Louca... louca queria ser!
"O único jeito de suportar a existência é mergulhar na literatura como numa orgia perpétua". ( Gustave Flaubert )
24/03/2024
AMOR QUANDO ME AMAS ( Natália Nuno )
DESEJO ( Nuno Júdice )
18/03/2024
RETRATO ( Nuno Júdice )
Amo-te; e o teu corpo dobra-se,
no espelho da memória, à luz
frouxa da lâmpada que nos
esconde. Puxo-te para fora
da moldura: e o teu rosto branco
abre um sorriso de água, e
cais sobre mim, como o
tronco suave da noite, para
que te abrace até de madrugada,
quando o sono te fecha os olhos
e o espelho, vazio, me obriga
a olhar-te no reflexo do poema.
FAGULHA ( Ana Cristina Cesar )
Abri curiosa
12/03/2024
DEZ CHAMAMENTOS AO AMIGO ( Hilda Hilst )
I
Olha-me de novo.
Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse
Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.
Te olhei. E há um tempo
Entendo que sou terra. Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta
Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento.
II
Ama-me. É tempo ainda. Interroga-me.
E eu te direi que o nosso tempo é agora.
Esplêndida altivez, vasta ventura
Porque é mais vasto o sonho que elabora
Há tanto tempo sua própria tessitura.
Ama-me. Embora eu te pareça
Demasiado intensa. E de aspereza.
E transitória se tu me repensas.
III
Se refazer o tempo, a mim, me fosse dado
Faria do meu rosto de parábola
Rede de mel, ofício de magia
E naquela encantada livraria
Onde os raros amigos me sorriam
Onde a meus olhos eras torre e trigo
Meu todo corajoso de Poesia
Te tomava. Aventurança, amigo,
Tão extremada e larga
E amavio contente o amor teria sido.
IV
Minha medida? Amor.
E tua boca na minha
Imerecida.
Minha vergonha? O verso
Ardente. E o meu rosto
Reverso de quem sonha.
Meu chamamento? Sagitário
Ao meu lado
Enlaçado ao Touro.
Minha riqueza? Procura
Obstinada, tua presença
Em tudo: julho, agosto
Zodíaco antevisto, página
Ilustrada de revista
Editorial, jornal
Teia cindida.
Em cada canto da Casa
Evidência veemente
Do teu rosto.
V
Nós dois passamos. E os amigos
E toda minha seiva, meu suplício
De jamais te ver, teu desamor também
Há de passar. Sou apenas poeta
E tu, lúcido, fazedor da palavra,
Inconsentido, nítido
Nós dois passamos porque assim é sempre.
E singular e raro este tempo inventivo
Circundando a palavra. Trevo escuro
Desmemoriado, coincidido e ardente
No meu tempo de vida tão maduro.
VI
Foi Julho sim. E nunca mais esqueço.
O ouro em mim, a palavra
Irisada na minha boca
A urgência de me dizer em amor
Tatuada de memória e confidência.
Setembro em enorme silêncio
Distancia meu rosto. Te pergunto:
De Julho em mim ainda te lembras?
Disseram-me os amigos que Saturno
Se refaz este ano. E é tigre
E é verdugo. E que os amantes
Pensativos, glaciais
Ficarão surdos ao canto comovido.
E em sendo assim, amor,
De que me adianta a mim, te dizer mais?
VII
Sorrio quando penso
Em que lugar da sala
Guardarás o meu verso.
Distanciado
Dos teus livros políticos?
Na primeira gaveta
Mais próxima à janela?
Tu sorris quando lês
Ou te cansas de ver
Tamanha perdição
Amorável centelha
No meu rosto maduro?
E te pareço bela
Ou apenas te pareço
Mais poeta talvez
E menos séria?
O que pensa o homem
Do poeta? Que não há verdade
Na minha embriaguez
E que me preferes
Amiga mais pacífica
E menos aventura?
Que é de todo impossível
Guardar na tua sala
Vestígio passional
Da minha linguagem?
Eu te pareço louca?
Eu te pareço pura?
Eu te pareço moça?
Ou é mesmo verdade
Que nunca me soubeste?
VIII
De luas, desatino e aguaceiro
Todas as noites que não foram tuas.
Amigos e meninos de ternura
Intocado meu rosto-pensamento
Intocado meu corpo e tão mais triste
Sempre à procura do teu corpo exato.
Livra-me de ti. Que eu reconstrua
Meus pequenos amores. A ciência
De me deixar amar
Sem amargura. E que me dêem
Enorme incoerência
De desamar, amando. E te lembrando
– Fazedor de desgosto –
Que eu te esqueça.
IX
Esse poeta em mim sempre morrendo
Se tenta repetir salmodiado:
Como te conhecer, arquiteto do tempo
Como saber de mim, sem te saber?
