24/03/2024

AMOR QUANDO ME AMAS ( Natália Nuno )

 Louca... louca queria ser!

Rio que desliza rumo
ao  mar,
fluir indiferente, sem cessar
Esquecer,
o futuro inverno  cinzento,
esquecer meu desalento.

Meus olhos são rios nascendo,
e  nem sei porque choram!
Talvez porque se estão perdendo
dos teus, que tanto os namoram.

Tão triste porquê, não sei!
O que procuro também  não
Tantas horas já passei
sem saber porque razão.

O tempo me foge e se  perde
A galope sobre meu rosto
Que já foi seara verde
E também luar de  Agosto.

Solta-se a lua sobre as águas
Em meus olhos faz remoinho
A  sombra das minhas mágoas
Se estende p'lo caminho.

E já o mundo  amanhece
Nas fronteiras do meu sonho
Logo o corpo padece
Nem ouve o que  lhe proponho.

Nas minhas mãos nostalgias
Trago no peito  ameaças
Neste amor terna me querias!
Ternura há quando me  abraças.

Ergo-me de fronte ao céu
Nas minhas mãos as  esperanças
Minha alma trago ao léu
Na memória as lembranças.

Corre  depressa meu sangue
no coração a arder,
numa rajada de chamas.
Louca...  louca queria ser
Amor quando me amas!

DESEJO ( Nuno Júdice )

Queria ser essa noite que te envolve; e
cobrir-te com o peso obscuro dos braços
que não se vêem. Um murmúrio
desceria de uma vegetação de palavras,
enrolando-se nos teus cabelos como
secretas folhas de hera num horizonte
de pálpebras. Deixarias que te olhasse
o fundo do olhos, onde brilha
a imagem do amor. E sinto os teus dedos
soltarem-se da sombra, pedindo
o silêncio que antecede a madrugada.

18/03/2024

RETRATO ( Nuno Júdice )

 Amo-te; e o teu corpo dobra-se,

no espelho da memória, à luz

frouxa da lâmpada que nos

esconde. Puxo-te para fora

da moldura: e o teu rosto branco

abre um sorriso de água, e

cais sobre mim, como o

tronco suave da noite, para

que te abrace até de madrugada,

quando o sono te fecha os olhos

e o espelho, vazio, me obriga

a olhar-te no reflexo do poema.



FAGULHA ( Ana Cristina Cesar )

 Abri curiosa

o céu.
Assim, afastando de leve as cortinas.
Eu queria entrar,
coração ante coração,
inteiriça
ou pelo menos mover-me um pouco,
com aquela parcimônia que caracterizava
as agitações me chamando
Eu queria até mesmo
saber ver,
e num movimento redondo
como as ondas
que me circundavam, invisíveis,
abraçar com as retinas
cada pedacinho de matéria viva.
Eu queria
(só)
perceber o invislumbrável
no levíssimo que sobrevoava.
Eu queria
apanhar uma braçada
do infinito em luz que a mim se misturava.
Eu queria
captar o impercebido
nos momentos mínimos do espaço
nu e cheio
Eu queria
ao menos manter descerradas as cortinas
na impossibilidade de tangê-las
Eu não sabia
que virar pelo avesso
era uma experiência mortal.

12/03/2024

DEZ CHAMAMENTOS AO AMIGO ( Hilda Hilst )

 I

Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo.
Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse
Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.
Te olhei. E há um tempo
Entendo que sou terra. Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta
Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento. 

II

Ama-me. É tempo ainda. Interroga-me.
E eu te direi que o nosso tempo é agora.
Esplêndida altivez, vasta ventura
Porque é mais vasto o sonho que elabora
Há tanto tempo sua própria tessitura.
Ama-me. Embora eu te pareça
Demasiado intensa. E de aspereza.
E transitória se tu me repensas.

III

Se refazer o tempo, a mim, me fosse dado
Faria do meu rosto de parábola
Rede de mel, ofício de magia
E naquela encantada livraria
Onde os raros amigos me sorriam
Onde a meus olhos eras torre e trigo
Meu todo corajoso de Poesia
Te tomava. Aventurança, amigo,
Tão extremada e larga
E amavio contente o amor teria sido.

