de agora em diante vou dizer coisas como
você é forte ou você é incrível
não porque eu não te ache bonita
mas porque você é muito mais do que isso

NOTAS DO QUOTIDIANO ( Saru Vidal )

 Impulso de acolher o amor,

como uma concha que acolhe a maré.

Gastar o tempo com afeto;

corpo grudento, quente e molhado.

Sentir a água penetrar o estômago,

transformando-se em formigueiro vulvar.

O gosto salgado na língua. uma lágrima no canto do olho.

Dolerse: permitir-se afetar-se com a paisagem.

onde corpos, teias e suspiros sensíveis tricoteiam na praça.

Como é bom sentir-me vivo/ Como é bom o sono profundo.

Como é bom sentir-me alegre/ Como é bom o choro entranhado.


SANGRAR SAGRADO ( Luiza Leite Ferreira )

 Tem algo de sagrado em sangrar

deixar escorrer o que já não serve
esvaziar para encher de novo

Tem algo de lógico em sangrar
para se refazer é preciso
se desfazer primeiro

Tem algo de incômodo em sangrar
porém, nada mais natural:
sofrer faz parte de crescer

MÚSICA ( Vera Silva )

 Caem as letras, uma a uma.

Cai a nossa roupa, espalha-se pelo chão,
Rebolam os versos nos nossos corpos
Em alegre sintonia.
Sinto-te na minha carne, quente.
Entras devagar, dentro de mim
E sacias-me a fome e o querer.

Transpiras-me,
Inspiras-me!

Realizo-te as fantasias mais loucas
Numa entrega indiscreta,
E quente, ardente.
Tomo-te e imaginas-me tua.
Inventamos caminhos indecentes
Para percorrermos juntos
E chegarmos, loucamente, ao fim

Inspiras-me!
Transpiras-me!
Sintonia
Voluptuosidade
Sou tua
Saberás o que queres?
e Amante sensual

PRESÍDIO ( David Mourão - Ferreira )

 Nem todo o corpo é carne. Não, nem todo.

Que dizer do pescoço, às vezes mármore,
às vezes linho, lago, tronco de árvore,
nuvem, ou ave, ao tacto sempre pouco?
E o ventre, inconscientemente como o lodo?
E o morno gradeamento dos teus braços?
Não, meu amor. Nem todo o corpo é carne:
é também água, terra, vento, fogo.
É sobretudo sombra à despedida;
onda de pedra em cada reencontro;
no parque da memória o fugidio
Vulto da Primavera em pleno Outono.
Nem só de carne é feito este presídio,
pois no teu corpo existe o mundo todo!

21/02/2024

BOCA DA NOITE (Alice Ruiz)

 boca da noite

na calada em silêncio
grandes lábios
se abrem em sim

O CORPO ( Sophia de Mello Breyner Andresen )

 Corpo serenamente construído

Para uma vida que depois se perde
Em fúria e em desencontro erguidos
Contra a pureza inteira dos teus ombros.

Pudesse eu reter-te no espelho
Ausente e mudo a todo outro convívio
Reter o claro nó dos teus joelhos
Que vão rasgando o vidro dos espelhos.

Pudesse eu reter-te nessas tardes
Que desenhavam a linha dos teus flancos
Rodeados pelo ar agradecido.

Corpo brilhante de nudez intensa
Por sucessivas ondas construído
Em colunas assente como um templo.

NOITE ( Sophia de Mello Breyner Andresen )

 Noite. Noite em nossa roda. Noite aberta.

E encontramos um silêncio imenso,
Um silêncio perfeito que nos esperava desde sempre,
E uma solidão que era a nossa imagem,
E uma profunda esperança,
Como se a noite tremesse
De tocar a aurora.