Algidez do teu gesto, minha cegueira
E o casto incendiado momento
Se ao teu lado me vejo. As tardes
Fiandeiras, as tardes que eu amava,
Matéria de solidão, íntimas, claras
Sofrem a sonolência de umas águas
Como se um barco recusasse sempre
A liquidez. Minhas tardes dilatadas
Sobreexistindo apenas
Porque à noite retomo minha verdade:
teu contorno, teu rosto álgido sim
E por isso, quem sabe, tão amado.
X
Não é apenas um vago, modulado sentimento
O que me faz cantar enormemente
A memória de nós. É mais. É como um sopro
De fogo, é fraterno e leal, é ardoroso
É como se a despedida se fizesse o gozo
De saber
Que há no teu todo e no meu, um espaço
Oloroso, onde não vive o adeus.
Não é apenas vaidade de querer
Que aos cinquenta
Tua alma e teu corpo se enterneçam
Da graça, da justeza do poema. É mais.
E por isso perdoa todo esse amor de mim
E me perdoa de ti a indiferença.
FRÉMITO DO MEU CORPO A PROCURAR-TE ( Florbela Espanca ) in A Mensageira das Violetas
Frémito do meu corpo a procurar-te,
11/03/2024
PARA GOZAR ATÉ DOER OS MÚSCULOS ( Roberta Lantyer)
SONETO PERDIDO ( Natalia Klussmann )
SEGREDO DE MENINA ( Laryssa Carreiro )
SEM TÍTULO ( Carol Ruiz )
VESPA-DO-FIGO (Carol Ruiz)
VII (Pietro Nardella Dellova)
VII
Os seus olhos rompem o silêncio
do claustro, e na noite brilham os
lábios avermelhados, na vontade
de beijos loucos, e no acaso reclamam
os abraços e os amores vários,
e estes traços que se mostram
no seu corpo de ternura
delineiam nos meus olhos fitos
o calor dos afagos, e o aperto nos seios,
e o transpirar constante de corpos nus,
deixe-se e permita-me tirar com beijos
e carinhos muitos a espuma dos lábios
e quero despentear os cabelos
e atirar-me aos seios
modificando suas formas
no hirto da ansiedade e dos desejos,
e grite, apertando-me às suas entranhas
com fogo, e força, e com prazer bastante,
e repouse por fim
no aconchego dos braços,
e não pare,
e não pense, e não parta,
apenas, derrame o beijo da sua boca
para que cubra minha boca novamente…
SANTHA ( Isabella Ingra )
se sou a santa a te olhar do meu altar
com sua calça jeans decadente e seu all star
de sempre.
se sou a santa a fugir
na calada da noite para me espremer entre as grutas com os nativos
se sou a santa a chorar as lágrimas
dos meus filhos e gozar a alegria dos meus súditos
se sou a santa a gemer
entre os intervalos desse sino
se sou a santa a vestir uma camisola tão transparente
tão pura
tão marcada entre as coxas
ajoelhe-se e abra a boca.
se sou a santa que implora a própria unção
se me escondo atrás dessas cortinas para que não vejas meus olhos de felina
para não causar confusão entre os irmãos
se sou uma santa ou sua sina
ou sua cisma
fugitiva.
QUALQUER LUGAR ( Isabella Ingra )
se pudesse
te amava no chão
pagaria pela dor nas costas do outro dia
se pudesse
te amava no portão
pagaria pelas fofocas do outro dia
se pudesse
te amava na escada
pagaria pelos quadris doloridos do outro dia
se pudesse
te amava em sonho a noite inteira
pagaria pela nostalgia do outro dia.
se pudesse, eu te amaria.
TULIPA ( Isabella Ingra )
minha flor se abre para você
desabrocha e chora por você
pede por água, tem muita sede
minha flor se escancara por você
pede por água e carinho,
talvez uma conversa
minha flor tímida se abre para você mesmo quando
minhas pétalas retraem diante da dor
mesmo quando o clima está seco
minha flor se abre para você
não me pergunte por quê.
UMA HISTÓRIA QUASE NOSSA ( Graça Pires)
Enquanto me dispo, vão-se os teus olhos cobrindo
07/03/2024
OS PRESTÍGIOS SIMPLES ( António Ramos Rosa )
Conheço as palavras das árvores, as voluptuosas têmporas
das pedras. Toda a minha vida é um sono de árvores.
Vivo oscilando como uma simples coisa
na paz do espaço. Não pergunto às folhas
onde o país unânime. Sou uma chama do ar.
Oscilo na folhagem. Vibro entre mãos aéreas
sobre os sulcos dos insectos. Amo os simples
prestígios, os percursos leves, as sombras verdes.
Esta é a minha casa de pedras e de sol.
Esta é a minha firmeza suave, minha alegria nova.
Estou no meio do vento, sou uma haste solitária.
Bebo as sombras que deslizam numa volúpia aérea.
Dispo-me e sou um tronco, ou um ramo, uma figura da terra.
Adormeço e desperto para o júbilo do mar.
A boca encontra o seio da primeira harmonia.
