IV

Minha medida? Amor.
E tua boca na minha
Imerecida.
Minha vergonha? O verso
Ardente. E o meu rosto
Reverso de quem sonha.
Meu chamamento? Sagitário
Ao meu lado
Enlaçado ao Touro.
Minha riqueza? Procura
Obstinada, tua presença
Em tudo: julho, agosto
Zodíaco antevisto, página
Ilustrada de revista
Editorial, jornal
Teia cindida.
Em cada canto da Casa
Evidência veemente
Do teu rosto.

V

Nós dois passamos. E os amigos
E toda minha seiva, meu suplício
De jamais te ver, teu desamor também
Há de passar. Sou apenas poeta
E tu, lúcido, fazedor da palavra,
Inconsentido, nítido
Nós dois passamos porque assim é sempre.
E singular e raro este tempo inventivo
Circundando a palavra. Trevo escuro
Desmemoriado, coincidido e ardente
No meu tempo de vida tão maduro.

VI

Foi Julho sim. E nunca mais esqueço.
O ouro em mim, a palavra
Irisada na minha boca
A urgência de me dizer em amor
Tatuada de memória e confidência.
Setembro em enorme silêncio
Distancia meu rosto. Te pergunto:
De Julho em mim ainda te lembras?
Disseram-me os amigos que Saturno
Se refaz este ano. E é tigre
E é verdugo. E que os amantes
Pensativos, glaciais
Ficarão surdos ao canto comovido.
E em sendo assim, amor,
De que me adianta a mim, te dizer mais?

VII

Sorrio quando penso
Em que lugar da sala
Guardarás o meu verso.
Distanciado
Dos teus livros políticos?
Na primeira gaveta
Mais próxima à janela?
Tu sorris quando lês
Ou te cansas de ver
Tamanha perdição
Amorável centelha
No meu rosto maduro?
E te pareço bela
Ou apenas te pareço
Mais poeta talvez
E menos séria?
O que pensa o homem
Do poeta? Que não há verdade
Na minha embriaguez
E que me preferes
Amiga mais pacífica
E menos aventura?
Que é de todo impossível
Guardar na tua sala
Vestígio passional
Da minha linguagem?
Eu te pareço louca?
Eu te pareço pura?
Eu te pareço moça?
Ou é mesmo verdade
Que nunca me soubeste?

VIII

De luas, desatino e aguaceiro
Todas as noites que não foram tuas.
Amigos e meninos de ternura
Intocado meu rosto-pensamento
Intocado meu corpo e tão mais triste
Sempre à procura do teu corpo exato.
Livra-me de ti. Que eu reconstrua
Meus pequenos amores. A ciência
De me deixar amar
Sem amargura. E que me dêem
Enorme incoerência
De desamar, amando. E te lembrando
– Fazedor de desgosto –
Que eu te esqueça.

IX

Esse poeta em mim sempre morrendo
Se tenta repetir salmodiado:
Como te conhecer, arquiteto do tempo
Como saber de mim, sem te saber?
Algidez do teu gesto, minha cegueira
E o casto incendiado momento
Se ao teu lado me vejo. As tardes
Fiandeiras, as tardes que eu amava,
Matéria de solidão, íntimas, claras
Sofrem a sonolência de umas águas
Como se um barco recusasse sempre
A liquidez. Minhas tardes dilatadas
Sobreexistindo apenas
Porque à noite retomo minha verdade:
teu contorno, teu rosto álgido sim
E por isso, quem sabe, tão amado.

X

Não é apenas um vago, modulado sentimento
O que me faz cantar enormemente
A memória de nós. É mais. É como um sopro
De fogo, é fraterno e leal, é ardoroso
É como se a despedida se fizesse o gozo
De saber
Que há no teu todo e no meu, um espaço
Oloroso, onde não vive o adeus.
Não é apenas vaidade de querer
Que aos cinquenta
Tua alma e teu corpo se enterneçam
Da graça, da justeza do poema. É mais.
E por isso perdoa todo esse amor de mim
E me perdoa de ti a indiferença.

FRÉMITO DO MEU CORPO A PROCURAR-TE ( Florbela Espanca ) in A Mensageira das Violetas

 Frémito do meu corpo a procurar-te,

Febre das minhas mãos na tua pele
Que cheira a âmbar, a baunilha e a mel,
Doído anseio dos meus braços a abraçar-te,

Olhos buscando os teus por toda a parte,
Sede de beijos, amargor de fel,
Estonteante fome, áspera e cruel,
Que nada existe que a mitigue e a farte!

E vejo-te tão longe! Sinto tua alma
Junto da minha, uma lagoa calma,
A dizer-me, a cantar que não me amas...

E o meu coração que tu não sentes,
Vai boiando ao acaso das correntes,
Esquife negro sobre um mar de chamas...

11/03/2024

EU - CARISTIA ( Yara Fers )




 


 

 

 

AVISO ( Roberta Lantyer )

Tenho os peitos em riste
na sua cara.

Não ouse encostar seus dedos
de novo
em meu corpo
eu posso arrancar suas unhas
com os dentes
e castrar cada um
dos seus membros
falidos.

Cuidado,
eu tenho língua afiada
que faz corte fundo.

A minha adaga
eu amolo entre as pernas
e na palavra

PARA GOZAR ATÉ DOER OS MÚSCULOS ( Roberta Lantyer)

há que ter as unhas lisas e os dedos livres
há que passar levemente entre as coxas chegar aos lábios, os grandes
delicadamente,
a que se sentir o sumo
lamber os dedos
sentir o doce amargo
que se verte

há que saber seu gosto, deixar molhar os mamilos afoitos
há que sentir arder a nuca
há que se descer os dedos
comer dois deles inteiros

há que queimar com as águas que escoam
o fogo líquido há que fazer tremer
há que escutar o mar, marejar as pernas
há que derramar inteira
há que pingar
há que


SONETO PERDIDO ( Natalia Klussmann )

Vês! Exibo-me totalmente nua
A pele ardente brilha em plena espera
Deslizo um dedo ou dois — sou pantera –
Uma fera incendiada, toda sua.

Entregue às carícias mais féericas
Na palma da minha mão sua carne crua
Lateja, sôfrega, goteja e flutua
E aninho seu mastro entre as minhas pernas.

“Vai, engole! Sua vadia, piranha!
Meto a piroca e acabo com a sanha
Soco sem dó, arrebento sua greta!”

A mão que amordaça é a mesma bate
Mas essa é a ordem da sociedade
Então, escarra no meu sexo e me beija.

SEGREDO DE MENINA ( Laryssa Carreiro )

sozinha aprendi a
me libertar da loucura
mexer meus quadris e sentir
prazer no movimento que
só o meu corpo tem feito
não há defeito e
o efeito é quase instantâneo

a sensação percorre o sangue
resistir é um crime
diante de tanto afeto
sigo (auto)imune

toco sob o pano do meu
úmido tecido de baixo
na linha do perigo, digo
atenção: não vá embora agora
que tá ficando bom

pode abrir as pernas
e curtir um som

SEM TÍTULO ( Carol Ruiz )

deitada nua ao chão
seu membro duro
tocando os gomos
a eletricidade
percorrendo todas
as minhas veias

seu corpo pesado
quente sobre o meu
fecho os olhos
fecundada como árvore
galhos se expandem
a partir de todo o meu corpo
em folhas flores e frutos
sou toda seiva

VESPA-DO-FIGO (Carol Ruiz)


o figo é uma fruta
para lamber
sentir seu cheiro
penetrar seu orifício
com os dedos
parti-lo ao meio
morder sua polpa
comê-lo de ponta a ponta

saborear o figo
: saciar o desejo

VII (Pietro Nardella Dellova)

 VII

Os seus olhos rompem o silêncio

do claustro, e na noite brilham os

lábios avermelhados, na vontade

de beijos loucos, e no acaso reclamam

os abraços e os amores vários,

e estes traços que se mostram

no seu corpo de ternura

delineiam nos meus olhos fitos

o calor dos afagos, e o aperto nos seios,

e o transpirar constante de corpos nus,

deixe-se e permita-me tirar com beijos

e carinhos muitos a espuma dos lábios

e quero despentear os cabelos

e atirar-me aos seios

modificando suas formas

no hirto da ansiedade e dos desejos,

e grite, apertando-me às suas entranhas

com fogo, e força, e com prazer bastante,

e repouse por fim

no aconchego dos braços,

e não pare,

e não pense, e não parta,

apenas, derrame o beijo da sua boca

para que cubra minha boca novamente…


SANTHA ( Isabella Ingra )

 se sou a santa a te olhar do meu altar

com sua calça jeans decadente e seu all star

de sempre.

 

se sou a santa a fugir

na calada da noite para me espremer entre as grutas com os nativos

 

se sou a santa a chorar as lágrimas

dos meus filhos e gozar a alegria dos meus súditos

 

se sou a santa a gemer

entre os intervalos desse sino

 

se sou a santa a vestir uma camisola tão transparente

tão pura

tão marcada entre as coxas

ajoelhe-se e abra a boca.

 

se sou a santa que implora a própria unção

se me escondo atrás dessas cortinas para que não vejas meus olhos de felina

para não causar confusão entre os irmãos

 

se sou uma santa ou sua sina

ou sua cisma

fugitiva.


QUALQUER LUGAR ( Isabella Ingra )

 se pudesse

te amava no chão

pagaria pela dor nas costas do outro dia

se pudesse

te amava no portão

pagaria pelas fofocas do outro dia

se pudesse

te amava na escada

pagaria pelos quadris doloridos do outro dia

se pudesse

te amava em sonho a noite inteira

pagaria pela nostalgia do outro dia.

se pudesse, eu te amaria.


TULIPA ( Isabella Ingra )

 minha flor se abre para você

desabrocha e chora por você

pede por água, tem muita sede

minha flor se escancara por você

pede por água e carinho,

talvez uma conversa

minha flor tímida se abre para você mesmo quando

minhas pétalas retraem diante da dor

mesmo quando o clima está seco

minha flor se abre para você

não me pergunte por quê.

UMA HISTÓRIA QUASE NOSSA ( Graça Pires)

 Enquanto me dispo, vão-se os teus olhos cobrindo

de perturbado gozo. Vem. Somos jovens de novo.
Podemos colher os medronhos, ainda molhados
pelo orgasmo da manhã e partilhar, palmo a palmo,
a secreta invenção do musgo.
Podemos transgredir o rio da cintura
e reajustar a nau que aporta sobre a boca.
Vem. Podemos roçar a polpa, lamber o suco,
tactear as raízes do fruto ou da fome.
Podemos arriscar as asas, adiar o voo
e, no vértice dos corpos, fruir a paisagem,
lentamente. Vem.

07/03/2024

OS PRESTÍGIOS SIMPLES ( António Ramos Rosa )

Conheço as palavras das árvores, as voluptuosas têmporas
das pedras. Toda a minha vida é um sono de árvores.
Vivo oscilando como uma simples coisa
na paz do espaço. Não pergunto às folhas
onde o país unânime. Sou uma chama do ar.

Oscilo na folhagem. Vibro entre mãos aéreas
sobre os sulcos dos insectos. Amo os simples
prestígios, os percursos leves, as sombras verdes.
Esta é a minha casa de pedras e de sol.
Esta é a minha firmeza suave, minha alegria nova.

Estou no meio do vento, sou uma haste solitária.
Bebo as sombras que deslizam numa volúpia aérea.
Dispo-me e sou um tronco, ou um ramo, uma figura da terra.
Adormeço e desperto para o júbilo do mar.
A boca encontra o seio da primeira harmonia.